Tag Archives: Literatura Brasileira

Frufru Rataplã Dolores (Dalton Trevisan)

Logo que vi a notícia sobre os pais e professores de uma escola de Minas que achavam a leitura de Dalton Trevisan imprópria para seus filhos pensei que se tratava de mais uma bobagem sem tamanho, uma tentativa de impor um código moral na literatura quando não se aplica em outras mídias (cinema, TV, etc.). Cheguei até a planejar escrever algo sobre isso, mas aí lembrei de como era quando eu era adolescente: se me falassem que eu não podia, aí sim que eu ia cismar com aquilo. Então minha conclusão do caso todo é que bem, esses pais e professores acabaram prestando um favor à molecada. Consigo imaginar títulos de Dalton sendo lidos clandestinamente, passados de mão em mão – mais ou menos como aconteceu comigo com Christiane F., quando tinha 12 anos. Ok, na realidade eu fico torcendo por isso. Porque Dalton não carrega o título de “um-dos-melhores-contistas-brasileiros” por nada. Escrevendo há tantos anos, o autor já trabalhou o conto das maneiras mais variadas, dilapidando de modo a tirar toda a gordura, e mesmo com contos hai-kais ainda assim consegue criar grande efeito no leitor.

É o que fica evidente em Frufru Rataplã Dolores, coletânea lançada pela L&PM recentemente. O livro é bastante curto (não chega a 130 páginas) e traz uma série de contos publicados anteriormente em livros que saíram pela Editora Record. A ideia, ao que me parece, é ter uma espécie de “menu degustação” de Dalton, de modo a conhecer melhor seu trabalho. E de fato, a essência do contista está ali, nos pequenos retratos do cotidiano de gente absolutamente normal, com toda a variedade de qualidades e defeitos que qualquer um pode ter. Não são heróis, não são perfeitos e justamente por isso encantam (e talvez também por isso incomodem?). Com Dalton  Trevisan o ordinário é colocado sob uma lente de aumento, e podemos observá-lo dos mais diferentes ângulos.

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O espírito da prosa (Cristovão Tezza)

A curiosidade do leitor sobre a vida do autor que escreveu alguma obra que tenha agradado muito é bastante comum (vide os comentários sobre Serena, de Ian McEwan). Imagine então quando esse escritor passa a ser reconhecido não só por uma pessoa, mas por várias. Ou ainda: pela crítica. E começa a acumular prêmios e elogios, aumentando ainda mais a vontade de saber mais sobre aquela pessoa. O que fez com que ele começasse a escrever? O que o inspirou? Como faz para afiar cada vez mais seu modo de escrever? Em suma: o que há em sua formação que o tornou uma peça única em um mar de escritores?

Sobre este interesse, basta observar a frequência com a qual algumas perguntas se repetem em entrevistas com escritores. Deve existir atualmente pelo menos quinze formas diferentes de perguntar “Quais são suas influências?”, por exemplo. E é por conta dessa infinidade de questões que surgem na mente do leitor que O espírito da prosa (de Cristovão Tezza) trata-se de uma autobiografia literária (como o próprio subtítulo indica) mais do que bem-vinda. Tezza, agora já reconhecido por sua produção (com destaque para O Filho Eterno, publicado em 2007), traz para o leitor uma reflexão sobre como chegou até este momento, o que tornou o garoto que fazia imitações de livros na infância no romancista consagrado dos dias de hoje.

É evidente que ele não se considera um romancista consagrado, ou não se coloca como tal no livro. Até há nas primeiras páginas uma divagação sobre o que faz de um homem um escritor de fato, e da dificuldade de se considerar como tal – que dirá ainda adotar o adjetivo ao lado da profissão. Mas para não nos perdermos em nomeações, vamos considerar que no mínimo, ele é um sujeito que sabe do que está falando. E fala muito bem, como fica nítido em todas as páginas de O espírito da prosa. Os capítulos são curtos, o que empresta uma certa agilidade para a leitura, e tem um tom que mesclam uma palestra com o de uma conversa. Ou seja, expõe bem as questões mas sem que seja chato, prende o interesse não só pela já citada curiosidade que o leitor tem pela formação do escritor, mas também pelo tanto que comenta sobre a literatura em si.

