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Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop

Quem acompanha o que comento aqui no Meia Palavra sabe que eu tenho um receio bem grande sobre leituras biográficas de determinadas obras. Sei que “a vida imita a arte”, por outro lado sei também que “o poeta é um fingidor”, e muitas vezes tentar comparar vida do autor com o texto que ele escreveu pode criar armadilhas. Sobre isso cito sempre o exemplo de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e de quantas pessoas erroneamente relacionaram Dorian à Bosie, seu amante. ((Para quem pensa que Dorian tem alguma coisa a ver com Bosie, basta dizer que O retrato de Dorian Gray foi publicado um ano antes de Wilde e Bosie se conhecerem.)) De qualquer modo, de quando em quando surgem casos em que fica simplesmente impossível dissociar vida e obra ao falarmos sobre determinado autor, e um desses casos é o da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop. Seus poemas são em sua maioria extremamente pessoais, e uma antologia como a publicada recentemente pela Coleção Listrada da Companhia das Letras parecem funcionar quase como um fotografias em um álbum. O leitor passa os olhos por poemas e quase consegue ouvir Bishop dizendo “Veja, esse aqui é de quando vivi com meus avós” ou “Esse é sobre meu grande amor”.

E embora Bishop já tivesse publicado um livro (North & South, de 1946) antes disso, fico sempre com a impressão que o momento decisivo em sua vida foi a viagem de navio que resolveu fazer na América do Sul, em 1951. Eu não sei o quanto dessa história é real, mas reza a lenda que no Rio de Janeiro Bishop sofreu uma reação alérgica a um pedaço de caju e ficou aos cuidados de Maria Carlota de Macedo Soares, Lota. Elas se apaixonaram e começaram a viver juntas, em uma relação complicadíssima encerrada de forma trágica, mas que ecoou em seus versos até o fim, mais especialmente em Questions of Travel, de 1965 e posteriores, que trazem poemas com títulos como: “Manuelzinho”, “Pela janela: Ouro Preto”, “Santarém”. Sim, tem muito do Brasil ali. Continue reading Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop

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Portugal, 0 nº5 (valter hugo mãe)

No começo do ano, ao comentar sobre O filho de mil homens do escritor português Valter Hugo Mãe, fiz a seguinte observação sobre o estilo do autor: “durante a leitura desse livro eram frases e mais frases pedindo para serem grifadas, às vezes nem tanto pelo que diziam em si, mas pela beleza como era dito. Valter Hugo Mãe faz uma prosa com tom de poesia“. O engraçado aqui é que esse é o relato de uma leitora que descobriu Hugo Mãe através da prosa, e desconhecia completamente sua produção em poesia, embora seja bem ampla (mais de dez livros publicados). E então tive a oportunidade de finalmente conhecer o poeta através do número cinco da coleção Portugal, 0, publicado aqui no Brasil pela editora Oficina Raquel.

Antes de falar do livro, um comentário sobre a coleção, que apresenta uma ideia bem bacana de trazer mais da poesia contemporânea portuguesa para o lado de cá. A série que traz nomes como Manuel de Freitas, Luís Quintais, Rui Pires Cabral e Pedro Eiras (além, é óbvio, de hugo mãe), com uma proposta de reunir os trabalhos de autores que começaram no século XX e que “dão prosseguimento a história” no século XXI. São nomes para serem conhecidos, observados e acompanhados (e o caso de hugo mãe mostra que a aposta não é um tiro no escuro). Fica, no mínimo, como uma boa sugestão para quem quer conhecer um pouco mais de literatura portuguesa atual, e por atual digo atual mesmo, do que tem sido feito já, agora.

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Antologia Poética (Carlos Drummond de Andrade)

Então você pensa que não conhece muitas poesias de determinado escritor e resolve ler uma “antologia poética” para ter uma noção mais ampla da criação literária do poeta. Lê um poema, vai para outro e todos os versos começam a passar um tom de estranha familiaridade. Tão estranha, que em alguns poemas você começa a prever o verso seguinte (e consequentemente se dá conta de que conhecia o texto de cor). É quase como uma sensação de voltar para casa, ou até mesmo de reencontro com um amigo – foi o que senti ao ler Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade.

