Degas Dança Desenho (Paul Valéry)

A melhor forma de começar a falar sobre Degas Dança Desenho, escrito pelo poeta e pensador Paul Valéry (1871-1945) é utilizando as palavras do próprio autor no primeiro capítulo (“Degas”). Diz Valéry, quase como se estivesse pedindo desculpa ou pelo menos se explicando para o leitor: “Voltarei a falar sobre isto, sem dúvida… Aliás, nem sei muito bem o que direi mais à frente. É possível que, ao falar de Degas, eu vagueie um pouco pela Dança e pelo Desenho. Não se trata de uma biografia segundo as regras; não tenho uma opinião muito boa das biografias, o que prova apenas que não fui feito para escrevê-las. De todo modo, a vida de alguém não passa de uma sequência de acasos, e de respostas mais ou menos exatas a acontecimentos casuais…” (pg.17).

Confesso que com esse começo já fui capturada pelo estilo de Valéry, mesmo porque eu mesma não sou muito fã de biografias (questão que já comentei em outras oportunidades aqui no Meia Palavra). E de fato, embora Degas Dança Desenho possa ser lido como uma biografia, o autor conseguiu fazer algo que vai além disso, trazendo para o leitor a oportunidade não só de reflexões sobre a arte (e aqui de um modo bem amplo, envolvendo além da dança e o desenho, como o título sugere, também a literatura), mas também o registro de uma época fundamental para a modernidade. Além disso, o tom e estruturas escolhidos por Valéry fazem desse livro uma leitura interessante e ao mesmo tempo prazerosa – é como ouvir um professor apaixonado pelo tema de sua aula, ou mesmo um amigo falando de algo que gosta muito. Em outras palavras, é cativante.

E o que parece ser um bom indicativo sobre isso é o fato de que, embora eu já conhecesse Degas, nunca tive nenhum conhecimento sobre os assuntos que são mais abordados por Valéry, e mesmo assim fiquei complemente encantada do início ao fim com as questões por ele apontadas. Desde a ideia do autor sobre a relação entre movimento e uma pintura registrando isso (o que fica mais evidente no caso das bailarinas de Degas), até mesmo quando fala sobre o nu, por exemplo, com a ótima passagem “O Nu era coisa sagrada, ou seja, impura” (pg.83). Há tanto das ideias de Valéry ali que a biografia se desdobra em estudo, parece que gerando dois livros distintos. E eu até poderia ver isso como um aspecto negativo, mas acredite, não é. Até porque há de se lembrar da proposta original do autor, e da já mencionada explicação sobre biografias presente no primeiro capítulo.

Das anedotas de Valéry sobre Degas algo que me chamou bastante a atenção foi a presença constante do poeta Mallarmé. Imediatamente recordei de recente leitura do livro Altas Literaturas, de Leyla Perrone-Moisés, no qual a autora em determinado momento aponta como um caso de reconhecimento dos escritores-críticos que estudou. A coincidência fica por conta da momento em que ambos os artistas, Degas e Mallarmé, se inserem dentro da história, e da importância de ambos para o que seria o “Modernismo” em seus campos de atuação, especialmente por inovarem, buscarem ampliar os horizontes em suas artes.

Entre os capítulos favoritos poderia ficar com “Mímica”, onde Valéry faz uma descrição fantástica de um evento da vida de Degas que consegue tão sutilmente mostrar a admiração sem-fim que o autor tinha pelo artista, ao mesmo tempo que trata da questão da representação da mulher na arte de Degas. “Pecado de Inveja” também é um dos pontos altos do livro, quando Valéry traça um paralelo entre ser um pintor e ser um escritor, que conclui “À mesa, o escritor maravilhado os escuta, mudo. Todo seu espírito ficou no papel. Restam-lhe apenas os restos…” (pg.117). Há também “Romantismo”, onde compara o período mágico da Paris de 1860 até 1890 com o do Romantismo (1825-1955), e mesmo que seja um capítulo breve, traz muito a refletir.

Mas sem sombra de dúvidas o momento mais arrebatador é o da conclusão, com “Crepúsculo e fim”. É tão melancólico, mas tão humano – Valéry não faz de Degas um super-homem como os biógrafos costumam fazer, pelo contrário, aponta em vários momentos a personalidade difícil do artista, sem nunca deixar de lado os aspectos positivos que tanto admirava, é óbvio. Aqui o autor ao falar da data da morte de Degas, questiona “Terá tido consciência de que estávamos em guerra?” (pg.165) e reflete sobre o que seria um viver demais, já que o artista enfrentou problemas de visão no fim da vida, sentido vital para sua arte, fazendo assim um capítulo realmente  bastante tocante.

Li a edição que saiu no formato Portátil da Cosac Naify, que estava bastante curiosa para conhecer. O capricho que podemos conferir no video do making of do livro está realmente presente, gostei da qualidade do papel e já adianto para o público que tem receio que formatos de bolso deixem ilustrações de lado, não foi o caso de Degas Dança Desenho, que conta com reproduções de obras de Degas, além de fotografias. O único porém sobre isso fica por conta da falta de legendas nas imagens – há uma lista de créditos no final, mas em alguns casos é um tanto incômodo ter que ficar indo até o fim para verificar do que se trata uma imagem (foto de Renoir e Mallarmé, por exemplo). Por outro lado, fica o elogio pelas notas biográficas (também presente no final da obra), que contextualizam alguns nomes citados por Valéry que podem ser desconhecidos do público leigo (como eu).

Foi realmente uma experiência bastante diferente, e que somando com outros casos, como por exemplo a biografia Paulo Leminski: O bandido que sabia latim (Toninho Vaz) e Como Shakespeare se tornou Shakespeare (Stephen Greenblatt), começam a mudar minha opinião sobre esse tipo de livro. Não é só o caso de ter uma pessoa interessante sobre quem falar, mas também através de suas palavras conseguir colocar no papel um texto que seja igualmente interessante, como Valéry conseguiu fazer com Degas Dança Desenho.

Degas Dança Desenho
Paul Valéry
Tradução:Célia Euvaldo, Christina Murachco
192 Páginas
Preço sugerido: R$23,90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Cosac Naify

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s