Portugal, 0 nº5 (valter hugo mãe)

No começo do ano, ao comentar sobre O filho de mil homens do escritor português Valter Hugo Mãe, fiz a seguinte observação sobre o estilo do autor: “durante a leitura desse livro eram frases e mais frases pedindo para serem grifadas, às vezes nem tanto pelo que diziam em si, mas pela beleza como era dito. Valter Hugo Mãe faz uma prosa com tom de poesia“. O engraçado aqui é que esse é o relato de uma leitora que descobriu Hugo Mãe através da prosa, e desconhecia completamente sua produção em poesia, embora seja bem ampla (mais de dez livros publicados). E então tive a oportunidade de finalmente conhecer o poeta através do número cinco da coleção Portugal, 0, publicado aqui no Brasil pela editora Oficina Raquel.

Antes de falar do livro, um comentário sobre a coleção, que apresenta uma ideia bem bacana de trazer mais da poesia contemporânea portuguesa para o lado de cá. A série que traz nomes como Manuel de Freitas, Luís Quintais, Rui Pires Cabral e Pedro Eiras (além, é óbvio, de hugo mãe), com uma proposta de reunir os trabalhos de autores que começaram no século XX e que “dão prosseguimento a história” no século XXI. São nomes para serem conhecidos, observados e acompanhados (e o caso de hugo mãe mostra que a aposta não é um tiro no escuro). Fica, no mínimo, como uma boa sugestão para quem quer conhecer um pouco mais de literatura portuguesa atual, e por atual digo atual mesmo, do que tem sido feito já, agora.

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Serena (Ian McEwan)

Você provavelmente já passou por essa situação: gostou muito de um livro, queria demais que outras pessoas também lessem para conversar sobre ele com você, mas no momento em que vai tentar explicar pela primeira vez o que faz dessa obra algo tão bacana, se dá conta de que é um daqueles casos de “quanto menos souber, melhor”. E não é no sentido de estragar alguma surpresa do enredo (como aquele sacaninha que vem contar o final de O Sexto Sentido para quem ainda não viu o filme) – até porque livros realmente bons não se sustentam apenas em um plot twist para serem considerados como tais. Mas é que ao falar do que encantou em determinado romance você corre o risco de estragar a experiência de leitura da outra pessoa, chamando atenção para pontos que deveriam ser descobertos a seu tempo, como parte do processo de leitura. E eu digo tudo isso para pedir desculpas e dizer que esse post não é para você que deseja saber algo sobre Serena antes de ler o livro, mas para quem já leu o romance de Ian McEwan.

(Se vale de consolo para você que ainda não leu o livro, eu posso resumir brevemente que Serena é uma história que envolve espiões mas não tem nada daquele estilo “James Bond”, e é muito mais sobre a relação das pessoas com a Literatura do que qualquer outra coisa. E sim, é lindo. E sim, você deveria ler. Obrigada pela compreensão, espero que volte mais tarde.)

Então que Serena é um romance narrado em primeira pessoa pela narradora-protagonista Serena Frome, que para mim chegou como mais uma personagem para a galeria dos odiáveis de Ian McEwan. Não, ainda não é uma Briony (precisa tomar muito Nescau para chegar aí), mas inicialmente não tem como gostar da garota, tão egocêntrica e aparentemente tão apaixonada por si mesma. Vou enfatizar o inicialmente e pedir um tanto de paciência que depois volto para o motivo de ser só no começo. Retornando, Serena conta para o leitor como é que, após um breve romance com um homem mais velho, acabou sendo contratada pelo MI5, serviço de Inteligência Britânico. Quem espera toda a ação e glamour típicos das histórias de espiões pode se decepcionar: o cargo inicial da jovem é bastante sem graça, e pelo menos uma boa parte do começo do livro de McEwan se sustenta quase que só na curiosidade do leitor em saber por que o ex-amante de Serena a indicou para aquele trabalho. Mas aí chega o projeto Tentação e a narrativa realmente engrena.

