Tag Archives: Neil Gaiman

Foras da lei barulhentos, bolhas raivosas etc. (Vários)

Primeiro eu tinha ficado sabendo sobre um livro novo da Cosac Naify que traria um conto inédito de Nick Hornby e meu alerta de “quero ler” já começou a piscar. Depois fiquei sabendo que seria uma coletânea, que traria outros nomes além do Hornby, gente como Neil Gaiman, Lemony Snicket e Jonathan Safran Foer. Verdade é que eu não precisava de mais nada para querer comprar o livro, mas aí ele chegou nas livrarias com o hilário título Foras da lei barulhentos, bolhas raivosas e algumas outras coisas que não são tão sinistras, quem sabe, dependendo de como você se sente quanto a lugares que somem, celulares extraviados, seres vindos do espaço, pais que desaparecem no Peru, um homem chamado Lars Farf e outra história que não conseguimos acabar, de modo que talvez você possa quebrar esse galho. Aí a vontade chegou quase junto com aquela promoção da Cosac com desconto de 50% e finalmente tenho o livro em mãos. Ansiosa, começo a dar aquela primeira olhada rápida que sempre dou quando chega livro novo. Primeira ponto positivo (que não chega a ser uma surpresa, já que estamos falando de Cosac Naify), uma dust jacket (aquela capa “solta” do livro, que serve para proteger a capa de verdade) muito bacana brincando com o longuíssimo título, e com uma proposta interessante: um conto iniciado por Lemony Snicket, para ser concluído pelo leitor e então enviado para a editora.

E aí vou virando as páginas e vejo que os contos contam com ilustrações legais, que o livro mantém a proposta de levar tudo com senso de humor até quando chega lá no final, com “palavras cruzadas tremendamente difíceis” e, puxa, que vontade de ler tudo logo de uma vez. Foi o que fiz. Aí começaram as decepções. A número um foi ver que o conto de Neil Gaiman não era inédito, já foi publicado no Brasil na coletânea Coisas Frágeis, que saiu pela Conrad. O conto em questão é Pássaro-do-sol, que honestamente nem é meu favorito do Gaiman. Sobre ele falarei além, mas continuemos com minha segunda decepção: descobrir que o que tem do Snicket não é propriamente um conto, mas uma introdução (embora eu ache que possa ser lido como conto, apesar do aspecto fragmentado). Sim, é muito bem sacada e tenho certeza que falará muito bem com o público-alvo do livro, mas convenhamos, não é algo exatamente original: Neil Gaiman na introdução de Fumaça e Espelhos inclui um conto dentro da introdução, como um prêmio para os que leem introduções. Snicket faz algo parecido, e até divertido, mas eu sinceramente esperava algo diferente (embora sim, um sorriso tenha aparecido no meu rosto quando li o trecho “Socorro!” gritou o Rei da Terra dos Ursinhos. “Paul Revere está me batendo com uma caixinha feita de madeira brilhante!”

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Sandman: Noites Sem Fim

Em 2003, quando Noites Sem Fim foi publicado, houve muita agitação por parte dos fãs de Sandman de Neil Gaiman. Não foi à toa: já tinham passado sete anos desde a publicação da última história do último arco, O Despertar, e mesmo assim algumas perguntas ainda estavam pendentes e, mais do que isso, aquele gosto de “quero mais” que a leitura de Sandman sempre deixa. Era a oportunidade de rever personagens queridas, de voltar ao Sonhar e ter uma pequena amostra do que aconteceria se Neil Gaiman não tivesse resolvido criar uma série com começo e fim. E o resultado não decepciona.

Dividido em sete histórias, cada uma com um perpétuo como personagem principal, Gaiman conta com um excelente time de ilustradores, um por capítulo. Em alguns casos a parceria inédita em Sandman rende ótimas surpresas (o que dizer de Desejo de Milo Manara, por exemplo?), e as já conhecidas satisfazem a nostalgia do fã. O trabalho ficou tão bom que além de ganhar diversos prêmios, ainda foi a primeira graphic novel a aparecer na lista de mais vendidos do New York Times. A seguir, comentários capítulo por capítulo, de Noites Sem Fim.

