Frufru Rataplã Dolores (Dalton Trevisan)

Logo que vi a notícia sobre os pais e professores de uma escola de Minas que achavam a leitura de Dalton Trevisan imprópria para seus filhos pensei que se tratava de mais uma bobagem sem tamanho, uma tentativa de impor um código moral na literatura quando não se aplica em outras mídias (cinema, TV, etc.). Cheguei até a planejar escrever algo sobre isso, mas aí lembrei de como era quando eu era adolescente: se me falassem que eu não podia, aí sim que eu ia cismar com aquilo. Então minha conclusão do caso todo é que bem, esses pais e professores acabaram prestando um favor à molecada. Consigo imaginar títulos de Dalton sendo lidos clandestinamente, passados de mão em mão – mais ou menos como aconteceu comigo com Christiane F., quando tinha 12 anos. Ok, na realidade eu fico torcendo por isso. Porque Dalton não carrega o título de “um-dos-melhores-contistas-brasileiros” por nada. Escrevendo há tantos anos, o autor já trabalhou o conto das maneiras mais variadas, dilapidando de modo a tirar toda a gordura, e mesmo com contos hai-kais ainda assim consegue criar grande efeito no leitor.

É o que fica evidente em Frufru Rataplã Dolores, coletânea lançada pela L&PM recentemente. O livro é bastante curto (não chega a 130 páginas) e traz uma série de contos publicados anteriormente em livros que saíram pela Editora Record. A ideia, ao que me parece, é ter uma espécie de “menu degustação” de Dalton, de modo a conhecer melhor seu trabalho. E de fato, a essência do contista está ali, nos pequenos retratos do cotidiano de gente absolutamente normal, com toda a variedade de qualidades e defeitos que qualquer um pode ter. Não são heróis, não são perfeitos e justamente por isso encantam (e talvez também por isso incomodem?). Com Dalton  Trevisan o ordinário é colocado sob uma lente de aumento, e podemos observá-lo dos mais diferentes ângulos.

Conheço um pouco da produção do curitibano e sei que uma de suas marcas registradas é chamar as personagens na grande maioria das vezes de Maria e João, e aqui não é diferente. Lembrei de uma leitura que o Palazo fez de Chorinho Brejeiro, sugerindo que os nomes iguais acabam dando uma sensação de continuidade, como se formassem uma grande história, e foi exatamente o que senti – pelo menos em parte dos textos da coletânea. A Maria (Mariiia!) que aparece no primeiro conto como a garota que amava seus bichinhos de estimação quase como em substituição dos namorados que a mãe não deixava ter parece ser a mesma nos contos seguintes: separada de João, a tentativa de relacionamento com André, falando sobre a vida com o mudinho no telefone, etc. E do modo como está organizado o livro, parece seguir quase uma ordem linear, passando da juventude até a velhice dessa Maria. Mas depois chega um momento em que a linha não continua, e a leitura de Frufru Rataplã Dolores volta a soar mais como uma série de contos mesmo.

Mas acho que a maior qualidade da obra de Dalton que fica bastante evidenciada nessa coleção é a qualidade das imagens que ele cria. Lembrando, a palavra de ordem no estilo desse contista é concisão, então quando falo de qualidade de imagens estou elogiando exatamente o modo como ele consegue criar toda uma ambientação com poucas palavras. Mais do que a ambientação, há também a carga de sentimentos que são passados sem que haja necessidade de descrevê-los em todos os detalhes. Como por exemplo no trecho de “Feliz Natal”:

– Primeiro morreu a mãe de João. Estava em Paris. Sempre me explicava o que sentiu ao abrir o telegrama: “Mamãe acaba de falecer”. Senti fome, Maria – ele me disse. Uma bruta fome que nada podia saciar.  Comeu ferozmente.  Se empanturrou ao ponto de passar mal.  Queria comer a própria dor.

Dos temas recorrentes, as relações entre homens e mulheres estão ali, e por mais que desejemos pensá-las anacrônicas (a mulher dependendo de “mesada” de ex, por exemplo), ainda são realidade. Não vi a metralhadora apontando para ninguém em especial como acontece no caso de Desgracida, por exemplo, e inclusive o ato de escrever aparece de forma bem mais sutil (destaque para a frase de João em “O quinto cavaleiro do Apocalipse”: “Primeiro escrevo. Depois me arrependo. Ou nunca mais escrevo“). Senti um pouco de falta dos contos que envolvem crianças, até porque acho que Dalton consegue transmitir uma surpreendente doçura nessas histórias (já que “doce” não é exatamente um termo para se aplicar de modo geral a sua produção). De qualquer forma, o principal – o que faz você saber que está lendo algo dele – está ali, em pequenas amostras.

Assim, o termo para se usar para falar da sensação que se tem ao ler Frufru Rataplã Dolores é um tanto complicado de encontrar. Não é possível usar os chavões das resenhas como “delícia”, “gostoso”, porque como o Ivan Pinheiro Machado bem fala no vídeo sobre este livro, os contos do curitibano são duros, é quase um tapa na cara a cada página virada. Por outro lado, ele escreve tão bem, manipula as palavras de forma tão extraordinária que não tem como não pensar que é realmente um prazer poder ler suas histórias.

E é por esse prazer que desejo de verdade que o tal do banimento do livro Violetas e pavões cause o efeito contrário: que provoque o interesse da gurizada e que eles comecem a ir atrás do autor. Não sou ingênua, sei que muitos lerão as partes “eróticas” dos contos e pensarão “Poutz, mas é só isso?” e abandonarão os livros meio desapontados. Mas se entre vários curiosos pelo menos um for fisgado pelo estilo do escritor, confesso que já consigo ver um lado bom em notícias como essa.

Frufru Rataplã Dolores
Dalton Trevisan
128 páginas
Preço sugerido: R$14,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da L&PM Editores

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