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A culpa é das estrelas (John Green)

Pode parecer estranho dizer isso, mas fui pega de surpresa por A culpa é das estrelas, de John Green. A parte estranha da informação diz respeito ao fato de que este não é um livro obscuro lido por poucas pessoas, daqueles que chegam em suas mãos sem qualquer informação e te pegam de surpresa. Não, comigo não foi por aí. Desde o lançamento lá fora eu já ouvido falar muita coisa sobre A culpa é das estrelas, com adjetivos que traziam variações do termo “apaixonante”, então é evidente que minhas expectativas estavam lá no alto quando finalmente comecei a ler. E aí  foi um tanto frustrante começar a leitura e perceber que bem, o livro não era tudo aquilo. Por que diabos as pessoas gostavam tanto? Parecia morno, e mesmo uma repetição de muita coisa que já tinha visto em outros livros YA. Além disso, confesso que mesmo que uma doença incurável justifique um amadurecimento precoce, o modo como Hazel e Augustus se comportavam e falavam me soava um tanto artificial e em alguns momentos até irritante: “não posso admitir isso porque sou um adolescente”, diz um deles em determinado momento.

Sim, Augustus aparecia como uma personagem bastante cativante, mas enfim, faltava uma fagulha, alguma coisa ali que justificasse a razão pela qual todo mundo parecia amar o livro. Entendam: eu não estava odiando, só não estava achando que merecesse tanto elogio. E então Hazel e Augustus vão para Amsterdam buscar respostas do autor de uma obra que os dois adoravam e tudo muda de figura. TUDO. Entendi os elogios e eu mesma acabei me encantando pela história. Aquele começo que eu achei sem sal então faz todo sentido. Mais do que isso, torna-se fundamental para um efeito que John Green aparentemente queria causar. E como falarei do tal efeito daqui para frente, peço para quem não leu o livro que pare neste parágrafo, porque A culpa é das estrelas é um daqueles casos em que quanto menos você sabe sobre a obra, melhor.

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Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop

Quem acompanha o que comento aqui no Meia Palavra sabe que eu tenho um receio bem grande sobre leituras biográficas de determinadas obras. Sei que “a vida imita a arte”, por outro lado sei também que “o poeta é um fingidor”, e muitas vezes tentar comparar vida do autor com o texto que ele escreveu pode criar armadilhas. Sobre isso cito sempre o exemplo de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e de quantas pessoas erroneamente relacionaram Dorian à Bosie, seu amante. ((Para quem pensa que Dorian tem alguma coisa a ver com Bosie, basta dizer que O retrato de Dorian Gray foi publicado um ano antes de Wilde e Bosie se conhecerem.)) De qualquer modo, de quando em quando surgem casos em que fica simplesmente impossível dissociar vida e obra ao falarmos sobre determinado autor, e um desses casos é o da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop. Seus poemas são em sua maioria extremamente pessoais, e uma antologia como a publicada recentemente pela Coleção Listrada da Companhia das Letras parecem funcionar quase como um fotografias em um álbum. O leitor passa os olhos por poemas e quase consegue ouvir Bishop dizendo “Veja, esse aqui é de quando vivi com meus avós” ou “Esse é sobre meu grande amor”.

E embora Bishop já tivesse publicado um livro (North & South, de 1946) antes disso, fico sempre com a impressão que o momento decisivo em sua vida foi a viagem de navio que resolveu fazer na América do Sul, em 1951. Eu não sei o quanto dessa história é real, mas reza a lenda que no Rio de Janeiro Bishop sofreu uma reação alérgica a um pedaço de caju e ficou aos cuidados de Maria Carlota de Macedo Soares, Lota. Elas se apaixonaram e começaram a viver juntas, em uma relação complicadíssima encerrada de forma trágica, mas que ecoou em seus versos até o fim, mais especialmente em Questions of Travel, de 1965 e posteriores, que trazem poemas com títulos como: “Manuelzinho”, “Pela janela: Ouro Preto”, “Santarém”. Sim, tem muito do Brasil ali. Continue reading Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop

A trama do casamento (Jeffrey Eugenides)