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Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores

Uma proposta interessantíssima, um péssimo timing. Era o que eu pensava enquanto lia cada um dos 20 contos que fazem parte do livro Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores, organizado por Felipe Pena e publicado pela Record. Já começa com a introdução do próprio Felipe Pena, que embora apresente ideias com as quais não concordo totalmente, ainda assim tem o mérito de levantar questões que precisam ser debatidas quando falamos de literatura no Brasil. A começar por: quando foi que criamos esse critério de só é bom o que é hermético, ou, em outras palavras, só para iniciados? Qual o problema da literatura de entretenimento, sem preocupações estéticas, se a própria origem da literatura era a mera contação de histórias? O resultado disso é uma anomalia em que todo mundo diz que lê o mais novo queridinho da crítica especializada, mas quem vende mesmo é aquele que está sempre sendo chutado como uma espécie de cachorro morto, nem que seja para que com a crítica a um autor a pessoa ganhe um rótulo de “inteligente”. Você já conheceu um tipo assim, eu tenho certeza: ele é o que torce nariz para qualquer bestsellerYA ou chick-lit lançado, não porque tenha lido e achado ruim, mas simplesmente porque são bestsellerYA e chick-lit, livros conhecidos por suas estruturas mais simples, enredos mais básicos etc.

Pena traz então o Manifesto Silvestre, que basicamente tenta resgatar a ideia da leitura atrelada à história em si, e não aos diferentes recursos literários que alguns escritores costumam utilizar na chamada “alta literatura”. Aqui, minha ressalva é que, embora tente adotar um tom bastante político, ele acaba dando algumas alfinetadas desnecessárias nos autores que, considerando o subtítulo, são adorados pela crítica. Há pelo menos dois itens que deixaram esta sensação, o quarto e o décimo. Um fala de “Academicismos, jogos de linguagem e experimentalismos vazios” e o outro de “Quem não é moderninho é superficial”. Acredito que era possível passar sem isso, até porque pelo que entendi de grande parte do texto o Manifesto não é uma crítica a quem inova ou algo assim, mas aos detratores do outro tipo de literatura, normalmente qualificada “de entretenimento”. A premissa básica é: pegue este livro, e lembre como existem outras maneiras de se divertir lendo. Só que aí com estes itens (e de novo, o subtítulo) algumas pessoas podem pensar que é algo como “Pegue este livro e… mimimi queremos ser estudados nos cursos de Letras também!”. Eu sei que o segundo caso não era a intenção do Pena, mas acabou soando um pouco assim, e aí entra a questão do timing ruim.

Geração Subzero saiu quase junto com a já famosa seleção da Granta dos “melhores autores jovens brasileiros”. E muito embora não pareça uma resposta do time dos que ficaram de fora da Granta (até porque há de se considerar todo o tempo que levou o processo de publicação de Geração Subzero), ainda assim algumas pessoas podem ter a ideia (errada) de que a coletânea organizada por Pena veio para rivalizar com a lançada pela Alfaguara. Algo como: ok, vocês têm os melhores. Mas nós temos os que vendem mais. Tivesse saído dois meses antes ou dois meses depois, essa impressão não ficaria no ar. O problema é que com isso, a Geração Subzero pode perder justamente os leitores que deveriam ler o livro (sim, o chato que descrevi no primeiro parágrafo) – porque não duvido que só os nomes de Spohr e Vianco na capa já faça esse volume vender bastante. Mas venderá para quem não tem nenhuma neura sobre ler literatura de entretenimento. Aqueles mais inseguros, que acham que ler uma Thalita Rebouças os torna menos inteligentes (uma dica: se você pensa assim, você já é um idiota. Não esquenta a cabeça com isso não, filho), vão passar reto pelo livro e vão perder não só a proposta do Pena, mas alguns ótimos contos, simplesmente por imaginarem o livro como uma anti-Granta ou algo que o valha.

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Antologia Poética (Carlos Drummond de Andrade)

Então você pensa que não conhece muitas poesias de determinado escritor e resolve ler uma “antologia poética” para ter uma noção mais ampla da criação literária do poeta. Lê um poema, vai para outro e todos os versos começam a passar um tom de estranha familiaridade. Tão estranha, que em alguns poemas você começa a prever o verso seguinte (e consequentemente se dá conta de que conhecia o texto de cor). É quase como uma sensação de voltar para casa, ou até mesmo de reencontro com um amigo – foi o que senti ao ler Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade.

É evidente que muito da obra de Drummond foi devidamente apresentada para mim em sala de aula (acredito que o mesmo deve ter acontecido com outras pessoas, especialmente com os que já foram vestibulandos). Mas a sensação de familiaridade não vem só do fato de muitos dos poemas do escritor serem bastante conhecidos e estudados, mas também pelos temas abordados pelo poeta e o modo como ele faz, o que fica bastante evidente nesta coletânea.