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Degas Dança Desenho (Paul Valéry)

A melhor forma de começar a falar sobre Degas Dança Desenho, escrito pelo poeta e pensador Paul Valéry (1871-1945) é utilizando as palavras do próprio autor no primeiro capítulo (“Degas”). Diz Valéry, quase como se estivesse pedindo desculpa ou pelo menos se explicando para o leitor: “Voltarei a falar sobre isto, sem dúvida… Aliás, nem sei muito bem o que direi mais à frente. É possível que, ao falar de Degas, eu vagueie um pouco pela Dança e pelo Desenho. Não se trata de uma biografia segundo as regras; não tenho uma opinião muito boa das biografias, o que prova apenas que não fui feito para escrevê-las. De todo modo, a vida de alguém não passa de uma sequência de acasos, e de respostas mais ou menos exatas a acontecimentos casuais…” (pg.17).

Confesso que com esse começo já fui capturada pelo estilo de Valéry, mesmo porque eu mesma não sou muito fã de biografias (questão que já comentei em outras oportunidades aqui no Meia Palavra). E de fato, embora Degas Dança Desenho possa ser lido como uma biografia, o autor conseguiu fazer algo que vai além disso, trazendo para o leitor a oportunidade não só de reflexões sobre a arte (e aqui de um modo bem amplo, envolvendo além da dança e o desenho, como o título sugere, também a literatura), mas também o registro de uma época fundamental para a modernidade. Além disso, o tom e estruturas escolhidos por Valéry fazem desse livro uma leitura interessante e ao mesmo tempo prazerosa – é como ouvir um professor apaixonado pelo tema de sua aula, ou mesmo um amigo falando de algo que gosta muito. Em outras palavras, é cativante.

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Shakespeare escrevia por dinheiro: Questão de gosto

Leitor é mesmo um bicho engraçado. Em alguns casos, se o sujeito gosta muito de um livro, tudo sobre aquele título torna-se uma questão pessoal. É como se aquela obra ajudasse a defini-lo como pessoa, funcionasse como um cartão de visitas e também um modo de reconhecimento de iguais. “Opa, você também gosta de Oscar Wilde? Nossa, você deve ser muito legal”. Algo assim. É um negócio meio egocêntrico e vaidoso, mas ao mesmo tempo de (falsa) humildade: não saímos por aí dizendo o quanto nos achamos legais por ler fulano de tal, mas consideramos isso como um aspecto positivo de uma outra pessoa, meio que confirmando o que já achamos sobre nós mesmos. E caramba, como isso é idiota, mas como fazemos isso. E quando descobrimos um gosto em comum com um escritor que admiramos? Nossa, é o paraíso. Mas sim, também é idiota. Como disse, leitor é mesmo um bicho engraçado.

A questão é que por incorporarmos determinados livros e escritores à nossa personalidade, muitas vezes não sabemos lidar com uma crítica negativa a algo que gostamos. Lembrando: aquilo faz parte de nós, então se aquilo é ruim, algo que enxergávamos como positivo em nós mesmos é colocado em xeque. Não é um processo pensado, é quase involuntário. Quando você percebe já está defendendo um livro com unhas e dentes, e dependendo da argumentação do seu interlocutor, é bem provável que em algum momento você lance a bomba: GOSTO É GOSTO. Minha reação para tal frase sempre foi algo mais ou menos assim:

Não levem à mal. Eu sou a maior defensora do “gosto é gosto”, acredito mesmo nisso. Mas o maior problema de discussões (provavelmente) encerradas com o “gosto é gosto”, é que essa frase tem uma continuação não pronunciada, que segue mais ou menos assim: “Gosto é gosto, portanto eu posso gostar do que você não gosta, mas você não pode não gostar do que eu gosto”. É uma lógica meio obtusa, eu sei, portanto colhi alguns comentários feitos por leitores nos meus posts sobre a trilogia Cinquenta Tons de Cinza para usar como exemplo. Só para contextualizar, caso você esteja aqui e não tenha lido o que comentei sobre os livros, digamos que a palavra mais próxima de um elogio que uso é “tolerável”.

