A culpa é das estrelas (John Green)

Pode parecer estranho dizer isso, mas fui pega de surpresa por A culpa é das estrelas, de John Green. A parte estranha da informação diz respeito ao fato de que este não é um livro obscuro lido por poucas pessoas, daqueles que chegam em suas mãos sem qualquer informação e te pegam de surpresa. Não, comigo não foi por aí. Desde o lançamento lá fora eu já ouvido falar muita coisa sobre A culpa é das estrelas, com adjetivos que traziam variações do termo “apaixonante”, então é evidente que minhas expectativas estavam lá no alto quando finalmente comecei a ler. E aí  foi um tanto frustrante começar a leitura e perceber que bem, o livro não era tudo aquilo. Por que diabos as pessoas gostavam tanto? Parecia morno, e mesmo uma repetição de muita coisa que já tinha visto em outros livros YA. Além disso, confesso que mesmo que uma doença incurável justifique um amadurecimento precoce, o modo como Hazel e Augustus se comportavam e falavam me soava um tanto artificial e em alguns momentos até irritante: “não posso admitir isso porque sou um adolescente”, diz um deles em determinado momento.

Sim, Augustus aparecia como uma personagem bastante cativante, mas enfim, faltava uma fagulha, alguma coisa ali que justificasse a razão pela qual todo mundo parecia amar o livro. Entendam: eu não estava odiando, só não estava achando que merecesse tanto elogio. E então Hazel e Augustus vão para Amsterdam buscar respostas do autor de uma obra que os dois adoravam e tudo muda de figura. TUDO. Entendi os elogios e eu mesma acabei me encantando pela história. Aquele começo que eu achei sem sal então faz todo sentido. Mais do que isso, torna-se fundamental para um efeito que John Green aparentemente queria causar. E como falarei do tal efeito daqui para frente, peço para quem não leu o livro que pare neste parágrafo, porque A culpa é das estrelas é um daqueles casos em que quanto menos você sabe sobre a obra, melhor.

O jogo de John Green é mais ou menos assim: ele nos apresenta Hazel, mostra o quanto ela sofre, embora tente tirar o melhor do pouco tempo extra que ganhou. Sabemos que é uma questão de tempo, então começamos a leitura imaginando que o final muito provavelmente envolve a morte da personagem, o que faria um certo jogo com o livro que ela tanto gosta, Uma aflição imperial: quando ela morresse, acabaria a história e não saberíamos o que aconteceu com as outras pessoas que de algum modo se relacionavam com Hazel. E tal como em um truque de mágica grande parte do sucesso está em distrair a plateia, Green está fazendo exatamente isso a cada momento em que respirar torna-se quase impossível para a garota, ou quando ela vai parar na UTI. Ele está nos distraindo do que seria o óbvio caso a narrativa não estivesse em primeira pessoa: o livro não é sobre Hazel, mas sobre Augustus, e portanto sobre como o câncer tomou a vida dele.

O primeiro grande evento narrado por Hazel é justamente o momento em que ela o conhece, quando ele fica olhando fixamente para a menina e eles têm a conversa sobre não querer ser esquecido ao morrer. E a partir daí, tudo gira em torno de quando ela o verá, quando eles conversam, de como estão se aproximando. Pouco a pouco a personagem é construída de modo que o leitor possa conhecê-lo em seu melhor, e é quando ele chega no pior que dói. E dói mesmo.  Desde o momento em que Augustus conta para Hazel que o câncer voltara, eu acredito que não parei de chorar uma vez sequer até o fim. E tenho certeza de que caso a garota fosse a vítima, eu não teria sentido tanto – talvez porque inicialmente ela pareça até meio conformada com a inevitabilidade de seu fim, e Augustus por outro lado parecia querer nadar contra essa corrente de toda maneira possível, não sei. Só sei que chega a ser angustiante acompanhar o fim dele.

E colocando a coisa em números, nós temos 162 páginas e 12 capítulos do que eu considerei “sem graça”, o que dá um pouco a mais do que a metade. Mas o que John Green faz depois é tão forte, mexe tanto com as emoções do leitor que um livro que ficaria ali no razoável passa a ser ótimo.  Não é masoquismo, não gosto de sofrer (muito menos por seres fictícios). Mas qualquer autor que consiga causar algo no leitor, tirá-lo da passiva aceitação do que é contado para algo mais (no caso, um sentimento forte sobre os acontecimentos), merece algum elogio e muito respeito. Porque veja bem, ele tinha tudo para fazer um romancezinho brega e até mesmo ordinário. O câncer é uma doença devastadora, e quem já perdeu alguma pessoa querida para essa doença sabe do que eu estou falando. Mas dependendo do modo como Green colocasse a história de Hazel e Augustus, ela seria mais do mesmo. Triste, é evidente. Mas ainda assim, mais do mesmo.

