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O espírito da prosa (Cristovão Tezza)

A curiosidade do leitor sobre a vida do autor que escreveu alguma obra que tenha agradado muito é bastante comum (vide os comentários sobre Serena, de Ian McEwan). Imagine então quando esse escritor passa a ser reconhecido não só por uma pessoa, mas por várias. Ou ainda: pela crítica. E começa a acumular prêmios e elogios, aumentando ainda mais a vontade de saber mais sobre aquela pessoa. O que fez com que ele começasse a escrever? O que o inspirou? Como faz para afiar cada vez mais seu modo de escrever? Em suma: o que há em sua formação que o tornou uma peça única em um mar de escritores?

Sobre este interesse, basta observar a frequência com a qual algumas perguntas se repetem em entrevistas com escritores. Deve existir atualmente pelo menos quinze formas diferentes de perguntar “Quais são suas influências?”, por exemplo. E é por conta dessa infinidade de questões que surgem na mente do leitor que O espírito da prosa (de Cristovão Tezza) trata-se de uma autobiografia literária (como o próprio subtítulo indica) mais do que bem-vinda. Tezza, agora já reconhecido por sua produção (com destaque para O Filho Eterno, publicado em 2007), traz para o leitor uma reflexão sobre como chegou até este momento, o que tornou o garoto que fazia imitações de livros na infância no romancista consagrado dos dias de hoje.

É evidente que ele não se considera um romancista consagrado, ou não se coloca como tal no livro. Até há nas primeiras páginas uma divagação sobre o que faz de um homem um escritor de fato, e da dificuldade de se considerar como tal – que dirá ainda adotar o adjetivo ao lado da profissão. Mas para não nos perdermos em nomeações, vamos considerar que no mínimo, ele é um sujeito que sabe do que está falando. E fala muito bem, como fica nítido em todas as páginas de O espírito da prosa. Os capítulos são curtos, o que empresta uma certa agilidade para a leitura, e tem um tom que mesclam uma palestra com o de uma conversa. Ou seja, expõe bem as questões mas sem que seja chato, prende o interesse não só pela já citada curiosidade que o leitor tem pela formação do escritor, mas também pelo tanto que comenta sobre a literatura em si.

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Links e Notícias da Semana #16

Estátua do poeta português Fernando Pessoa

Folha.com, entrevista com Denise Bottmann comentando a tradução de Walden, de Thoreau. Aproveite para conferir a entrevista que ela concedeu ao Meia Palavra no 10 Perguntas e Meia. No Mundo Livro, Carlos André Moreira resenhou o livro Invisível, de Paul Auster.

Em clima de fim de ano, os Colunistas do Uol elegem os 10 lançamentos de 2010 e a Revista Língua Portuguesa elege as palavras do ano. A Editora Record também já anunciou alguns lançamentos previstos para 2011, entre eles uma biografia sobre Fernando Pessoa (a primeira escrita por um brasileiro) e um novo romance de Edney Silvestre.

E se Papai Noel não foi muito generoso, que tal tentar a sorte participando do concurso de fim de ano do Meia Palavra + Dublinense + Não Editora? O próximo livro sorteado será Desacordo Ortográfico: a diversidade da língua portuguesa (organizada por Reginaldo Pujol Filho), o sorteio acontecerá no dia 05/01. E por falar no Meia Palavra, você já está seguindo o @meiapalavra no twitter?

Para quem gosta de Nick Hornby, dá para passar na revista The Believer para conferir parte da coluna mensal que deu origem ao livro Frenesi Polissilábico. E para os fãs de Cristovão Tezza, uma boa notícia: O Filho Eterno é eleito o livro da década pela revista Bravo!

Ainda nas notícias da semana, Ana de Hollanda pretende rever lei de Direitos Autorais e CaSa de IdEiAs soltou 10 balões com “vale-livro” em São Paulo.

Lançamentos da Companhia das Letras:

Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (Tradução de Paulo Henriques Britto)
O caso Dreyfus, de Louis Begley (Tradução de Laura Teixeira Motta)
O amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence (Tradução de Sergio Flaksman)

Um erro emocional (Cristovão Tezza)

Lembro de certa vez ter lido uma lista com os 10 começos de livros mais memoráveis, o que apresentava inícios de livros como Moby Dick, Neuromancer e a Bíblia. Está aí uma tarefa quase impossível: conquistar o leitor (ou pelo atiçar a curiosidade desse) já na primeira frase. A maioria absoluta dos meus livros favoritos não me conquistaram assim, acabaram me seduzindo apenas após a décima página para mais. Então imagine com que prazer (e surpresa!) eu acabei recebendo as primeiras linhas do novo livro de Cristovão Tezza:

Cometi um erro emocional, Beatriz se imaginou contando à amiga dois dias depois — foi o que ele disse assim que abri a porta, o tom de voz neutro, alguém que parecia falar de uma avaliação da Bolsa, avançando sem me olhar como se já conhecesse o apartamento, dando dois, três, quatro passos até a pequena mesa adiante em que esbarrou por acaso, depositando ali o vinho com a mão direita e a pasta de textos com a esquerda (e ela se viu desarmada no meio de três sinais contraditórios, o erro, o vinho, o texto, mais a espécie de invasão de alguém que está à vontade — o que ela havia sonha-do, Beatriz teria de confessar à amiga, e ambas achariam graça da ideia — à vontade, mas não do modo correto) e Beatriz fechou a porta devagar com um sorriso de quem se vê imersa na ironia, e isso é bom; e se virou para escutar o resto, agora vendo-o com as mãos livres, a silhueta contra a luz, os braços brevemente desamparados daquele homem magro:
— Eu me apaixonei por você.

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