Bom, acho que já deu para entender. E aí nós que escrevemos para blogs sobre livros entramos em um dilema: se só falamos bem dos livros, somos vendidos, só fazemos isso por causa das parcerias e yadda yadda yadda. Se falamos mal, não somos éticos (??!!!) e estamos de algum modo também ofendendo os leitores. Quer dizer, não é exatamente um dilema, porque eu continuo escrevendo o que senti ao ler determinada obra, seja lá o que venham me dizer na caixa de comentários depois. De qualquer maneira, vamos retornar à questão do gosto. Algo que não fica claro para muita gente (e olha, até o pessoal da ~~academia~~ tem dificuldades sobre isso), é que um livro não é nem um definidor de personalidade (portanto, falar mal de uma obra não é falar mal de você), nem um negócio que deve ser lido de uma única maneira. Vamos por partes.

Um livro não é definidor de personalidade

É óbvio que uma pessoa dizendo que gosta das mesmas coisas que você é ótimo, vamos partir do princípio que no mínimo ajuda com assunto para primeiras conversas. Mas veja bem, dizer que uma pessoa é legal porque ela gosta das mesmas coisas que você, além de ser extremamente vaidoso ainda pode te colocar em algumas roubadas. Eu já conheci uma quantidade absurda de pessoas absolutamente cretinas com quem não passaria mais de meia hora em uma mesa de bar que gostam dos meus autores favoritos. Por outro lado, conheço pessoas fantásticas que abominam muitos dos meus queridinhos (alôuuu, Sky!).

Isso que nem entrei no campo do “Pensava que era inteligente, mas nossa, olha o lixo que essa pessoa lê”. Eu tenho talvez uma definição mais abrangente de inteligência, mas certamente passar os olhos em alguns títulos canônicos não faz uma pessoa ser mais ou menos inteligente para mim. E digo isso por mim. Não me acho mais inteligente do que x ou y só porque ui, eu li Guimarães Rosa, Virginia Woolf e sei lá, Dostoiévski. E nem acho que fiquei mais burra porque li a trilogia dos Cinquenta Tons de Cinza nesse mês que passou. Enfim, a inteligência para mim não vai se refletir no que você leu, gostando ou não, mas no que você faz com esse novo conteúdo.

E seguindo nessa linha de raciocínio, confesso que não suporto comentário de pessoa que tenta classificar o tipo de leitor de um livro. Estou citando bastante o caso de Cinquenta Tons porque é evidente que a coluna desse mês é, de alguma forma, uma resposta aos comentários que recebi nos meus posts sobre os livros. Mas fora a babaquice do “Pornô para mamãe” (que apesar de tudo, pelo menos não é pejorativo), já ouvi papo de que as leitoras desse livro são “Gordas mal comidas” entre outras variações do mesmo tema. Meu filho, vamos lá: você pode não curtir o negócio, pode ficar fulo da vida que pessoas leem mais bestsellers do que clássicos, mas por favor, não seja cretino. Critique o livro, não quem o lê.

Um livro não deve ser lido de uma única maneira

E aqui entra o fator mais importante. Em uma palestra lembro que uma professora fez um exercício interessante com a platéia: pediu que fechássemos os olhos e pensássemos em milho. Sim, milho. Aí no telão ela projetou uma imagem de uma espiga de milho tal como nós lembramos de ter comido na praia (haha, espero que não seja só no litoral paranaense que comam milho verde na praia) ou em festas juninas, aquela espiga com os milhos amarelinhos bonitinhos. E então ela disse que se ela fizesse esse mesmo exercício em outros lugares do mundo, a imagem do milho seria diferente (e aí ela colocou no telão fotos de milhos que são tipicamente consumidos em outras regiões do mundo, bem diferentes do nosso amarelinho).

