Caça às Bruxas

Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de assistir (ou ler) a peça do Arthur Miller, The Crucible (conhecida aqui como As Bruxas de Salem). A peça é baseada nos eventos que de fato ocorreram em Salem em 1692 (a famosa “caça às bruxas” que todos conhecem bem), mas ele usa esses acontecimentos como alegoria para algo que acontecia em seu tempo: o Macartismo.

Não deixa de ser genial, dentro de sua proposta: uma crítica à atmosfera de medo criada, de como esse terror beneficia alguns e paralisa outros. E, principalmente, de como o terror tolhia os americanos do que eles consideram sua característica mais importante, a liberdade. Nas próprias palavras do Miller:

“The Crucible” was an act of desperation. Much of my desperation branched out, I suppose, from a typical Depression-era trauma—the blow struck on the mind by the rise of European Fascism and the brutal anti-Semitism it had brought to power. But by 1950, when I began to think of writing about the hunt for Reds in America, I was motivated in some great part by the paralysis that had set in among many liberals who, despite their discomfort with the inquisitors’ violations of civil rights, were fearful, and with good reason, of being identified as covert Communists if they should protest too strongly.

(Se seu Inglês estiver em ordem, você pode conferir esse ótimo artigo do Miller: Why I Wrote “The Crucible”)

Não deixa de ser interessante que 50 anos depois, alguém lance mão do recurso da alegoria para mais uma vez abrir os olhos das pessoas para o terror. Em seu Boa Noite e Boa Sorte George Clooney usa os fatos que ocorreram durante o Macartismo como uma alegoria para o que está ocorrendo hoje em dia com o governo Bush.

É impressionante, porque o filme é quase que só recorte de programas de Edward R. Murrow mesclados com um, digamos assim, “making of“. E cada vez que ele aparece falando com o público, é um belo tapa de luva de pelica nos americanos (e, bem, por que não todos nós?) de hoje em dia. É cru, é duro. E verdadeiro.

No final das contas, é lindo. Vou ficar devendo alguns momentos do filme porque não vou lembrar de todos os “discursos” do Murrow e na parte de citações do IMDB por enquanto só tem falas tolinhas do filme, o que não me surpreende at all. Se bobear, o pessoal lá só entenderá que esse filme é uma alegoria daqui uns 50 anos.

Sinceridade? Funciona de forma muito melhor do que qualquer Michael Moore esfregando verdades que já conhecemos. Na realidade, funciona porque enquanto Murrow fala para aquele pessoal da década de 50, ele está é puxando nossa orelha.

Não deixem de assistir.

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4 thoughts on “Caça às Bruxas

  1. O discurso dele no começo e no fim do filme são maravilhosos. Sem contar que às vezes me dava um banque quando ele dizia: “Boa noite e boa sorte” e ficava aqueles segundos olhando fixamente para a tela.

  2. Esse filme Boa Noite e Boa Sorte, é um que eu deixei de divulgar adequadamente, uma boa lembrança Anica.

    …uma crítica à atmosfera de medo criada, de como esse terror beneficia alguns e paralisa outros. E, principalmente, de como o terror tolhia os americanos do que eles consideram sua característica mais importante, a liberdade. …

    As vezes eu esqueço que lá nos Estados Unidos também foi um tempo difícil.

  3. Não li a peça (ainda) e não vi o filme (ainda). Mas com certeza a peça já está na minha lista de livros a comprar e o filme, que já estava na minha lista de filme a ver, ficou agora no primeiro lugar da lista.

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