Só que então vem a escolha de Hazel como narradora, e como consequência a construção e desconstrução de Augustus. Mesmo a inclusão do amigo Isaac tem uma razão de ser – ao ler, reparem como os momentos em que o coração fica mais apertado são os que têm alguma relação com ele, como quando ele diz no elogio fúnebre no Coração Literal de Jesus “não quero ver um mundo sem o Augustus” ou, quando no velório conta sobre a boa notícia que Augustus falou logo após Isaac retirar o olho e ficar cego “Você vai viver uma vida boa e duradoura cheia de momentos maravilhosos e terríveis que você ainda não tem como imaginar como serão!”. São passagens que fazem disparar aquele velho e conhecido sentimento de revolta quando da morte de uma pessoa boa. E não se engane sobre a questão do câncer. É evidente que torna tudo mais sofrido e difícil, mas a dor da perda que Hazel e os amigos sentem teria acontecido mesmo que Augustus tivesse morrido em um acidente que lhe valesse indicação para o Darwin Awards.

Assim, A culpa é das estrelas não ganha destaque entre os ‘n’ lançamentos mensais porque John Green seja um gênio das palavras. Não, formalmente falando, o livro é normal, nada de extraordinário. O destaque vem nas escolhas acertadas (quando tanta coisa poderia dar errado). Porém, mais do que isso, no modo como o autor consegue mexer com os sentimentos do leitor, lembrando assim de uma das características mais importantes da Arte, a de emocionar os homens.

A culpa é das estrelas

Autor: John Green

Tradução: Renata Pettengill

Editora: Intrínseca

Páginas: 288

Preço sugerido: R$ 29,90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Intrínseca

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6 thoughts on “A culpa é das estrelas (John Green)

  1. Lendo a tua resenha e relembrando o que passei ao ler essa obra, percebo que “A Culpa é das Estrelas” é um desses livros que parecem filmes que ganham o Oscar e ninguém concorda. Dividiu muito as opiniões, nem todo mundo gostou. Eu me emocionei bastante. A história fluiu muito bem e a inteligência surreal da narrativa de Hazel não me deixou aflita por parecer impossível. Até porque, anteriormente, eu havia lido “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto” do Safran Foer, cuja narrativa não se difere muito da Hazel – e o personagem tem apenas 9 ou 11 anos (não lembro).
    Enfim, também o resenhei lá no blog. E fiz questão de frisar: “não é mais um livro triste sobre crianças com câncer”. Não é mesmo.
    Moça, quero ver resenha tua d’A Idade dos Milagres.
    Abraços.
    Abraços.

    1. Eu acho que talvez as opiniões se dividam tanto sobre o livro por causa do começo – não sei se todo mundo se toca da jogada do John Green e aí julga o livro não pelo todo, entende? Mas olha, eu até consigo pensar em alguém dizendo que “não gostou”, agora dizer que é “ruim” é difícil – o livro não é. Aliás, dos YA que li nos últimos anos eu colocaria ele fácil num top3.

  2. (SPOILERS)

    Então você também se entregou à febre do momento, Anica ? 😀

    Uma amiga minha me disse hoje algo interessante: estamos todos em estado terminal, pois estamos vivos e um dia chegará nossa vez. Augustus aparece como alguém que faz Hazel despertar da letargia depressiva a que ela se entrega, mas como tudo que é bom dura pouco, infelizmente somos trazidos de volta à realidade no momento menos esperado – e doi no leitor sofrer junto com ela.
    O maior encanto do romance é quebrar o tropo do “Little Cancer Patient”, que vimos desde a série “House” ao filme “Uma Prova de Amor”. Sabendo da experiência de Green em hospitais cuidando de crianças enfermas, fiquei mais surpreso ainda em como ele consegue fazer a protagonista soar como uma adolescente amadurecida por força das circunstâncias – dizem que isso é mais comum do que parece em casos de doenças graves.
    Yves Reuter diz que o romance é praticamente um “pedaço de vida”, e a arte de Green está justamente nisso: saber onde aparar, sem sobrar ou faltar. Ele é fluido e gostoso, mas nunca é condescendente nem entrega as coisas de maneira fácil. Não há um melodrama, mas a tragédia do desinteresse do universo, como bem colocado nas palavras de Augustus sobre ter medo de ser esquecido.
    Um abraço, Anica.

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