E veja bem, estamos falando de uma palavra só. Agora pense em um romance, com muitas, muitas palavras, que apesar do significado padrão que apresentam, despertam em cada leitor memórias, julgamentos, etc. diferentes. Pensem em como esse complexo código é quebrado de formas diversas, e não só de pessoa para pessoa. Às vezes lemos algo com uma idade e quando anos depois vamos reler, aquilo se revela de um modo completamente diferente para nós.

É por isso que eu brinco que há uma certa CNTP para que gostemos de um livro. Eu meti o pau em Cinquenta Tons, mas de repente se tivesse lido em outro momento da minha vida ele teria sido no mínimo divertido para mim. Porque tem isso também: você pode avaliar um livro só pela diversão que proporciona, ou pelo aspecto formal, ou por ambos, tanto faz. Mas não dá para torcer o nariz para quem chegou ali nos comentários dizendo que adorou, porque olha, literatura também é entretenimento, e se alguém consegue se divertir com isso, QUE BOM.

Moral da história

Sim, eu posso não gostar do que você gosta e isso não tem nada a ver com você, mas com o livro. Você não é burra por achar um Mr. Grey apaixonante, nem eu por não achá-lo. E não é questão de ser ranzinza com literatura de entretenimento (oi, sou Team Eric e leio livros da Charlaine Harris). É só questão de que às vezes o efeito que uma história causa em um indivíduo não é o mesmo que causa em outros tantos. Só isso, simples assim. Então meu conselho é: parem de usar livros para tentar provar algo para terceiros, vocês estão fazendo isso errado. Livro é para curtir, seja lá qual história ele conte. No mais, fico sempre com as sábias palavras do Dude:

Histórias de Fantasmas (Charles Dickens)

Antes de falar sobre a coletânea História de Fantasmas, que reúne 13 contos do escritor inglês Charles Dickens, acho importante já começar com um aviso: apesar do nome, nem todos os contos são de fantasmas. E embora a palavra “fantasmas” evoque uma atmosfera de horror, nem todos os contos são desse gênero – aliás, uma característica notável de Dickens é o humor. O que não quer dizer de modo algum que quando ele se propõe a escrever histórias arrepiantes ele não o faça muito bem, aliás, é curioso que algumas das histórias mais assustadoras do livro não envolvam exatamente fantasmas, mas o sobrenatural de modo mais geral, digamos assim.

A coletânea já abre muito bem com “O sinaleiro”, provavelmente um dos melhores contos de Dickens que lidam com o desconhecido. Há algo extremamente especial no modo como o autor faz as descrições em suas histórias, porque é o equilíbrio perfeito no uso das descrições, fazendo com que o leitor seja transportado para castelos escuros, lugares tomados pela neblina – mas sem que isso desvie a atenção (e portanto, prejudique o desenvolvimento da tensão), ou que simplesmente seja enfadonho para quem lê.

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Altas Literaturas (Leyla Perrone-Moisés)

Parece que com o tempo nós (leitores) acabamos nos acostumando com a ideia um tanto preguiçosa de que um clássico é um livro que sobreviveu ao tempo. Digo preguiçosa porque, embora ela não seja de todo uma mentira (ou vai dizer que não é mérito da obra de Shakespeare ser lida e emocionar leitores até o dia de hoje?), ainda assim ela exclui alguns elementos da complexa equação do que forma os cânones literários até os dias de hoje. Uma prova disso é possível encontrar na pesquisa de Leyla Perrone-Moisés, publicada pela Companhia das Letras com o título Altas Literaturas. Em dado momento, ela observa que um poeta completamente esquecido pela crítica por séculos, John Donne, é resgatado novamente por escritores-críticos como Eliot e Pound. Como dá para perceber, não é mera questão de sobreviver ao tempo.