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O livro do cemitério (Neil Gaiman)

Considerando alguns trabalhos de Neil Gaiman voltados ao público infantojuvenil, temos casos como a coletânea de contos M is for Magic que pode agradar tanto crianças quanto adultos (ao contrário de Coraline, por exemplo). O mesmo acontece com O livro do cemitério, uma das obras mais recentes do autor (lançada em setembro de 2008). Muito embora o próprio Gaiman se refira à história como “livro para criança”, o tom sombrio da história acaba de certa forma equilibrando as coisas, tornando O livro do cemitério agradável também para os mais “crescidinhos”.

Um dos capítulos d’O livro do cemitério (The Witch’s Headstone) foi publicado na coletânea M is for Magic em 2006, quando Gaiman ainda estava escrevendo o livro. Na hora não chamou minha atenção, na verdade um dos meus favoritos foi October in the Chair, que segundo Gaiman foi escrito como um exercício para o este romance. Mas agora lendo desde o princípio a história de Nobody Owens, um menino que foi adotado por fantasmas e criado em um cemitério, a história ficou muito mais interessante.
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Lugar Nenhum (Neil Gaiman)

Lançado pela Conrad em 2007, Lugar Nenhum chegou bem tarde no Brasil – a publicação original já tinha quase 10 anos quando a tradução finalmente foi lançada. Sim, dez anos. O que quer dizer que atualmente já vão aí quase 15 anos da criação de Lugar Nenhum. Na verdade, nesse caso é importante saber que ao contrário do que tem acontecido cada vez com maior freqüência, primeiro veio uma série de tv (lançada em setembro de 96 na BBC) e depois Gaiman ‘novelizou’, digamos assim, a série, criando então Lugar Nenhum (Neverwhere em inglês).

Sobre a série, há de se levar em consideração que foi gravada há um bom tempo, antes de novidades digitais mil que chegaram não só no cinema como também na TV. Em outras palavras, não espere muito de qualidade. Ela parece gritar “Anos 90” em vários sentidos, mas de qualquer forma ainda vale a diversão, caso algum curioso resolva procurar na internet.

Mas vamos agora ao livro. Eu estava dando uma olhada em um site sobre Lugar Nenhum e lá diz que logo na época que saiu a série foi lançado um romance, e um ano depois saiu uma versão diferente nos Estados Unidos. Essa versão diferente seria um “Londres for dummies“, digamos assim, enquanto a edição britânica leva em consideração que desde que é uma edição britânica, não precisa ficar explicando peculiaridades da cidade.

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Sandman: Vidas Breves

Após mais um interlúdio (agora Fábulas e Reflexões), Neil Gaiman retoma a narrativa principal de Sandman em Vidas Breves, arco que foi publicado nas revistas 41 até a 49 da série. O interessante de Vidas Breves é que ao mesmo tempo que ele tem diversos momentos importantíssimos para toda a história de Sandman, ainda assim é um dos arcos que podem ser lidos separadamente, por ser delicioso, divertido e ainda assim não deixar o leitor novato tão perdido. Mas é claro, o ideal é seguir a sequência começando em Prelúdios e Noturnos até chegar a esse arco, tornando a leitura muito mais rica ao combinar com o conhecimento do que aconteceu anteriormente.

Neste arco as histórias não têm títulos, sendo apenas enumeradas e apresentando uma caixa com alguns dos elementos principais do número em questão. É até legal tentar antecipar como algumas palavras que aparentemente não tem nada a ver uma com a outra poderão se relacionar. E com Delírio dominando as páginas desse arco, acreditem, há realmente muito pouco em comum com essas palavras.

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Sandman: Estação das Brumas

Após uma pausa na linha narrativa principal com as histórias de Terra dos Sonhos, Neil Gaiman retorna ao ponto onde havia parado em A Casa de Bonecas neste novo arco, Estação das Brumas. Talvez um dos mais complexos de toda a série Sandman, porque serve de base para diversos eventos que ocorrerão nos arcos seguintes, além de apresentar várias personagens importantes (e bem, trazer a reunião dos Perpétuos). Alguns detalhes podem passar batidos pelo leitor que estiver conferindo a história pela primeira vez, e acredite, muito provavelmente terá que retornar a esse arco quando tiver concluído a leitura com O Despertar.

Estação das Brumas traz algo diferente na página que mostra o título de cada revista, um breve resumo do que acontecerá naquela edição. É um recurso bem interessante para aguçar a curiosidade do leitor, embora eu ache que a edição da Globo tenha vindo com um problema sobre isso nas revistas 25 e 26 (são resumos iguais nas duas). Há também uma divisão bem clara em capítulos, como se fosse um livro, com prelúdio, interlúdio e epílogo, o que não tinha sido utilizado por Gaiman até então (nos outros números ele usava títulos variados).

