Tag Archives: Quadrinhos na Cia

Habibi (Craig Thompson)

Antes de qualquer coisa que se possa falar sobre o mais recente trabalho de Craig Thompson, Habibi, uma coisa é inquestionável: a graphic novel é linda. Linda mesmo, de encher os olhos – cada página parece um quadro, com vários detalhes a serem observados. Não à toa o processo de criação da HQ foi de quase 8 anos: basta observar a página que marca a divisão de capítulos, com uma padronagem belíssima, que eu até por curiosidade observei cuidadosamente para ver se não era um bom ctrlc ctrlv do computador; mas não – se tiverem o livro em mãos, reparem como cada desenho é único, formando um painel rico e, como já dito anteriormente, muito bonito. O efeito se repete de forma mais discreta nas outras páginas, onde o destaque da arte passa a ser o cuidado com que Thompson retrata as histórias contatas por Dodola, e vividas por ela e seu filho adotivo Zam.

Ambos representam minorias no lugar em que vivem: Dodola é mulher, vendida como esposa ainda criança, e desde cedo precisa usar o corpo para sobreviver. Zam é negro, e tem a chance de não ser escravo quando Dodola o salva ainda com três anos de idade, quando então eles passam a viver juntos em um barco abandonado no meio do deserto. Dodola assume um papel de mãe e irmã, mas com a idade logo Zam passa a enxergá-la acima de tudo como mulher, passa a sentir desejo pela pessoa que até então o criara. Isso fica muito bem representado na sequência de quadrinhos que mostra como era o banho das personagens, antes juntos e de forma inocente, e depois separados, com o pedido da garota de que ele não ficasse olhando fixamente para o corpo dela.

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Wilson (Daniel Clowes)

Em tempos de redes sociais você provavelmente já passou por isso: escreveu uma mensagem, pensou melhor e então apagou. Talvez não necessariamente porque fosse ferir o sentimento da pessoa que a receberia, mais para evitar um conflito futuro, ou mesmo que sua imagem de pessoa bacana fique arranhada por dizer algumas verdades para quem supostamente mereceria ouvir. Pois bem, seja lá qual for o motivo que faça muita gente agir assim, Wilson de Daniel Clowes parece não ter essa ferramenta. Fala o que tem vontade sem o menor medo de ser desagradável. E é tão, mas tão desagradável que chega a ser engraçado.

A HQ lançada pela Companhia das Letras segue um formato de episódios de uma página, seguindo uma ordem cronológica que vai alinhavando uma história maior, que de modo resumido dá para dizer que é a luta de Wilson contra a solidão que ele causou contra si, justamente por causa desse jeito de agir. Ele quer “fazer parte”, mas ao mesmo tempo não quer abrir mão de ser como é.

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Retalhos (Craig Thompson)

O leitor desavisado que pega um volume de Retalhos, do artista norte-americano Craig Thompson, provavelmente levará um susto. O livro tem quase 600 páginas, um número atípico quando se fala em graphic novels. Se você tem algum medo ou preguiça sobre catataus, saiba já de antemão que Retalhos vale a pena, com uma história simples Thompson agarra a atenção do leitor que só deixa o livro de lado quando já chegou ao fim, que vem mais rápido do que se espera.

Retalhos é uma HQ autobiográfica, na qual Thompson retrata um pouco de sua infância e adolescência em Wisconsin, focando principalmente em sua relação com o irmão e com uma garota que conhece em um acampamento religioso, Raina. Aliás, talvez mais importante que a relação dele com essas pessoas, seja a relação dele com a religião: Thompson aparece como um menino extremamente devotado, que não sabe situar ao certo o que é pecado em sua vida e parece estar sempre carregando esse tipo de culpa. A chegada de Raina parece levar esse sentimento ao máximo, até o momento em que Thompson finalmente encara de frente a religião e o que pensa dela.

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Links e Notícias da Semana #28

James Ellroy, confirmado para a FLIP 2011.

Ótima notícia para o pessoal de Curitiba: Livraria Cultura abrirá uma loja na cidade, no Shopping Curitiba! E para quem vai para a FLIP 2011, Diversos escritores estrangeiros estão confirmados para o evento: Joe Sacco, Claude Lanzmann, Póla Olaixarac, Emmanuel Carrère, Antonio Tabucchi, David Remnick, valter hugo mãe e Andres Neuman. O escritor João Ubaldo Ribeiro prometeu aparecer, dessa vez de verdade. Também já foi confirmada a vinda de James Ellroy, autor de Dália Negra.

Ao comemorar um ano de circulação, o caderno sabático do Estado de São Paulo disponibiliza entrevistas e textos que foram destaque. No Saraiva Conteúdo, uma entrevista com Luiz Zerbini, ilustrador da edição especial de Alice no País das Maravilhas da editora Cosac Naify. Esse sábado, dia 19, a atividade infantil da Livraria Cultura traz Encontros Clubinho + Cultura com Pedro Bandeira. No blog da L&PM: O perigoso ofício de editor ou como não confiar em poetas.

Para os escritores, Os 100 erros mais comuns da língua portuguesa. E o Vida Ordinária traz conselhos de escritores sobre a escrita. Você escreve? Então compartilhe conosco o que já criou no subfórum Lutar com Palavras do Meia Palavra.