Tanto não é que o primeiro capítulo da pesquisa de Perrone-Moisés é todo dedicado à questão da História Literária e do julgamento de valor, oferecendo a base para o que veremos a seguir. Há uma crítica muito consistente ao modelo linear adotado através dos anos, que rotulava autores de acordo com escolas que na realidade eles tinham pouco a ver com isso (aqui lembro do caso do norte-americano Edgar Allan Poe, que certamente não tem o perfil único/engessado que muitos tentam atribuir para que caiba nas tais linhas do tempo), modelo este que pode passar duas falsas interpretações: a primeira é de que todos os autores posteriores a uma determinada obra devem algo ao escritor mais antigo. A segunda é de que os mais recentes estão mais próximos de uma certa evolução, um progresso. Para desfazer esse nó, Perrone-Moisés acaba se sustentando na opinião dos autores que fazem parte do corpus de sua pesquisa para uma orientação sobre a relação da literatura moderna com o passado: a de que o passado está constantemente mudando, e que uma obra nova reverberá não só no futuro, mas também na leitura que se faz de livros anteriores, o que fica bastante claro na citação que faz de Borges: Continue reading Altas Literaturas (Leyla Perrone-Moisés)

Foco (Arthur Miller)

O romance Foco, escrito por Arthur Miller, foi publicado em 1945, antes das grandes peças que o consagraram como Morte de um Caixeiro Viajante e As Bruxas de Salém. Mas quem espera um trabalho mais ingênuo, ou até mesmo mais fraco com o livro (lançado recentemente com nova tradução pela Companhia das Letras), pode ter certeza que não é o caso. A semente do que se verá em seus trabalhos mais conhecidos já está plantada ali, criando não só um retrato cru e verdadeiro dos Estados Unidos daquele tempo, mas também no desenvolvimento de personagens inesquecíveis, seja pelo que têm de melhor ou de pior – porque as figuras de Miller são assim, imperfeitas, e por isso mesmo tão cativantes.

Veja o caso de Foco. O protagonista, Lawrence Newman, é apresentado para o leitor como uma pessoa horrorosa: ouvindo os gritos pedindo socorro de uma garota na rua, ele resolve ficar quieto. E não é nem por covardia, é simplesmente porque acha que se chamasse a polícia, quando ela chegasse o assunto já estaria resolvido e ele acabaria tendo que explicar a situação para os policiais. No outro dia a coisa piora ainda mais, quando em conversa com um vizinho no caminho para o trabalho, esse conta que era “só uma latina” e que ajudou o amigo bêbado que cometia a agressão a voltar pra casa – Newman nada diz sobre isso, não repreende o vizinho como esperamos que uma personagem “boazinha” faça. E aos poucos vamos vendo como ele é preconceituoso, decidindo quem ganha ou não emprego na empresa em que trabalha baseado no juízo que ele faz da aparência da pessoa. Se parece com um judeu, por exemplo, o emprego está fora de questão.

A ironia vem quando depois de um caso em que o chefe considera um equívoco provocado por uma visão ruim, Newman se vê obrigado a procurar um oftalmologista. Não suportando lentes de contato, o que lhe sobra são óculos. Óculos que fazem com que ele pareça um judeu. Eu vejo uma certa graça (ou pelo menos um toque de nonsense) que apenas uma armação com lentes fosse capaz de transformar Newman em um judeu, mas a verdade é que não só para uma pessoa, mas para várias de seu convívio ele passa a parecer como tal. Começando pelo próprio trabalho, onde o chefe resolve mudá-lo de cargo para que não fique mais no escritório com paredes de vidro e passe a ficar escondido dos demais olhares. Newman obviamente não aceita ser rebaixado dentro da empresa e se demite, voltando para casa achando que logo arrumaria um novo emprego.