É evidente que muito da obra de Drummond foi devidamente apresentada para mim em sala de aula (acredito que o mesmo deve ter acontecido com outras pessoas, especialmente com os que já foram vestibulandos). Mas a sensação de familiaridade não vem só do fato de muitos dos poemas do escritor serem bastante conhecidos e estudados, mas também pelos temas abordados pelo poeta e o modo como ele faz, o que fica bastante evidente nesta coletânea.

A antologia foi organizada pelo próprio autor em 1962, e é dividida em nove partes que, segundo Drummond, representam “o indivíduo, a terra natal, a família, amigos, o choque social, o conhecimento amoroso, a própria poesia, exercícios lúdicos, uma visão ou tentativa de, da existência” (pg.15). Mas a abordagem do poeta é tão sensível, que ele poderia tratar de temas completamente alienígenas e ainda assim conseguir fazer com que o leitor se identificasse com seus versos. Portanto não é à toa que muitos recitem por aí trechos de poemas dele (mesmo que às vezes sem nem saber a quem pertencem). É um daqueles casos em que o poeta parece assumir o papel de porta-voz da humanidade, colocando em palavras (e versos!) o que muitos sentem.

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10 Perguntas e Meia para Luci Collin

Nascida em Curitiba, Luci Collin é mil em uma só: professora de Literatura na UFPR, graduada em Piano, Letras e Percussão, doutora em Letras pela USP. Já escreveu livros de poesia (Estarrecer (1984), Espelhar (1991), Esvazio (1991), Ondas e Azuis (1992), Poesia Reunida (1996), Todo Implícito (1998)) e de contos (Lição Invisível (1997), Precioso Impreciso (2001), Inescritos (2004), Acasos Pensados (2008) e Vozes num Divertimento (2008)). Também já traduziu obras como Re-habitar: ensaios e poemas, de Gary Snyder (Azougue, 2005), Etnopoesia no milênio, de Jerome Rothenberg (Azougue, 2006) e Contos irlandeses do início do século XX (Travessa dos Editores, 2007).É tanta coisa que é certo que esse breve parágrafo não apresenta tudo o que ela já produziu – e aguardem que tem um romance chegando por aí em breve!

E com isso fica claro que Luci Collin respira Literatura, o que reflete em seu trabalho, que somado ao senso de humor e sensibilidade ímpares, faz com que qualquer aluno que diz “odiar literatura” se apaixone em poucas horas. De Shakespeare à James Joyce, Luci conta histórias de contadores de histórias como ninguém. Ela topou responder nossas 10 perguntas e meia, que você pode conferir aqui.

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Os Gatos (T. S. Eliot)

Desde que fiquei sabendo que estava grávida comecei a fazer uma bibliotecazinha para o Arthur. Livros que quero que ao longo da infância ele tenha contato, seja porque foram especiais para mim quando era criança (como Flicts do Ziraldo), seja porque foram ótimas descobertas já na fase adulta. A nova aquisição (presente adiantado de Natal!) foi o livro Os Gatos, de T.S. Eliot, que chegou aqui no Brasil pela Companhia das Letrinhas em uma edição tão, mas tão caprichada que eu quase roubei do Arthur para colocar na minha biblioteca.

