Category Archives: Quadrinhos

Habibi (Craig Thompson)

Antes de qualquer coisa que se possa falar sobre o mais recente trabalho de Craig Thompson, Habibi, uma coisa é inquestionável: a graphic novel é linda. Linda mesmo, de encher os olhos – cada página parece um quadro, com vários detalhes a serem observados. Não à toa o processo de criação da HQ foi de quase 8 anos: basta observar a página que marca a divisão de capítulos, com uma padronagem belíssima, que eu até por curiosidade observei cuidadosamente para ver se não era um bom ctrlc ctrlv do computador; mas não – se tiverem o livro em mãos, reparem como cada desenho é único, formando um painel rico e, como já dito anteriormente, muito bonito. O efeito se repete de forma mais discreta nas outras páginas, onde o destaque da arte passa a ser o cuidado com que Thompson retrata as histórias contatas por Dodola, e vividas por ela e seu filho adotivo Zam.

Ambos representam minorias no lugar em que vivem: Dodola é mulher, vendida como esposa ainda criança, e desde cedo precisa usar o corpo para sobreviver. Zam é negro, e tem a chance de não ser escravo quando Dodola o salva ainda com três anos de idade, quando então eles passam a viver juntos em um barco abandonado no meio do deserto. Dodola assume um papel de mãe e irmã, mas com a idade logo Zam passa a enxergá-la acima de tudo como mulher, passa a sentir desejo pela pessoa que até então o criara. Isso fica muito bem representado na sequência de quadrinhos que mostra como era o banho das personagens, antes juntos e de forma inocente, e depois separados, com o pedido da garota de que ele não ficasse olhando fixamente para o corpo dela.

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Simon’s Cat: As aventuras de um gato travesso e comilão (Simon Tofield)

Não há dúvidas, a Internet é feita de gatos. Você pode até não gostar dos bichanos, mas sites como o I can has cheezburger só comprovam o que muito gateiro já suspeitava: faça algo com gatos e você fará sucesso. Uma pessoa que descobriu isso foi Simon Tofield, que em 2007 colocou no ar o vídeo Cat Man Do, o primeiro da série de animações Simon’s Cat. O sucesso foi tão grande (mais de 200 milhões de fãs no Youtube), que Simon’s Cat ganhou espaço em outros lugaress: sai em tirinhas no Daily Mirror e em livros, sendo que o primeiro chegou no Brasil pela editora L&PM agora em 2012. Com o subtítulo “As aventuras de um gato travesso e comilão”, o livro traz mais de duzentas páginas com ilustrações do bichano.

A sacada de Tofield é que ele faz um trabalho de gateiro para gateiros: em inúmeras situações você pode reconhecer seu gato nos desenhos. Afinal, quem convive com esses bichinhos sabe que apesar de serem lindos e, ao contrário do que dizem as más línguas, extremamente fiéis e excelente companheiros, ainda assim aquele fator “personalidade” desses animais de estimação acabam causando situações que só quem tem um reconhece. Por exemplo, revendo agora o primeiro vídeo de Tofield reparei no colchão – cheio de rasgões criados pelo gatinho ao afiar as unhas. Sim, o meu está exatamente desse jeito, só em um cantinho, que eles elegeram como o favorito. Vá entender. O “vá entender” serve tanto para o que faz o gato só arranhar um canto, como o que faz um ser humano manter um bicho que detona um objeto tão importante do lar.

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Wilson (Daniel Clowes)

Em tempos de redes sociais você provavelmente já passou por isso: escreveu uma mensagem, pensou melhor e então apagou. Talvez não necessariamente porque fosse ferir o sentimento da pessoa que a receberia, mais para evitar um conflito futuro, ou mesmo que sua imagem de pessoa bacana fique arranhada por dizer algumas verdades para quem supostamente mereceria ouvir. Pois bem, seja lá qual for o motivo que faça muita gente agir assim, Wilson de Daniel Clowes parece não ter essa ferramenta. Fala o que tem vontade sem o menor medo de ser desagradável. E é tão, mas tão desagradável que chega a ser engraçado.

A HQ lançada pela Companhia das Letras segue um formato de episódios de uma página, seguindo uma ordem cronológica que vai alinhavando uma história maior, que de modo resumido dá para dizer que é a luta de Wilson contra a solidão que ele causou contra si, justamente por causa desse jeito de agir. Ele quer “fazer parte”, mas ao mesmo tempo não quer abrir mão de ser como é.

