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O espírito da prosa (Cristovão Tezza)

A curiosidade do leitor sobre a vida do autor que escreveu alguma obra que tenha agradado muito é bastante comum (vide os comentários sobre Serena, de Ian McEwan). Imagine então quando esse escritor passa a ser reconhecido não só por uma pessoa, mas por várias. Ou ainda: pela crítica. E começa a acumular prêmios e elogios, aumentando ainda mais a vontade de saber mais sobre aquela pessoa. O que fez com que ele começasse a escrever? O que o inspirou? Como faz para afiar cada vez mais seu modo de escrever? Em suma: o que há em sua formação que o tornou uma peça única em um mar de escritores?

Sobre este interesse, basta observar a frequência com a qual algumas perguntas se repetem em entrevistas com escritores. Deve existir atualmente pelo menos quinze formas diferentes de perguntar “Quais são suas influências?”, por exemplo. E é por conta dessa infinidade de questões que surgem na mente do leitor que O espírito da prosa (de Cristovão Tezza) trata-se de uma autobiografia literária (como o próprio subtítulo indica) mais do que bem-vinda. Tezza, agora já reconhecido por sua produção (com destaque para O Filho Eterno, publicado em 2007), traz para o leitor uma reflexão sobre como chegou até este momento, o que tornou o garoto que fazia imitações de livros na infância no romancista consagrado dos dias de hoje.

É evidente que ele não se considera um romancista consagrado, ou não se coloca como tal no livro. Até há nas primeiras páginas uma divagação sobre o que faz de um homem um escritor de fato, e da dificuldade de se considerar como tal – que dirá ainda adotar o adjetivo ao lado da profissão. Mas para não nos perdermos em nomeações, vamos considerar que no mínimo, ele é um sujeito que sabe do que está falando. E fala muito bem, como fica nítido em todas as páginas de O espírito da prosa. Os capítulos são curtos, o que empresta uma certa agilidade para a leitura, e tem um tom que mesclam uma palestra com o de uma conversa. Ou seja, expõe bem as questões mas sem que seja chato, prende o interesse não só pela já citada curiosidade que o leitor tem pela formação do escritor, mas também pelo tanto que comenta sobre a literatura em si.

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Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores

Uma proposta interessantíssima, um péssimo timing. Era o que eu pensava enquanto lia cada um dos 20 contos que fazem parte do livro Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores, organizado por Felipe Pena e publicado pela Record. Já começa com a introdução do próprio Felipe Pena, que embora apresente ideias com as quais não concordo totalmente, ainda assim tem o mérito de levantar questões que precisam ser debatidas quando falamos de literatura no Brasil. A começar por: quando foi que criamos esse critério de só é bom o que é hermético, ou, em outras palavras, só para iniciados? Qual o problema da literatura de entretenimento, sem preocupações estéticas, se a própria origem da literatura era a mera contação de histórias? O resultado disso é uma anomalia em que todo mundo diz que lê o mais novo queridinho da crítica especializada, mas quem vende mesmo é aquele que está sempre sendo chutado como uma espécie de cachorro morto, nem que seja para que com a crítica a um autor a pessoa ganhe um rótulo de “inteligente”. Você já conheceu um tipo assim, eu tenho certeza: ele é o que torce nariz para qualquer bestsellerYA ou chick-lit lançado, não porque tenha lido e achado ruim, mas simplesmente porque são bestsellerYA e chick-lit, livros conhecidos por suas estruturas mais simples, enredos mais básicos etc.

Pena traz então o Manifesto Silvestre, que basicamente tenta resgatar a ideia da leitura atrelada à história em si, e não aos diferentes recursos literários que alguns escritores costumam utilizar na chamada “alta literatura”. Aqui, minha ressalva é que, embora tente adotar um tom bastante político, ele acaba dando algumas alfinetadas desnecessárias nos autores que, considerando o subtítulo, são adorados pela crítica. Há pelo menos dois itens que deixaram esta sensação, o quarto e o décimo. Um fala de “Academicismos, jogos de linguagem e experimentalismos vazios” e o outro de “Quem não é moderninho é superficial”. Acredito que era possível passar sem isso, até porque pelo que entendi de grande parte do texto o Manifesto não é uma crítica a quem inova ou algo assim, mas aos detratores do outro tipo de literatura, normalmente qualificada “de entretenimento”. A premissa básica é: pegue este livro, e lembre como existem outras maneiras de se divertir lendo. Só que aí com estes itens (e de novo, o subtítulo) algumas pessoas podem pensar que é algo como “Pegue este livro e… mimimi queremos ser estudados nos cursos de Letras também!”. Eu sei que o segundo caso não era a intenção do Pena, mas acabou soando um pouco assim, e aí entra a questão do timing ruim.