Já conhecia as poesias porque elas estão naquela edição de Obra Completa que saiu pela Arx, com tradução de Ivan Junqueira. Mas ontem enquanto arrumava os presentes de Natal, não resisti e lá fui eu reler novamente as histórias dos bichanos como Mister Mistófelis, Rim Tim Tantã e Gogó. É tão divertido que nem dá para sentir o tempo passar, especialmente se você for um gateiro. Continue reading Os Gatos (T. S. Eliot)

Nova Fase do I Concurso de Poesias Meia Palavra

meiatwitterComeça hoje nova fase do I CONCURSO DE POESIAS MEIA PALAVRA. Todos as poesias enviadas foram publicadas em um tópico no Fórum Meia Palavra e durante uma semana a enquete para escolha da melhor poesia estará aberta nesse mesmo tópico, que você pode visitar clicando aqui. Caso você não tenha cadastro no Fórum, basta clicar aqui para se registrar. O registro é rápido e gratuito, e além de permitir acesso à enquete, também é porta de entrada para diversas discussões sobre Literatura e assuntos variados.

Lembramos que os três primeiros colocados no concurso terão seus poemas publicados aqui no blog do Meia Palavra, e que o primeiro colocado também ganhará uma edição de O amor do Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (cortesia da editora Nova Fronteira). Contamos com sua participação na escolha da melhor poesia e desde já agradecemos todos os que mandaram seus trabalhos para o Meia Palavra.

Emily Dickinson

Emily Dickinson

No Brasil a poesia dessa norte-americana nascida em 1830 é pouco conhecida – pelo menos para aqueles que não circulam com muita freqüência nas praias da poesia gringa. O que não deixa de ser uma pena, visto que tanto a escritora quanto os escritos são interessantíssimos. Ironia das ironias, enquanto a primeira é de uma complexidade de deixar biógrafos de cabelo em pé, a segunda é de tal simplicidade que talvez seja uma das razões pelas quais os trabalhos dela não são tão famosos quanto de outros poetas de língua inglesa.

Em vida, pouco de seus poemas foram publicados. Dickinson na realidade só fez uma tentativa com quatro poesias, mas foi aconselhada pelo editor da Atlantic Monthly, Thomas Wentworth Higginson, a não publicá-los, pois seu estilo de escrita não era “comercial”. Apenas após a morte da poeta que sua irmã, Lavinia, ao encontrar diversos de seus trabalhos, resolveu publicá-los. São mais de 1.800 poemas escritos durante o período em que viveu em Homestead.

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Robert Frost

Eu às vezes vejo a poesia como uma floresta: você vai abrindo seu caminho para o coração da mata aos poucos, vencendo medos (”Poesia é só para gênios!”), se alimentando de uma ou outra fruta coletada ao longo da jornada (”Ei, esse poeta é bom mesmo!”) e claro, utilizando mapas desenhados por quem já esteve lá (ou o conhecido “seguir a indicação de professores e amigos”). Mas, ao contrário do que acontece em uma exploração em um espaço real, com a poesia parece que você dificilmente desvendará todo o caminho.

Veja o meu caso, por exemplo. Eu demorei para me encantar pela poesia, de verdade. Acho que os primeiros poetas que de fato curti foram alguns haijins (ou haicaísta, termo usado para quem escreve haikai), apresentados para mim através de uma coletânea de haikais da Estrela. A paixão completa mesmo só veio na universidade, com alguns professores como a Luci e o Édison, que, continuando na metáfora da floresta, entregaram não só mapas mas fotos mostrando toda a beleza desse espaço.

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Anatomia da poesia: One Art

Pode parecer estranho estabelecer uma relação entre criaturas feitas de carne e osso com outras feitas de palavras e idéias, mas o fato é que poesia é, de certa forma, um ser vivo. Tão vivo que depois de criada parece que ganha pernas e sai por aí, para todo o sempre (ou pelo menos enquanto a última cópia não sumir). É levando em consideração essa idéia que começo hoje a série “Anatomia da poesia”, que procura indicar os órgãos vitais de alguns poemas, visando estudá-los de uma forma um pouco mais divertida do que é feito em sala de aula.

E, para começar, coloco sob observação a brilhante poeta norte-americana, Elizabeth Bishop. O charme na poesia de Bishop vai além do domínio sobre as palavras: embora escreva na língua inglesa, tem muito do Brasil em suas obras – ou pelo menos das paisagens que ela viu enquanto por aqui passou. Vejamos então o que One Art pode nos oferecer.

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