Shakespeare escrevia por dinheiro: Questão de gosto

Leitor é mesmo um bicho engraçado. Em alguns casos, se o sujeito gosta muito de um livro, tudo sobre aquele título torna-se uma questão pessoal. É como se aquela obra ajudasse a defini-lo como pessoa, funcionasse como um cartão de visitas e também um modo de reconhecimento de iguais. “Opa, você também gosta de Oscar Wilde? Nossa, você deve ser muito legal”. Algo assim. É um negócio meio egocêntrico e vaidoso, mas ao mesmo tempo de (falsa) humildade: não saímos por aí dizendo o quanto nos achamos legais por ler fulano de tal, mas consideramos isso como um aspecto positivo de uma outra pessoa, meio que confirmando o que já achamos sobre nós mesmos. E caramba, como isso é idiota, mas como fazemos isso. E quando descobrimos um gosto em comum com um escritor que admiramos? Nossa, é o paraíso. Mas sim, também é idiota. Como disse, leitor é mesmo um bicho engraçado.

A questão é que por incorporarmos determinados livros e escritores à nossa personalidade, muitas vezes não sabemos lidar com uma crítica negativa a algo que gostamos. Lembrando: aquilo faz parte de nós, então se aquilo é ruim, algo que enxergávamos como positivo em nós mesmos é colocado em xeque. Não é um processo pensado, é quase involuntário. Quando você percebe já está defendendo um livro com unhas e dentes, e dependendo da argumentação do seu interlocutor, é bem provável que em algum momento você lance a bomba: GOSTO É GOSTO. Minha reação para tal frase sempre foi algo mais ou menos assim:

Não levem à mal. Eu sou a maior defensora do “gosto é gosto”, acredito mesmo nisso. Mas o maior problema de discussões (provavelmente) encerradas com o “gosto é gosto”, é que essa frase tem uma continuação não pronunciada, que segue mais ou menos assim: “Gosto é gosto, portanto eu posso gostar do que você não gosta, mas você não pode não gostar do que eu gosto”. É uma lógica meio obtusa, eu sei, portanto colhi alguns comentários feitos por leitores nos meus posts sobre a trilogia Cinquenta Tons de Cinza para usar como exemplo. Só para contextualizar, caso você esteja aqui e não tenha lido o que comentei sobre os livros, digamos que a palavra mais próxima de um elogio que uso é “tolerável”.

Bom, acho que já deu para entender. E aí nós que escrevemos para blogs sobre livros entramos em um dilema: se só falamos bem dos livros, somos vendidos, só fazemos isso por causa das parcerias e yadda yadda yadda. Se falamos mal, não somos éticos (??!!!) e estamos de algum modo também ofendendo os leitores. Quer dizer, não é exatamente um dilema, porque eu continuo escrevendo o que senti ao ler determinada obra, seja lá o que venham me dizer na caixa de comentários depois. De qualquer maneira, vamos retornar à questão do gosto. Algo que não fica claro para muita gente (e olha, até o pessoal da ~~academia~~ tem dificuldades sobre isso), é que um livro não é nem um definidor de personalidade (portanto, falar mal de uma obra não é falar mal de você), nem um negócio que deve ser lido de uma única maneira. Vamos por partes.

Um livro não é definidor de personalidade

É óbvio que uma pessoa dizendo que gosta das mesmas coisas que você é ótimo, vamos partir do princípio que no mínimo ajuda com assunto para primeiras conversas. Mas veja bem, dizer que uma pessoa é legal porque ela gosta das mesmas coisas que você, além de ser extremamente vaidoso ainda pode te colocar em algumas roubadas. Eu já conheci uma quantidade absurda de pessoas absolutamente cretinas com quem não passaria mais de meia hora em uma mesa de bar que gostam dos meus autores favoritos. Por outro lado, conheço pessoas fantásticas que abominam muitos dos meus queridinhos (alôuuu, Sky!).

Isso que nem entrei no campo do “Pensava que era inteligente, mas nossa, olha o lixo que essa pessoa lê”. Eu tenho talvez uma definição mais abrangente de inteligência, mas certamente passar os olhos em alguns títulos canônicos não faz uma pessoa ser mais ou menos inteligente para mim. E digo isso por mim. Não me acho mais inteligente do que x ou y só porque ui, eu li Guimarães Rosa, Virginia Woolf e sei lá, Dostoiévski. E nem acho que fiquei mais burra porque li a trilogia dos Cinquenta Tons de Cinza nesse mês que passou. Enfim, a inteligência para mim não vai se refletir no que você leu, gostando ou não, mas no que você faz com esse novo conteúdo.