Geração Subzero saiu quase junto com a já famosa seleção da Granta dos “melhores autores jovens brasileiros”. E muito embora não pareça uma resposta do time dos que ficaram de fora da Granta (até porque há de se considerar todo o tempo que levou o processo de publicação de Geração Subzero), ainda assim algumas pessoas podem ter a ideia (errada) de que a coletânea organizada por Pena veio para rivalizar com a lançada pela Alfaguara. Algo como: ok, vocês têm os melhores. Mas nós temos os que vendem mais. Tivesse saído dois meses antes ou dois meses depois, essa impressão não ficaria no ar. O problema é que com isso, a Geração Subzero pode perder justamente os leitores que deveriam ler o livro (sim, o chato que descrevi no primeiro parágrafo) – porque não duvido que só os nomes de Spohr e Vianco na capa já faça esse volume vender bastante. Mas venderá para quem não tem nenhuma neura sobre ler literatura de entretenimento. Aqueles mais inseguros, que acham que ler uma Thalita Rebouças os torna menos inteligentes (uma dica: se você pensa assim, você já é um idiota. Não esquenta a cabeça com isso não, filho), vão passar reto pelo livro e vão perder não só a proposta do Pena, mas alguns ótimos contos, simplesmente por imaginarem o livro como uma anti-Granta ou algo que o valha.

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O Substituto (Brenna Yovanoff)

Não há dúvidas, os livros voltados para adolescentes com temática sobrenatural vieram para ficar. E o que inicialmente parecia um terreno exclusivo de vampiros foi criando espaço para todo tipo de criatura – anjos e zumbis, por exemplo. O problema é que a fórmula começou a ficar desgastada, por conta de alguns elementos constantes: o narrador em primeira pessoa, que quase sempre é um jovem com algum tipo de problema para se relacionar com outras pessoas (antissocial? acabou de trocar de cidade? tem um horrível segredo? etc.), o encontro entre a criatura sobrenatural com um(a) humano(a) e o amor que surge dali. A sensação que acaba ficando após a leitura de alguns livros desse tipo é que alguns escritores (e editoras) não querem arriscar, mexer no “time que está ganhando”, e consequentemente entregam para o público histórias que, fora a espécie de “monstro” e os nomes das personagens, parecem ter pouca diferença entre si. E é por manter a fórmula mas fugir da “forma de bolo” que livros como O Substituto de Brenna Yovanoff merecem atenção.

Sim, temos criaturas sobrenaturais, temos o carinha com um horrível segredo e até um amorzinho (!!) entre o ser em questão e uma humana, e sim, o sempre constante narrador em primeira pessoa. Mas mesmo com todos esses lugares-comuns Yovanoff consegue inovar, trazer algo de diferente para quem gosta de livros deste tipo. Já começa que temos um raro protagonista do sexo masculino (atenção para o termo “raro”, não estou dizendo que seja a primeira vez), o que por si só já traz uma dezena de inovações. Mackie é um substituto, criatura subterrânea colocada no lugar do filho do casal Doyle. Engana-se quem pensa que o enredo girará em torno do garoto descobrindo-se um substituto ou algo que o valha. Ele sabe o que é. Seus pais sabem o que ele é. Não há mistérios sobre isso.