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Especial Alan Moore: A Piada Mortal

A Piada Mortal foi publicada originalmente em 1988, mas ainda hoje volta e meia alguma editora acaba republicando a revista aqui no Brasil. E isso não é por acaso. Falando de histórias de Batman, a obra criada por Alan Moore e o artista Brian Bolland está sem sombra de dúvida entre as grandes, daquelas que servem de inspiração até os dias de hoje. É importante também por trazer um evento que acabou repercutindo no universo DC, e mais ainda, por junto com outros tantos títulos não só de Moore mas também de Gaiman e outros autores da época, acabar de vez com aquela imagem de que quadrinhos são só para crianças. A Piada Mortal está longe, bem longe de aventuras mais inocentes, e talvez com O Asilo Arkham, de Grant Morrison e Dave McKean, forma a dupla de histórias mais sombrias do morcegão.

Considerando outras HQs de Moore, como Do Inferno, Watchmen e V de Vingança, A Piada Mortal é extremamente (e infelizmente!) curta. Por conta disso, os eventos são todos rápidos, concisos, sem qualquer enrolação, o que de maneira alguma quer dizer sem complexidade. E é aí que dá para ficar ainda mais admirado com o trabalho de Moore, de como com tão pouco ele conseguiu fazer tanto por uma personagem que aparece como favorito até na frente de heróis da DC se você questionar algum fã. O Coringa depois de Moore não foi mais o mesmo.

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Vigor Mortis Comics

Acompanho o trabalho da companhia de teatro Vigor Mortis e do artista DW meio de longe há alguns anos. O motivo? A peça Morgue Story, que trazia uma proposta inovadora de mesclar Quadrinhos com Teatro (e tinha um pôster de divulgação muito, mas muito bacana com arte do DW). E foi por isso que ao ver a Vigor Mortis Comics na livraria não pensei nem duas vezes e comprei, mesmo sem nem conhecer ao certo a proposta do livro. E de fato, foi um acerto: com roteiros de Paulo Biscaia Filho (diretor da Vigor Mortis) e José Aguiar e arte de DW e José Aguiar, a Vigor Mortis Comics traz novas histórias de personagens das peças do grupo curitibano, seguindo o mesmo tom de horror mesclado com cultura pop como era possível ver nos palcos.

O livro abre com duas obras diretamente relacionadas com Morgue Story, Oswald Apaixonado (arte de DW), história da personagem criada pela protagonista Ana Argento. Segue então Corra, Cataléptico, Corra (arte de José Aguiar) trazendo novamente Tom, o vendedor de seguros cataléptico. Como acontece nas boas histórias de horror, você reconhece o humor sutil na primeira história e o ritmo eletrizante na segunda. Acabam servindo como uma ótima abertura para a seleção de histórias que têm entre elas alguns textos explicativos de Paulo Biscaia Filho, mostrando de onde as personagens que agora estão nos quadrinhos surgiram.

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Clássicos da Literatura em Quadrinhos: Um Conto de Natal

Um Conto de Natal, de Charles Dickens, é um daqueles casos de histórias que fincaram raízes no imaginário popular, e que mesmo quem nunca leu ainda assim sente-se familiarizado com vários de seus temas e imagens. Um exemplo disso é o nome de Tio Patinhas em inglês, Scrooge, assim como o protagonista sovina do conto clássico. A ideia do velho avarento e azedo que odeia o natal e após a visita de três fantasmas passa a ver o real significado desta data já ganhou diversas adaptações, de desenho animado até filmes (quem aqui não lembra do Bill Murray em Os Fantasmas Contra Atacam?). Mas para quem ainda nunca ouviu falar, deixo como sugestão de leitura o post da Kika falando sobre esse conto de Dickens.

Conto esse que ganhou uma adaptação em quadrinhos, com roteiro de Patrice Buendia, arte de Jean-Marc Stalner e cores de Caroline Romanet. Lançado lá fora como Le Conte de Noël, os quadrinhos chegam aqui no Brasil em uma edição bem caprichada da L&PM. Capa dura, papel de boa qualidade e inclusive informações extras sobre o autor. A história e os costumes do feriado de Natal são alguns dos destaques desse livro, que faz parte de uma coleção que, além deste título, tem outros como Guerra e Paz, Dom QuixoteA volta ao mundo em 80 dias. 