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Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores

Uma proposta interessantíssima, um péssimo timing. Era o que eu pensava enquanto lia cada um dos 20 contos que fazem parte do livro Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores, organizado por Felipe Pena e publicado pela Record. Já começa com a introdução do próprio Felipe Pena, que embora apresente ideias com as quais não concordo totalmente, ainda assim tem o mérito de levantar questões que precisam ser debatidas quando falamos de literatura no Brasil. A começar por: quando foi que criamos esse critério de só é bom o que é hermético, ou, em outras palavras, só para iniciados? Qual o problema da literatura de entretenimento, sem preocupações estéticas, se a própria origem da literatura era a mera contação de histórias? O resultado disso é uma anomalia em que todo mundo diz que lê o mais novo queridinho da crítica especializada, mas quem vende mesmo é aquele que está sempre sendo chutado como uma espécie de cachorro morto, nem que seja para que com a crítica a um autor a pessoa ganhe um rótulo de “inteligente”. Você já conheceu um tipo assim, eu tenho certeza: ele é o que torce nariz para qualquer bestsellerYA ou chick-lit lançado, não porque tenha lido e achado ruim, mas simplesmente porque são bestsellerYA e chick-lit, livros conhecidos por suas estruturas mais simples, enredos mais básicos etc.

Pena traz então o Manifesto Silvestre, que basicamente tenta resgatar a ideia da leitura atrelada à história em si, e não aos diferentes recursos literários que alguns escritores costumam utilizar na chamada “alta literatura”. Aqui, minha ressalva é que, embora tente adotar um tom bastante político, ele acaba dando algumas alfinetadas desnecessárias nos autores que, considerando o subtítulo, são adorados pela crítica. Há pelo menos dois itens que deixaram esta sensação, o quarto e o décimo. Um fala de “Academicismos, jogos de linguagem e experimentalismos vazios” e o outro de “Quem não é moderninho é superficial”. Acredito que era possível passar sem isso, até porque pelo que entendi de grande parte do texto o Manifesto não é uma crítica a quem inova ou algo assim, mas aos detratores do outro tipo de literatura, normalmente qualificada “de entretenimento”. A premissa básica é: pegue este livro, e lembre como existem outras maneiras de se divertir lendo. Só que aí com estes itens (e de novo, o subtítulo) algumas pessoas podem pensar que é algo como “Pegue este livro e… mimimi queremos ser estudados nos cursos de Letras também!”. Eu sei que o segundo caso não era a intenção do Pena, mas acabou soando um pouco assim, e aí entra a questão do timing ruim.

Geração Subzero saiu quase junto com a já famosa seleção da Granta dos “melhores autores jovens brasileiros”. E muito embora não pareça uma resposta do time dos que ficaram de fora da Granta (até porque há de se considerar todo o tempo que levou o processo de publicação de Geração Subzero), ainda assim algumas pessoas podem ter a ideia (errada) de que a coletânea organizada por Pena veio para rivalizar com a lançada pela Alfaguara. Algo como: ok, vocês têm os melhores. Mas nós temos os que vendem mais. Tivesse saído dois meses antes ou dois meses depois, essa impressão não ficaria no ar. O problema é que com isso, a Geração Subzero pode perder justamente os leitores que deveriam ler o livro (sim, o chato que descrevi no primeiro parágrafo) – porque não duvido que só os nomes de Spohr e Vianco na capa já faça esse volume vender bastante. Mas venderá para quem não tem nenhuma neura sobre ler literatura de entretenimento. Aqueles mais inseguros, que acham que ler uma Thalita Rebouças os torna menos inteligentes (uma dica: se você pensa assim, você já é um idiota. Não esquenta a cabeça com isso não, filho), vão passar reto pelo livro e vão perder não só a proposta do Pena, mas alguns ótimos contos, simplesmente por imaginarem o livro como uma anti-Granta ou algo que o valha.