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The Walking Dead: A Ascensão do Governador (Robert Kirkman, Jay Bonansinga)

Publicada desde 2003, a série The Walking Dead é provavelmente um dos títulos mais bem sucedidos quando falamos de quadrinhos internacionais. Além de premiações importantes como o Eisner Award que ganhou em 2010, ainda conta com uma adaptação para a TV pelo canal AMC que é igualmente um sucesso, com uma grande audiência e até nomeação para prêmios importantes. E se pensar que tudo envolvendo The Walking Dead é superlativo, a série conta também com um dos maiores vilões dos quadrinhos, de acordo com o IGN. O antagonista em questão é o “Governador” Philip Blake, conhecido por comandar com mãos de ferro Woodbury. Mas será que ele sempre foi o que aparece nas HQs?

É para responder isso que chega o livro The Walking Dead: A Ascensão do Governador, que mostra como Philip Blake sobrevive aos primeiros dias do apocalipse zumbi junto com seu irmão Brian, a filha Penny e mais dois amigos. Ao contrário do que acontece na série de HQ e de TV, onde vemos o protagonista Rick Grimes acordando em um momento já mais avançado do início da infestação, aqui temos o início. Philip e seu grupo observam o número de “Mordedores” crescendo cada vez mais, veem o sinal de rádio, TV e internet sumir e passam, dia após dia, a lutar para se manterem vivos.

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A felicidade é fácil (Edney Silvestre)

Com o perdão do trocadilho, voltar depois de um grande sucesso de estreia não é fácil. Acontece no cinema, na música e é óbvio que a literatura não escapa disso. A sensação que dá é que algumas pessoas ficam até na torcida negativa, esperando que seja só mais “one hit wonder”, que logo será esquecido. É com esse histórico de comportamento dos leitores que chegou recentemente às livrarias A felicidade é fácil, novo livro de Edney Silvestre, o primeiro após o grande sucesso Se eu fechar meus olhos agora.

O livro vem para não deixar dúvidas sobre a coleção de elogios que o autor conquistou: é simplesmente viciante. O ritmo é frenético, não há tempo para divagações desnecessárias, é tudo muito direto ao ponto. Ao leitor cabe deixar-se levar nessa montanha russa de sentimentos e pensamentos, que Edney Silvestre alinhava tão bem. A atenção é conquistada (e mantida) página após página, rendendo o famoso momento do “Só vou ler mais um capítulo e depois eu vou dormir” (para quem já fez isso tenho certeza que compreenderá).

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O Cemitério de Praga (Umberto Eco)

Os Protocolos dos Sábios de Sião são tidos hoje em dia como uma fraude, estiveram presentes em alguns pontos importantes da história desde que surgiram. O documento foi utilizado pela polícia secreta do Czar Nicolau II (como modo de reforçar a posição desse) e anos depois por Adolf Hitler, para justificar a perseguição aos judeus. O texto é uma espécie de ata de uma assembléia na qual judeus e maçons se encontram para planejar a dominação mundial, através do acúmulo de riquezas, entre outras metas. A questão é que a autoria dos Protocolos é bastante nebulosa: não se sabe ao certo quem escreveu, até porque para alguns parte do documento é cópia de outros escritos, sendo adicionado ao texto o elemento antissemita.

O que Umberto Eco faz com seu O Cemitério de Praga (lançado no Brasil pela Editora Record) é criar um romance usando como premissa justamente esse caráter misterioso e tom de teoria de conspiração que envolve Os Protocolos dos Sábios de Sião. É por si só um prato cheio para uma excelente trama, que não deve nada para aqueles que gostam de histórias que envolvam complôs, espionagens e outros elementos de narrativas similares.

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A outra rainha (Philippa Gregory)

1568. Maria, a rainha dos escoceses, foge para a Inglaterra buscando apoio da prima Elizabeth, então há dez anos rainha dos ingleses. Maria era acusada de ter tramado a morte do próprio marido, Lord Darnley, junto com o conde de Bothwell – com quem casou tão logo Darnley morrera, por isso atraindo as suspeitas. Os escoceses a obrigaram a abdicar o trono, e é com Elizabeth que ela busca ajuda. O problema é que dez anos antes ela já havia dificultado a coroação de Elizabeth, querendo para si o título de rainha dos ingleses. É então evidente que a prima não facilite as coisas para Maria, mantendo-a prisioneira sob a guarda de George Talbot, o conde de Shrewsbury.