Não vou mentir e dizer que amei A trama do casamento (de Jeffrey Eugenides) logo de início. Nas primeiras páginas fiquei com certo receio de que tinha em mãos um livro que focaria em uma protagonista tão vazia que precisava se completar com uma figura masculina, daí sua incansável busca pelo par. Madeleine Hanna surge como uma personagem cujo eixo central dos eventos da sua vida são os homens com que se relacionou, se relaciona ou possivelmente se relacionará. E é evidente que esse tipo de figura cria uma certa antipatia inicial (especialmente se o leitor, como eu, buscava algo mais como As Virgens Suicidas, e não mais um romance juvenil no estilo de “quem vai ficar com quem”).  Mas a realidade é que acredito ser um daqueles casos em que valeu a pena continuar a leitura, mesmo tendo começado com o pé esquerdo: aos poucos Eugenides vai te seduzindo, mostrando que Madeleine não é só aquilo, assim como A trama de casamento não é só sobre a escolha da garota entre Leonard e Mitchell, seus dois “pretendentes”.

Não é que realmente a base do enredo não seja a relação de Madeleine com os dois rapazes. De fato, temos desde o início a narrativa centrada nas dificuldades de seu romance com Leonard (que aparecera em sua vida como o cara perfeito que ela nem conseguia acreditar que começara a namorar) e da possibilidade de algo acontecer com Mitchell (o rapaz que a conhecia desde o primeiro ano na faculdade e que obviamente fora colocado na friend zone e não parecia ter muitas perspectivas de sair dali). A questão é que o escritor usa as relações entre as três personagens para ir além, falando não só sobre o amor, mas sobre solidão, sobre crescer, tornar-se adulto, sobre até mesmo a própria literatura. A leitura do romance de Eugenides é como se encontrássemos um objeto coberto de pó e aos poucos, enquanto fôssemos limpando, descobríssemos toda sua real beleza.

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Ray Bradbury (1920 – 2012)

Ontem os fãs de literatura ficaram mais tristes ao saber do falecimento do escritor norte-americano Ray Bradbury. Digo “fãs de literatura” porque, embora mais famoso por seus títulos de ficção especulativa como Fahrenheit 451 e Crônicas Marcianas, Bradbury foi um daqueles casos de autores que pela qualidade do que faziam extrapolou rótulos, gêneros e semelhantes. Pergunte para qualquer pessoa “que não é muito fã de sci-fi” o que ela achou de Crônicas Marcianas, e tenha certeza que 10 entre 10 delas diram “Ok, talvez eu deva ler mais sci-fi”. Pergunte para qualquer pessoa quais histórias distópicas estão entre suas favoritas, e fique certo de que Fahrenheit 451 estará lá. Bradbury marcou seu nome entre os grandes, saindo daquele grupo de autores que escrevem para um público específico para ser reconhecido até por quem não apreciava o tipo de história que ele contava. Basta saber que ao ser confirmada a notícia de sua morte, homenagens começaram a pipocar na internet, e seu nome esteve nos trending topics do Twitter por horas.

E mesmo que nunca tenha lido algo dele, saiba que é bem provável que você tenha lá sua dívida com Bradbury se gosta muito de escritores atuais, sobretudo os que escrevem em língua inglesa. Neil Gaiman mais de uma vez já expressou sua admiração e reconheceu a influência do norte-americano em seus trabalhos. Um caso mais óbvio é a coletânea M is for Magic (ainda sem publicação no Brasil) cujo título faz uma referência à coletânea de contos de ficção científica S if for Space, publicada em 1966. Os dois livros tem a mesma ideia: apresentar um universo fantástico para jovens leitores. Para quem lê em inglês, Neil Gaiman escreveu ontem para o Guardian uma belíssima homenagem ao escritor que tanto admirava (para ler, basta clicar aqui).