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Cinquenta Tons de Liberdade (E.L. James)

Sim, aqui estou eu de novo. Após comentar Cinquenta Tons de Cinza e Cinquenta Tons Mais Escuros, chegou a vez do último volume da série escrita por E.L. James. Com meu TOC para terminar séries eu acho até irônico do título, Cinquenta Tons de Liberdade. Siiiiim, finalmente livre! Ou não. Mas adianto-me. Vamos por partes, até porque se tem uma lição preciosa que esses livros dão é que a mulherada adora preliminares. Então que eu tinha brincado no meu post anterior que com o Grey pedindo Anastasia em casamento não sobraria muita coisa para contar nesse terceiro livro. Estava enganada. James aparentemente percebeu que juntar um enredo com a putaria dá certo, e resolveu embarcar fundo nisso, oferecendo para a protagonista não só um antagonista, mas dois.

Não que eles sejam novidade dentro da trama, a única coisa que aconteceu é que James deu um pouco mais de espaço para eles. O primeiro é Jack Hyde, o ex-chefe de Anastasia, que por incrível que pareça está mais disposto a atormentar Christian do que a garota. Por causa dele o livro tem até cena de perseguição de carro. E eu, que odeio perseguição de carro até no cinema, obviamente odiei a personagem. O segundo é a boa e velha (sem trocadilho, haha) Mrs. Robinson/Elena, que surge como pivô de uma das ‘n’ brigas de Grey e Ana. E cheesus, como esses dois brigam. Tem até um momento em que Grey, mais inteligente do que um grão de bico, resolve marcar os peitos de Ana com chupões para que ela não fizesse mais topless. Pois é. E se você não gosta de DR, imagina que emocionante que é acompanhar DR alheia, que invariavelmente apresenta um diálogo do tipo:

– Eu estou muito bravo com você, Ana!

– Por favor, não fique bravo comigo.

– Mas eu estou. E eu vou te dar…. PORRADA.

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Cinquenta Tons Mais Escuros (E. L. James)

Sim, eu traí o ~movimento~, continuei a ler a trilogia Cinquenta Tons de Cinza de E.L. James. Passei para o segundo volume, Cinquenta Tons Mais Escuros (a ser lançado no Brasil pela Intrínseca em setembro deste ano) e, embora tenha quase desistido no começo, fui até o fim por conta de uma série de motivos, entre os quais: a) tenho TOC com séries, não consigo abandoná-las sem ler todos os livros; b) ainda não conseguia entender a quantidade apavorante de leitoras apaixonadas por um cretino como o Christian Grey (não, a resposta “ele é rico, bonito e pauzudo” não serve para mim) e c) não queria ser injusta com a série, tentei observar o todo. Vai que. Então respirei fundo e resolvi observar a história apenas quanto à diversão que pode proporcionar, já que pelo primeiro volume sabia de antemão que a parte da escrita era sofrível mesmo. A saber, continua sofrível no segundo livro, assim como também continua a chatíssima repetição de expressões/verbos (alguém por favor ensina esta mulher a procurar sinônimos na internet, sim?).

Poréééém, é fato que Cinquenta Tons Mais Escuros é bem mais tolerável do que o primeiro volume. Por tolerável quero dizer: não é bom, mas também não é mais tão ruim. A começar que a dona E.L. James resolve criar um enredo de fato. Isso faz toda a diferença, porque se for observar bem, a estrutura de Cinquenta Tons de Cinza era praticamente uma colagem de micro-contos eróticos, repetindo sempre a mesma sequência de criar a base para o momento em que Grey e Ana transariam e o ato em si, e o livro meio que é só isso, o que é obviamente chato (motivos explicados no meu post anterior). Mas, como disse, no segundo livro temos algo além disso. E. L. James lança mão de vários clichês de livros para mulherzinha, mas consegue criar uma situação de antagonismo e um pouco de mistério, que faz com que o leitor consiga chegar até o final (apesar de um certo mal uso de uma poesia linda de Emily Dickinson). Um pouco do passado de Grey aqui, a ex-sub louca acolá, um acidente com helicóptero, uma tentativa de estupro e vamos indo.

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