Este é o cenário onde inicia o romance A outra rainha, de Philippa Gregory, autora conhecida por romances situados neste período histórico. Sabendo mesclar muito bem as conhecidas intrigas de corte com ficção, Gregory nos entrega uma história que cativa por mostrar personagens que não são perfeitos, são bastante próximos da realidade. O trio que sustenta a narrativa (Maria, Talbot e a esposa de Talbot, Bess) cada qual tem suas aspirações e apenas querem lutar por isso. Não há maldade no sentido maniqueísta da palavra, há más ações baseadas nesse desejo de conseguir realizar seus sonhos. Continue reading A outra rainha (Philippa Gregory)

Promoção Scott Turow Meia Palavra + Editora Record

Scott Turrow é um dos maiores escritores de literatura de tribunal norte-americana, com diversos títulos que tiveram muito sucesso lá fora e aqui no Brasil. Ele também é um dos destaques da XV Bienal do Livro do Rio, onde estará presente para o lançamento do livro O Inocente, continuação do romance Acima de qualquer suspeita (ambos publicados pela Editora Record).

Para comemorar a vinda do autor ao Brasil, o Meia Palavra e a Editora Record estão lançando a promoção Scott Turow, na qual sortearemos um kit contendo O Inocente e Acima de qualquer suspeita. Para participar é muito fácil, basta deixar um comentário neste post aqui, até quinta que vem, 1º de setembro (que é o primeiro dia da Bienal). O resultado será divulgado na sexta-feira, dia 2/9, no Links e Notícias da Semana do Meia Palavra.

E para quem ficou curioso sobre os livros, aguardem que em breve teremos resenha da Izze sobre O Inocente e Acima de qualquer suspeita aqui no Meia Palavra! Boa sorte para todos que participarem!

Saiba mais sobre essa e outras obras no site do Grupo Editorial Record

Paris é uma festa (Ernest Hemingway)

Vencedor do prêmio Nobel em 1954, o norte-americano Ernest Hemingway parece personagem de ficção. Basta uma olhada rápida em sua biografia para se dar conta de como esse homem viveu intensamente: esteve presente na Primeira Guerra Mundial como motorista de ambulância, foi correspondente estrangeiro de jornal, conheceu pessoas que depois de algum tempo viriam a entrar na lista de personalidades favoritas de muitas pessoas.

É por causa disso que Paris é uma festa (A Moveable Feast) embora biográfico tenha todo o charme de um romance. Descrevendo os anos que Hemingway viveu em Paris, ainda dando os primeiros passos na carreira de escritor, o livro vem cheio de personagens fascinantes, ainda mais quando se sabe que são reais, e quanto influenciaram o trabalho de Hemingway.

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Promoção FLIP 2011 do Meia Palavra e Editora Record

A FLIP 2011 começa nesta semana, dia seis de julho e contará com diversas atrações envolvendo nomes da literatura nacional e estrangeira. Um dos destaques do festival é a vinda do escritor norte-americano James Ellroy, autor de livros como Dália Negra e Los Angeles, Cidade Proibida. Dono de um estilo marcante que renovou o romance policial mesclando elementos autobiográficos à violência, com toques do que se via no gênero noir dos cinemas. Na FLIP ele estará na mesa 14, “Lugares escuros”, mediada por Arthur Dapieve às 19.30h do sábado, dia 9.

Se você não conseguiu ingresso, nem poderá viajar até Paraty, o Meia Palavra e a Editora Record tem um presente que pode te alegrar: sortearemos dois exemplares do lançamento mais recente do autor, Sangue Errante. Um deles será sorteado aqui no blog mesmo. Para participar, basta deixar uma mensagem nos comentários deste post até quinta-feira, dia 07. O vencedor será anunciado nos Links e Notícias da Semana da sexta-feira, dia 08.

E caso você não consiga ganhar, ainda há uma segunda chance. No sábado, dia da mesa “Lugares escuros”, sortearemos mais um exemplar, através do twitter. Não deixem de seguir o @meiapalavra e a @editora_record para não perder essa oportunidade!

Saiba mais sobre essa e outras obras no site do Grupo Editorial Record