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Sandman: Prelúdios e Noturnos

Já são mais de 20 anos desde sua publicação, e a história já é até bem conhecida pelos fãs de quadrinhos. O britânico Neil Gaiman reformulou uma personagem já existente da DC Comics e criou através de Sandman o que junto com outras HQs criou o conceito de quadrinhos para adultos. Mas mais do que isso, Gaiman apresenta uma estrutura que fugia bastante do que se via em títulos de super-heróis como X-Men, Batman, e afins: ele elaborou uma história com começo e fim. Ao todo são 75 revistas,  que aqui no Brasil foram agrupadas em 10 arcos de histórias que comentaremos todo domingo aqui no Meia Palavra, seguindo a ordem de publicação.

O primeiro é Prelúdios e Noturnos, que trazia a difícil tarefa de apresentar Morpheus, o Lorde dos Sonhos, e ao mesmo tempo encantar o leitor. Para tal, começamos com o rapto de Morpheus, realizado por Roderick Burgess, que na realidade queria capturar a Morte. Sonho passa anos preso até finalmente escapar e iniciar uma busca por seus objetos de poder perdidos: a algibeira, o elmo e um rubi.

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Cabelo Doido (Neil Gaiman & Dave McKean)

Desde o começo a parceria Neil Gaiman e Dave McKean sempre rendeu ótimos frutos, como por exemplo a excelente HQ Violent Cases, ou ainda no ótimo livro infantil Os Lobos na Parede. A química entre os dois é incontestável, e parece funcionar porque ambos tem um pé no que é sombrio e insano. E se você pensa que esse tipo de universo não funciona bem com histórias infantis, deve dar uma olhada no mais recente lançamento da dupla aqui no Brasil, Cabelo Doido, que chegou pela Rocco em dezembro do ano passado.

Sendo um picture book (lembra do seu bom e velha O Pote de Melado? Eles são assim: com frases curtas narrando uma história em ilustrações) é evidente que a arte de McKean acaba tendo um destaque maior. E não pense que por ser voltado para crianças que ele muda seu já famoso estilo, envolvendo colagens de uma forma distorcida e exagerada, lembrando um pouco sonhos (ou pesadelos). Mas mesmo assim o efeito combinado com o texto acaba sendo de um conto que pode ser lido sem maiores problemas pelos mais novos.

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Coisas Frágeis Vol.1 (Neil Gaiman)

Eu não sei exatamente qual era a intenção da Conrad ao partir Fragile Things de Neil Gaiman em dois. A impressão que fica após a leitura do primeiro volume é que a seleção dos contos e poemas presentes na coletânea do escritor inglês funcionariam muito melhor se viessem como no original.  Isso porque o primeiro volume ficou só com os contos (e uma novela), e alguns deles já apareceram em outras coletâneas de Gaiman, e também porque não respeita a ordem de apresentação da publicação original.

E Gaiman é cuidadoso, e a verdade é que há um ritmo que é criado a partir da ordem dos textos. Os temas também não se repetem, e assim a leitura fica menos cansativa. Resumindo: ainda acho que Coisas Frágeis deveria vir em um volume só, mas isso não significa que não seja bom. Alguns dos melhores trabalhos de Gaiman estão ali.

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Violent Cases (Neil Gaiman & David McKean)

Química. Está aí algo fundamental em qualquer trabalho que envolva mais do que uma pessoa. Tome os Beatles, por exemplo. Seria a mesma coisa se ao invés de Ringo Starr tivéssemos Stuart Sutcliffe? E como seria a copa de 94 sem Bebeto e Romário? E seguem exemplos infinitos, uma lista enorme mesmo. Dessa, certamente faz parte também a dupla Gaiman e McKean.

Pelo menos para nós, fãs de quadrinhos, dá para dizer sem nem piscar os olhos que se esses dois não tivessem começado a trabalhar juntos há mais de 20 anos, a idéia de quadrinhos para adultos seria bem diferente. É por isso que Violent Cases (lançado em 1987, mas chegando aqui no Brasil no começo de 2008) é tão especial: trata-se da primeira graphic novel publicada pela dupla. Depois dessa, muitos outros trabalhos de sucesso viriam, entre eles, é claro, Sandman.

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