A antologia foi organizada pelo próprio autor em 1962, e é dividida em nove partes que, segundo Drummond, representam “o indivíduo, a terra natal, a família, amigos, o choque social, o conhecimento amoroso, a própria poesia, exercícios lúdicos, uma visão ou tentativa de, da existência” (pg.15). Mas a abordagem do poeta é tão sensível, que ele poderia tratar de temas completamente alienígenas e ainda assim conseguir fazer com que o leitor se identificasse com seus versos. Portanto não é à toa que muitos recitem por aí trechos de poemas dele (mesmo que às vezes sem nem saber a quem pertencem). É um daqueles casos em que o poeta parece assumir o papel de porta-voz da humanidade, colocando em palavras (e versos!) o que muitos sentem.

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Eu não sei ter (Marcelo Candido)


Claro, eu não tinha feito nada demais, porém minha neutralidade fora fundamental, ou pelo menos me dava prazer pensar assim. Saí de lá com vários elementos para remontar a história de meu amigo. Me dá até vontade de escrever um livro. Se fosse escrever, já teria um nome: Infidelimizade.

A fala acima é do personagem-narrador Justiniano, do romance Eu não sei ter, de Marcelo Candido. Quando li o trecho pensei “Mas e por que o autor não adotou isso como título?”, teria sido genial. Porque se há uma palavra para descrever o motor da narrativa, seria exatamente esta: infidelimizade. Justiniano é um homem que em determinado momento se vê forçado a repensar sua relação com o melhor amigo Gregório, em como quando veio do interior para São Paulo adotou a família do amigo como sua, de como cresceram e se desenvolveram juntos – e de como acabaram se distanciando. O leitor toma as palavras do narrador não só como uma remontagem da história de Gregório,  mas também da relação de ambos, e das pessoas que circulam em suas vidas.

Por outro lado, Eu não sei ter parece cair como uma luva quando pensamos no protagonista, em como ele parece carregar uma dose de amargura misturada com um pouco de solidão, talvez justamente pelo medo de se relacionar mais profundamente com alguém. Há um momento em que ele revela um curioso método para escolher aquela que seria a mulher de sua vida: oferece um bonsai para a namorada depois de alguns meses juntos. Se ela conseguisse mantê-lo vivo por um determinado tempo, ela seria a escolhida. É claro, nunca funcionou. E é claro, ele logo descobre que não há muita lógica na hora de se escolher “a pessoa da nossa vida”.

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Talvez não tenha criança no céu (Davi Boaventura)

Escrever sobre a adolescência é uma tarefa complicada para quem já entrou na fase adulta. Seja pelo fator nostalgia (que deixa tudo muito melhor ou muito pior do que realmente era), seja simplesmente porque vamos esquecendo o que era ser adolescente, a realidade é que muitos dos livros (ênfase para “muitos dos”, não estou dizendo todos) voltados para o público juvenil acabam se afastando da realidade que os leitores vivem. Eles têm qualidades próprias, mas parecem criar um tipo de adolescente que só vê nas páginas dos livros, daqueles que não falam palavrão, não fumam escondido dos pais e não fazem besteira por não saber para onde ir. Justamente por isso foi com grande (e positiva) surpresa que recebi Talvez não tenha criança no céu, livro de estreia de Davi Boaventura. Essa fase tão complexa de nossa vida está lá com todas as cores, com aquele sabor agridoce de um tempo que por mais difícil que tenha sido, ainda assim desperta saudade.

A história é narrada pelo protagonista, sem que seu nome seja revelado. Sabemos que é um menino de classe média que vive na região metropolitana de Salvador, mas que, vá lá, poderia viver em qualquer lugar do Brasil. O leitor é arremessado sem grandes enrolações dentro de um turbilhão que representa muito bem a ansiedade de viver, de se definir, de se colocar como alguém no mundo. O primeiro capítulo do livro chega a ser emblemático: aquela festa com música alta, o narrador meio perdido sem se dar conta do que estava de fato acontecendo quando vai apartar uma briga entre irmãos. São os últimos dias das férias, e ele tenta aproveitá-los da melhor forma possível com seu amigo Gil.