No Mundo de K, Kovacs comentou a poesia de Giuseppe Ungaretti. No Mundo Livro, Gustavo Brigatti resenhou o livro AK-47: A Arma que transformou a guerra, de Larry Kahaner. No Caderno G da Gazeta do Povo: O Fator Snege: matéria sobre o cultuado escritor curitibano. E Samir Machado comentou a biografia de Hitler, de autoria do Ian Kershaw. (via @TaIzze)

Machado de Assis “descobre” doença psiquiátrica em conto e “Laranja Mecânica” faz 40 anos e ganha box especial. A Quadrinhos na Cia disponibiliza teaser da nova HQ de Rafael Coutinho, prevista para chegar em 2012. A Revista Cult analisou as realizações e a a dívida que o Cinema tem em relação ao Glauber Rocha.

No Painel das letras da Folha de São Paulo: O cheiro dos livros, Não julgue pelo título e como seria a caixa de emails de Raskolnikov. O blog também trouxe a dica de uma lista com 20 tatuagens literárias e de escritores de lego.

Assine a petição e ajude a salvar o museu de Edgar Allan Poe. E não esqueçam, inscrições para o curso Roberto Bolaño, de Tiago Pinheiro (aqui do Meia Palavra) começam na semana que vem. E Mafalda está quase se despedindo dos 40: soprou dia 16/03 49 velinhas.

Após dois anos de muitos pedidos, o Meia Palavra relança a caneca do site! Além do logo na parte da frente, a parte interna recebe a citação de Fernando Pessoa: “Ler é sonhar pela mão de outrem”. Você pode garantir a sua através da loja online da Valinor, mas tem que correr, porque a edição é limitada. E você já está seguindo nosso twitter? Aproveite também para curtir nossa página no Facebook e acompanhar as atualizações do Meia Palavra na rede social.

Lançamentos da semana da Companhia das Letras:

Cláudio Manuel da Costa, de Laura de Mello e Souza
O mineiro Cláudio Manuel da Costa, consagrado pelos versos de Vila Rica, poema dedicado à fundação da capital “das Minas Gerais”, é revisitado de maneira inovadora nesse perfil biográfico escrito por Laura de Mello e Souza, que pesquisou inventários, escrituras e processos judiciais para reconstituir os passos do poeta no Brasil e na Europa. O leitor é transportado à Minas Gerais do século XVIII, onde Cláudio Manuel da Costa exerceu a carreira de advogado paralelamente à de poeta, engajando-se também no movimento da Inconfidência Mineira. Leia o post que Lilia Moritz Schwarcz fez sobre uma das muitas controvérsias que marcam a vida do poeta.

Onde os homens conquistam a glória, de Jon Krakauer (Tradução de Ivo Korytovski)
Jon Krakauer, autor de Na natureza selvagem, reconstitui a trajetória de Pat Tillman — astro do futebol americano que se tornou um dos principais ícones do patriotismo pós-11 de setembro ao abrir mão de uma carreira milionária para servir no Afeganistão. Tillman foi morto acidentalmente por um colega após uma sequência de manobras equivocadas de sua unidade de combate. A reação oficial foi um cínico encobrimento da verdade aprovado pelos mais altos escalões do governo e uma série de investigações que resultariam ineptas não fosse a determinação de Dannie Tillman em descobrir o que acontecera com seu filho. Em uma pesquisa de fôlego, Krakauer reconstrói a trajetória de Pat Tillman e expõe a farsa arquitetada para encobrir aquele que se tornaria um dos mais emblemáticos escândalos militares da era Bush.

O negócio do Brasil, Evaldo Cabral de Mello
Sessenta e três toneladas de ouro: esse foi o preço que Portugal pagou aos holandeses para que eles devolvessem o Nordeste aos lusitanos; essa negociação teria sido o arremate de uma guerra que já havia sido vencida pelos portugueses, que mesmo assim sentiam-se vulneráveis ao rivalizar com a principal potência econômica e militar do século XVII. A tese heroica de que os holandeses foram expulsos mediante a valentia dos portugueses, dos índios e dos negros é revista nessa reconstituição histórica feita por Evaldo Cabral de Mello, um dos maiores historiadores brasileiros, especialista em história regional e no período de domínio holandês em Pernambuco no século XVI.

Ao coração da tempestade (Will Eisner)

“- Mas pai, por que você não continuou trabalhando com arte em vez de entrar no mundo dos negócios? … Ainda dá tempo de voltar atrás.
– Não dá mais para voltar atrás!! Estamos em uma jornada… a vida é uma viagem daqui até lá.
– … E onde fica esse lá, papai?
– Lá é onde estoura o trovão… Longe daqui!”

O diálogo entre o jovem Willie e seu pai Sam ilustra com perfeição o eixo principal de Ao coração da tempestade, HQ de Will Eisner que chega agora no Brasil pela Quadrinhos na Companhia. Lançada originalmente em 1991, a obra tem forte tom autobiográfico e mostra as lembranças de um jovem artista quando segue em um trem em direção a Segunda Guerra.

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