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Abraham Lincoln caçador de vampiros (Seth Grahame-Smith)

Quando gosto muito de um autor costumo dar uma segunda chance caso ele me decepcione. Foi o que aconteceu com os livros que li de Seth Grahame-Smith: o primeiro, How to Survive a Horror Movie (ainda sem tradução no Brasil) achei fantástico. Aí chegou Orgulho e Preconceito e Zumbis e foi simplesmente uma decepção. Resolvi dar a tal da segunda chance com Abraham Lincoln caçador de vampiros, e agora fiquei com a sensação de que muito do que não gostei de Orgulho e Preconceito e Zumbis está em ter procurado humor onde não havia humor. Porque é óbvio que ao ler um título que una o nome de um dos mais famosos presidentes americanos com um dos monstros da moda, dá a sensação de que será uma piada atrás da outra (como em How to Survive a Horror Movie), tanto quanto a inclusão de “e Zumbis” no título do romance de Jane Austen. Mas o que Seth Grahame-Smith faz é construir uma aventura das boas usando uma personagem conhecida como ponto de partida. Não vou negar que há alguns momentos de humor, mas são mais leves. Abraham Lincoln caçador de vampiros deve ser lido como você leria qualquer livro que tenha vampiros. ((Ok, hoje em dia é melhor enfatizar: vampiros como vilões, monstros. Não os vampiros bonzinhos que se apaixonam por humanas etc. etc. etc.))

A história começa com Seth Grahame-Smith contando que enquanto trabalhava como caixa em um mercadinho recebera de um cliente chamado Henry nada mais nada menos do que os diários de Abraham Lincoln. O que ele percebe logo que começa a ler é que há um elemento até então não conhecido na vida do presidente: ele fora um caçador de vampiros. Após a introdução, começamos a ler o que seria uma biografia de Lincoln – mesmo estilo de texto, mesma voz narrativa, as mesmas fotos ilustrando passagens descritas ao longo do livro – só que é aí que vem o truque de Grahame-Smith, que sem abrir mão do que já é conhecido sobre a figura política, inclui o elemento vampiro de forma muito engenhosa.

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O Psicopata Americano (Bret Easton Ellis)

Perto do final do romance O Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, temos um capítulo chamado “Fim da década de 1980”. A verdade é que este bem que podia ser um título para a obra de Ellis, já que resume tão bem o espírito geral do que se lê ao longo das quase 500 páginas, em uma narrativa sob o ponto de vista de Patrick Bateman. Bateman é o “psicopata” da história, mas inicialmente aparece apenas como mais um yuppie (termo usado para se referir a jovens adultos de classe média ou alta), com uma rotina tão próxima do esteriótipo que chega quase a ser um clichê. Ele se preocupa com a marca das roupas que usa, repara nas que seus colegas de trabalho usam, quer frequentar os lugares da moda, é mimado, egoísta e completamente desprovido de grandes sentimentos pelas pessoas próximas. É quando ele começa a falar em cabeças decepadas no congelador que o leitor passa a perceber que cheirar cocaína não é o único ato criminoso que Bateman comete.

Eu poderia seguir comentando sobre os assassinatos, mas durante a leitura resolvi tomar outro caminho. Explico: à medida que Bateman vai perdendo o controle sobre suas vontades e ficando cada vez mais violento, a narrativa fica pesadíssima. Torturas envolvendo choque elétrico, uma ratazana sendo colocada dentro da vagina de uma mulher, pedaços de outra sendo cozidos, etc. E acreditem, eu estou sendo breve e poupando os detalhes. Tem que ter estômago mesmo, e quem fala aqui é uma fã de filmes slashers, para ter ideia. Mas apesar de toda a piração do narrador ao descrever seus atos, não consigo deixar de ficar com uma certa pulga atrás da orelha sobre se os crimes realmente aconteceram, ou se ele estava apenas imaginando coisas. Algumas passagens colocam isso em dúvida, e por isso que foquei em outro aspecto, o de ninguém prestar atenção em ninguém.

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O caderno vermelho (Paul Auster)

Primeiro, dois comentários para ilustrar. Para começar: todo mundo tem aquele amigo que consegue descrever situações cotidianas de um modo engraçadíssimo, empolgante ou que simplesmente amarre nossa atenção até o fim. Você sabe quem ele é. Aquele que quando começa a contar uma história, todos param para ouvir, porque não tem como não prestar atenção no que ele diz. Uma ida até ao mercado pode virar material para arrancar gargalhadas e até lágrimas. Guarde esse amigo na memória, já já vou precisar dele.

O segundo: já conversei com amigos que escrevem ou têm vontade de escrever e percebi que temos algo em comum. Às vezes, presenciando situações inusitadas pensamos “Isso ficaria muito bom num livro”. Isso para não falar dos diálogos imaginários criados numa fila de banco ou no caminho de volta para casa. Se você é assim como eu e como esses meus amigos, deve sentir uma falta danada de um caderninho à mão, ou pelo menos já criou vergonha na cara e foi atrás de um, suponho.