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Retalhos (Craig Thompson)

O leitor desavisado que pega um volume de Retalhos, do artista norte-americano Craig Thompson, provavelmente levará um susto. O livro tem quase 600 páginas, um número atípico quando se fala em graphic novels. Se você tem algum medo ou preguiça sobre catataus, saiba já de antemão que Retalhos vale a pena, com uma história simples Thompson agarra a atenção do leitor que só deixa o livro de lado quando já chegou ao fim, que vem mais rápido do que se espera.

Retalhos é uma HQ autobiográfica, na qual Thompson retrata um pouco de sua infância e adolescência em Wisconsin, focando principalmente em sua relação com o irmão e com uma garota que conhece em um acampamento religioso, Raina. Aliás, talvez mais importante que a relação dele com essas pessoas, seja a relação dele com a religião: Thompson aparece como um menino extremamente devotado, que não sabe situar ao certo o que é pecado em sua vida e parece estar sempre carregando esse tipo de culpa. A chegada de Raina parece levar esse sentimento ao máximo, até o momento em que Thompson finalmente encara de frente a religião e o que pensa dela.

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Sandman: Noites Sem Fim

Em 2003, quando Noites Sem Fim foi publicado, houve muita agitação por parte dos fãs de Sandman de Neil Gaiman. Não foi à toa: já tinham passado sete anos desde a publicação da última história do último arco, O Despertar, e mesmo assim algumas perguntas ainda estavam pendentes e, mais do que isso, aquele gosto de “quero mais” que a leitura de Sandman sempre deixa. Era a oportunidade de rever personagens queridas, de voltar ao Sonhar e ter uma pequena amostra do que aconteceria se Neil Gaiman não tivesse resolvido criar uma série com começo e fim. E o resultado não decepciona.

Dividido em sete histórias, cada uma com um perpétuo como personagem principal, Gaiman conta com um excelente time de ilustradores, um por capítulo. Em alguns casos a parceria inédita em Sandman rende ótimas surpresas (o que dizer de Desejo de Milo Manara, por exemplo?), e as já conhecidas satisfazem a nostalgia do fã. O trabalho ficou tão bom que além de ganhar diversos prêmios, ainda foi a primeira graphic novel a aparecer na lista de mais vendidos do New York Times. A seguir, comentários capítulo por capítulo, de Noites Sem Fim.

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Morte na Mesopotâmia seguido de O caso dos dez negrinhos

Quando se fala em histórias policiais, Agatha Christie é sempre citada. Seus livros estão entre os mais traduzidos no mundo (naquela lista seleta que entra a Bíblia e Shakespeare), o que lhe rendeu o apelido de a Rainha do Crime. Para quem já a conhece as histórias, a boa notícia é que estão chegando no Brasil através da L&PM adaptações feitas para os quadrinhos, das quais pude conferir Morte na Mesopotâmia seguido de O caso dos dez negrinhos.

Tanto Morte na Mesopotâmia quanto O caso dos dez negrinhos foram roteirizados por François Rivière. É óbvio que muito se perde na adaptação, mas Rivière consegue fazer um trabalho razoável na transposição do texto para a linguagem dos quadrinhos. Talvez apenas Morte na Mesopotâmia tenha sofrido alguns cortes que atrapalharam um pouco o ritmo, mas O caso dos dez negrinhos segue eletrizante do começo ao fim – tal como na obra escrita por Agatha Christie.

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Ao coração da tempestade (Will Eisner)

“- Mas pai, por que você não continuou trabalhando com arte em vez de entrar no mundo dos negócios? … Ainda dá tempo de voltar atrás.
– Não dá mais para voltar atrás!! Estamos em uma jornada… a vida é uma viagem daqui até lá.
– … E onde fica esse lá, papai?
– Lá é onde estoura o trovão… Longe daqui!”

O diálogo entre o jovem Willie e seu pai Sam ilustra com perfeição o eixo principal de Ao coração da tempestade, HQ de Will Eisner que chega agora no Brasil pela Quadrinhos na Companhia. Lançada originalmente em 1991, a obra tem forte tom autobiográfico e mostra as lembranças de um jovem artista quando segue em um trem em direção a Segunda Guerra.

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