Portugal, 0 nº5 (valter hugo mãe)

No começo do ano, ao comentar sobre O filho de mil homens do escritor português Valter Hugo Mãe, fiz a seguinte observação sobre o estilo do autor: “durante a leitura desse livro eram frases e mais frases pedindo para serem grifadas, às vezes nem tanto pelo que diziam em si, mas pela beleza como era dito. Valter Hugo Mãe faz uma prosa com tom de poesia“. O engraçado aqui é que esse é o relato de uma leitora que descobriu Hugo Mãe através da prosa, e desconhecia completamente sua produção em poesia, embora seja bem ampla (mais de dez livros publicados). E então tive a oportunidade de finalmente conhecer o poeta através do número cinco da coleção Portugal, 0, publicado aqui no Brasil pela editora Oficina Raquel.

Antes de falar do livro, um comentário sobre a coleção, que apresenta uma ideia bem bacana de trazer mais da poesia contemporânea portuguesa para o lado de cá. A série que traz nomes como Manuel de Freitas, Luís Quintais, Rui Pires Cabral e Pedro Eiras (além, é óbvio, de hugo mãe), com uma proposta de reunir os trabalhos de autores que começaram no século XX e que “dão prosseguimento a história” no século XXI. São nomes para serem conhecidos, observados e acompanhados (e o caso de hugo mãe mostra que a aposta não é um tiro no escuro). Fica, no mínimo, como uma boa sugestão para quem quer conhecer um pouco mais de literatura portuguesa atual, e por atual digo atual mesmo, do que tem sido feito já, agora.

Voltando à edição de hugo mãe, uma outra curiosidade que percebi foi o ano de publicação dessa coletânea, 2009. Foi exatamente um ano antes da publicação de a máquina de fazer espanhóis, quarto romance de hugo mãe mas o primeiro que li. O que chamou minha atenção aqui é que há quase uma régua sendo traçada entre tudo o que eu ainda tinha para conhecer dele, e o pouco que tinha lido. E como os poemas estão organizados em ordem cronológica, de 1999 até 2008, parece que dá para ter uma boa noção do caminho que o autor fez para chegar até os romances dos quais tanto gostei (inclusive por conta da já cita “prosa com tom de poesia”).

Alguns maneirismos estão lá desde o começo, como a mania de escrever com minúsculas (embora em seu último romance ele tenha adotado as letras maiúsculas novamente). Há temas bastante recorrentes nos poemas, e que se refletiram depois em seus romances, como a relação entre amor e solidão. Tem inclusive um poema que parece um proto-o filho de mil homens, chamado “poema sobre o peito que sonhava filhos”, publicado em 2006 em livro de maldições, que segue assim:

àquele homem saíam-lhe crianças do peito. encostava-se de socorro ao muro e não dizia nada. os seus olhos de infelicidade viam-nas partir. mas um dia, contava, teria um filho, um filho que ficasse. e as mulheres abeiravam-se dele para lhe explicarem a maternidade e ele nada escutava. porque, ao longe, as crianças do seu peito faziam travessuras parecidas às dos seus filhos e, de tempos em tempos, uma delas vinha mais perto. ele não resistia a sentir esperança. já o coração falhava de tanto acreditar. e as mulheres colocavam-se entre ele e os estranhos seres, e o homem seguia seu caminho entre as sombras como promessa de mãe.

Se você acha que ocorreu algum erro de formatação, já aviso que não, é isso mesmo. Em todos os poemas de livro de maldições, hugo mãe escreve pequenos poemas-contos, todos de um parágrafo só. E muito embora ele use versos normais nos demais poemas presentes na coletânea, o fato é que esse estilo de escrita revela algo que me pareceu bastante marcante em sua produção poética: ele parece abrir mão do ritmo, em troca das imagens ou ideias expressas em seus versos, que no final das contas são muito mais do que livres. Ou seja, a fanopeia e a logopeia acabam se destacando muito mais em relação à melopeia, e posso citar aqui uma breve estrofe do belíssimo “metamorfose” (publicado em bruno, em 2008):

anos mais tarde, eu era o romeo castellucci e

caía em pó dos lugares como se

o movimento bastasse para definir a

felicidade. estar diante das raparigas e

amá-las era só a linha de um braço ou

de uma perna desenhando na luz a

minha tão sensível presença.

Algo que também é digno de nota (especialmente se formos seguir a ordem cronológica que a coletânea sugere), é como hugo mãe não tem medo de experimentar, e mesmo de se reinventar ao longo dos anos. Se as poesias do livro mais antigo presente nessa coleção (egon schiele, auto-retrato de dupla encarnação, de 1999) são bastante breves, compostas por não mais do que 9 versos curtos; nos livros seguintes (como três minutos antes de a maré encher, de 2000 e a cobrição das filhas, de 2002, por exemplo), já trazem poemas mais longos, até chegarmos ao momento já citado em 2006 quando hugo mãe faz os poemas-contos, para então depois retornar à estrutura mais típica de poesia. É como se cada livro fosse um laboratório no qual ele teve a chance de combinar elementos variados para se expressar.

E no final das contas eu nem posso dizer que conhecer a poesia de hugo mãe foi uma surpresa, porque eu de algum modo já tive contato com ela através de seus romances. Está tudo lá: as belíssimas imagens (como dos versos finais da coletânea: quem deixou sobre o coração/um feixe de luz/não cega nunca), ideias fortes (quem esperaria de um poeta que não Catulo a escrever versos como “dizem que não se importam, que/os metem todos no cu, e/só isso explica porque/ficam tão inchadas”?) e outras tão simples e tocantes (como em “poema que explica a morte”). A coletânea vem então para confirmar o que eu já desconfiava: valter hugo mãe é um dos melhores escritores portugueses da atualidade.

Portugal,0 nº5
valter hugo mãe
134 páginas
Preço sugerido: R$30,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Oficina Raquel

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4 thoughts on “Portugal, 0 nº5 (valter hugo mãe)

  1. Interessante a obra dele, seus poemas estavam em falta. Só ressalto um “problema” na publicação da obra do Hugo Mãe são suas diversas editoras, aqui no Brasil ele tem livros publicados por 3 ou 4 editoras!

    1. Oi Felipe!

      Pelo que andei sondando, é um “problema” lá fora também. Inclusive tem pouco tempo ele andou reclamando no twitter sobre a editora atual dele lá em Portugal (que aparentemente não está disponibilizando novas reimpressões da obra dele). Mas acho que no final vale a pena mesmo a “garimpagem” atrás da obra dele, é realmente um autor (bem) acima da média.

  2. “O primeiro Poesia em Vinyl realiza-se no dia 14 de Janeiro. O nosso convidado principal é valter hugo mãe que nos falará da sua poesia. Para ler os poemas do valter, teremos conosco o Fernando Alves. E para finalizar a noite em beleza, o JP Simões na Música.

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