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Contos Essenciais: A Igreja do Diabo (Machado de Assis)

Considerando dados da pesquisa do Instituto Pró-Livro (Retratos da Leitura no Brasil), Machado de Assis é o segundo escritor brasileiro mais admirado pelos leitores em nosso país, perdendo apenas para Monteiro Lobato. É uma informação que fala muito, mesmo que o português Fernando Pessoa apareça em 18º lugar na mesma lista. Fala muito no sentido de que Machado de Assis é conhecido do público, portanto dispensa maiores apresentações.  Sim, é o cara da Capitu dos olhos de ressaca. É o mesmo que autor que escreveu Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra citada por pessoas como o crítico literário Harold Bloom e o cineasta Woody Allen. E com tantos romances famosos, é bom lembrar que Machado de Assis era também um excelente contista.

Na realidade é tão bom que chega a ser uma tarefa ingrata escolher um sobre o qual falar aqui nos Contos Essenciais. Quem não leu A Cartomante, Missa do Galo, Um Homem Célebre entre outros, deveria correr atrás de ir conferir. Mas hoje ficaremos com A Igreja do Diabo, que ganha pontos extras por se manter tão atual. É o tipo de texto que poderá ser lido e compreendido (e admirado) durante muitos anos, porque fala do ser humano em sua característica mais básica: a dualidade.

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Contos Essenciais: Sintomas (Paulo Leminski)

– Doutor, estou sentindo uma rima terrível.

É assim que o curitibano Paulo Leminski abre o conto Sintomas, presente na deliciosa coletânea Gozo Fabuloso. Conto? Mas Leminski não era poeta? Calma, meu pequeno gafanhoto, porque essa nossa mania de rotular o sr. Leminski aplicou um golpe e nos colocou no chão.

Era poeta sim, e dos bons. Mas foi tanto mais: escreveu romance, escreveu conto. Compôs música, traduziu, escreveu ensaios. É tanto que alguma coisa acaba sempre passando batida, o que é uma pena, porque ele parecia circular muito bem em qualquer área que pedisse um punhado de linguagem misturado com criatividade. Falo de Sintomas numa escolha aleatória, porque essencial mesmo é todo o Gozo Fabuloso.

O conto é breve, um recorte. Mostra o diálogo entre paciente e médico, fazendo uma brincadeira entre a condição de ser poeta como se isso fosse um mal, uma doença. Carregado de traços autobiográficos, acaba sendo um caldo em que o escritor coloca para fora o que sente sobre ser um poeta. Não só poeta, vale lembrar. “Quando eu não agüento mais, eu faço um poema.“, diz ele em resposta ao médico sobre o que faz quando dói demais, levantando a velha questão de que é preciso ser um pouco triste para fazer poesia.

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A felicidade é fácil (Edney Silvestre)

Com o perdão do trocadilho, voltar depois de um grande sucesso de estreia não é fácil. Acontece no cinema, na música e é óbvio que a literatura não escapa disso. A sensação que dá é que algumas pessoas ficam até na torcida negativa, esperando que seja só mais “one hit wonder”, que logo será esquecido. É com esse histórico de comportamento dos leitores que chegou recentemente às livrarias A felicidade é fácil, novo livro de Edney Silvestre, o primeiro após o grande sucesso Se eu fechar meus olhos agora.

O livro vem para não deixar dúvidas sobre a coleção de elogios que o autor conquistou: é simplesmente viciante. O ritmo é frenético, não há tempo para divagações desnecessárias, é tudo muito direto ao ponto. Ao leitor cabe deixar-se levar nessa montanha russa de sentimentos e pensamentos, que Edney Silvestre alinhava tão bem. A atenção é conquistada (e mantida) página após página, rendendo o famoso momento do “Só vou ler mais um capítulo e depois eu vou dormir” (para quem já fez isso tenho certeza que compreenderá).

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As Esganadas (Jô Soares)

Você já deve ter passado por isso em algum momento: depois de anos reencontra um amigo, no começo fica achando que não terão muito assunto porque afinal, faz tempo que vocês não se veem. Mas mal começam a conversar e a sensação que tem é que não passaram mais do que um dia sem se encontrar, tamanha a familiaridade entre vocês. Digo isso porque foi mais ou menos o que senti ao ter em mãos As Esganadas, novo romance de Jô Soares.

Tem mais de 15 anos da última vez que li algo do Jô, no caso foi O Xangô de Baker Street, que trazia Sherlock Holmes para o Brasil em uma história muito divertida. No caso de As Esganadas, não foi preciso ler muitas páginas para ter aquela (boa) sensação de reencontro, o Jô Soares que eu tinha conhecido tanto tempo antes estava ali novamente, em uma fórmula até bem semelhante ao do primeiro romance dele, com um crime e bastante humor, usando como recorte algum período histórico e algumas personagens emprestadas da ficção e da própria História.

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