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A visita cruel do tempo (Jennifer Egan)

Há alguns anos em Hollywood existia um tipo de “febre” entre os lançamentos, que era a criação de filmes que mostravam recortes das vidas de diversos personagens que acabariam se cruzando em determinado momento, em uma tentativa de passar para a telona a grande teia de aranha que criamos vivendo em sociedade. 21 Gramas e Crash são só dois exemplos de outros tantos que se sustentavam nessa premissa, que hoje em dia já nem é vista com aqueles ares de novidade.

Na literatura, porém, são poucos os que se arriscam nesse complicado exercício de recriar as relações humanas em seus mais diferentes níveis. E é nisso que se sustenta a força de A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan ((presença confirmada na FLIP deste ano.)), vencedora do prêmio Pulitzer de 2011. O romance poderia muito bem ser lido como uma série de contos, mas a ligação entre as personagens alinha a narrativa, que tem como palavra de ordem as relações. Fora isso nada é linear ou, digamos assim, lógico: o tempo avança e retrocede, o foco narrativo muda, há diferentes estilos de textos e por aí vai.

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Estrada Escura (Dennis Lehane)

Os dois primeiros livros que li de Dennis Lehane foram logo de cara os excelentes Sobre meninos e lobos e Paciente 67 (agora Ilha do Medo no Brasil). Foram leituras tão boas que quando tive a oportunidade de ler o mais novo livro do autor (lançado pela Companhia das Letras no mês passado), nem pensei duas vezes. E por pensar duas vezes incluo aí “nem li a sinopse”. Ok, livro em mãos, descubro que ele é meio que uma sequência de outro que o escritor publicou no fim da década de 90. Confesso que fiquei com um pouco de receio, porque muitas vezes autores que escrevem mais que um título com a mesma personagem fica um pouco relaxados com o desenvolvimento dela (“Ah, é aquilo tudo que disse no primeiro livro, combinado?”). Além disso, fica aquele medo de acabar ficando completamente perdida por não ter lido o livro relacionado a este (cujo título é Gone, Baby, Gone). Mas ah, que coisa, é Lehane, vamos que vamos.

Já nas primeiras páginas aquele pé atrás sobre desenvolvimento da personagem desapareceu. O protagonista Patrick Kenzie é também o narrador – e um narrador com senso de humor apurado, daqueles que mesmo que azedos com a idade, ainda assim tem ótimas sacadas sobre o que vê. O primeiro caso em que ele está trabalhando serve para situar o leitor de Gone, Baby, Gone (e bem, o leitor novato como eu) no que aconteceu nos últimos doze anos. Kenzie casou com sua colega Angie Gennaro, e agora tem uma filha para criar. Trabalha como terceiro em uma empresa de detetives, que parece sempre oferecer a oportunidade de efetivação (e a estabilidade) que ele tanto deseja, mas que nunca chega. É quando aparece Beatrice.

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Edgar Allan Poe

Com o escritor norte-americano Edgar Allan Poe é melhor começar ali pelo fim, que é ironicamente tão misterioso quanto muitos dos seus contos. No final de setembro de 1849, Poe seguia para Nova York quando por dias ninguém teve qualquer notícia sobre ele. Então, em 3 de outubro, ele foi encontrado em uma rua de Baltimore, delirando e completamente maltrapilho. Por que ele desviou seu caminho para Nova York? O que aconteceu em Baltimore? Ninguém sabe. A única coisa que se sabe é que quatro dias depois, Edgar Allan Poe falecia em um hospital da cidade.

Deixou uma vasta obra, focada principalmente nos contos, gênero através do qual serviu de inspiração para muitos que viriam depois (incluindo nosso Machado de Assis). Mas além disso, também escreveu um romance (O relato de Arthur Gordon Pym), vários poemas (sendo o mais famoso O Corvo) e diversos ensaios críticos sobre literatura (onde talvez o mais importante seja Philosophy of Composition). Era tão inovador que até hoje a crítica ainda discute exatamente onde situá-lo nas escolas literárias americanas. E mais: é considerado por muitos algo como um “avô” do Simbolismo. Como dá para ver, ele não era qualquer um.

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