E seguindo nessa linha de raciocínio, confesso que não suporto comentário de pessoa que tenta classificar o tipo de leitor de um livro. Estou citando bastante o caso de Cinquenta Tons porque é evidente que a coluna desse mês é, de alguma forma, uma resposta aos comentários que recebi nos meus posts sobre os livros. Mas fora a babaquice do “Pornô para mamãe” (que apesar de tudo, pelo menos não é pejorativo), já ouvi papo de que as leitoras desse livro são “Gordas mal comidas” entre outras variações do mesmo tema. Meu filho, vamos lá: você pode não curtir o negócio, pode ficar fulo da vida que pessoas leem mais bestsellers do que clássicos, mas por favor, não seja cretino. Critique o livro, não quem o lê.

Um livro não deve ser lido de uma única maneira

E aqui entra o fator mais importante. Em uma palestra lembro que uma professora fez um exercício interessante com a platéia: pediu que fechássemos os olhos e pensássemos em milho. Sim, milho. Aí no telão ela projetou uma imagem de uma espiga de milho tal como nós lembramos de ter comido na praia (haha, espero que não seja só no litoral paranaense que comam milho verde na praia) ou em festas juninas, aquela espiga com os milhos amarelinhos bonitinhos. E então ela disse que se ela fizesse esse mesmo exercício em outros lugares do mundo, a imagem do milho seria diferente (e aí ela colocou no telão fotos de milhos que são tipicamente consumidos em outras regiões do mundo, bem diferentes do nosso amarelinho).

E veja bem, estamos falando de uma palavra só. Agora pense em um romance, com muitas, muitas palavras, que apesar do significado padrão que apresentam, despertam em cada leitor memórias, julgamentos, etc. diferentes. Pensem em como esse complexo código é quebrado de formas diversas, e não só de pessoa para pessoa. Às vezes lemos algo com uma idade e quando anos depois vamos reler, aquilo se revela de um modo completamente diferente para nós.

É por isso que eu brinco que há uma certa CNTP para que gostemos de um livro. Eu meti o pau em Cinquenta Tons, mas de repente se tivesse lido em outro momento da minha vida ele teria sido no mínimo divertido para mim. Porque tem isso também: você pode avaliar um livro só pela diversão que proporciona, ou pelo aspecto formal, ou por ambos, tanto faz. Mas não dá para torcer o nariz para quem chegou ali nos comentários dizendo que adorou, porque olha, literatura também é entretenimento, e se alguém consegue se divertir com isso, QUE BOM.

Moral da história

Sim, eu posso não gostar do que você gosta e isso não tem nada a ver com você, mas com o livro. Você não é burra por achar um Mr. Grey apaixonante, nem eu por não achá-lo. E não é questão de ser ranzinza com literatura de entretenimento (oi, sou Team Eric e leio livros da Charlaine Harris). É só questão de que às vezes o efeito que uma história causa em um indivíduo não é o mesmo que causa em outros tantos. Só isso, simples assim. Então meu conselho é: parem de usar livros para tentar provar algo para terceiros, vocês estão fazendo isso errado. Livro é para curtir, seja lá qual história ele conte. No mais, fico sempre com as sábias palavras do Dude:

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14 thoughts on “Shakespeare escrevia por dinheiro: Questão de gosto

  1. e tem outra coisa q costumo diferenciar, apesar da maioria achar q é a mesma coisa: senso comum e bom senso. assim, só por 1 livro vender mto ñ significa obrigatoriamente q ele seja bom. e o inverso tb. aliás, essa é uma regrinha q o schopenhauer usou inversamente, dizendo q os livros q vendem + são os q ñ ficarão p a posteridade e vice-versa.

    1. Nossa, se tem algo que eu não compro é essa ideia de que o número de vendas tem alguma relação com qualidade, é o tipo de argumento que eu normalmente nem respondo, hehe. É como você disse, não tem a ver ser bom ou ruim só pq vende mais, até porque esse tipo de raciocínio desconsidera questões como ações de marketing, por exemplo – e convenhamos, a Intrínseca investiu um monte para o 50 shades aqui no Brasil.

      No Altas Literaturas a Leyla chega a comentar justamente isso: “A difusão os livros passa, atualmente, menos pelos críticos e professores universitários do que pelos agentes literários, e pelas várias formas de publicidade.”

  2. O mesmo ocorre com filmes. Já fui olhado torto por não gostar de “Titanic”, “Nosso Lar”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, etc. Pelo menos tive a oportunidade de conversar com fãs de obras literárias que eu acho “questionáveis” mas que entenderam meu ponto, embora não o aceitassem. O caso é: gosto pode até ser gosto, mas muita criança come cola escolar e nem por isso dizemos que ela vai ter uma digestão com isso ou que a comida vai deixá-lo mais saudável. Se quiser provar o contrário, faça como os cientistas – prove por A+B que cola escolar faz bem à saúde. 😀

    1. Correção:

      O caso é: gosto é gosto, mas muita criança come cola escolar e nem por isso dizemos que ela vai ter uma boa digestão com isso ou que essa comida vai deixá-lo mais saudável. Se quiser provar o contrário, faça como os cientistas – prove por A+B que cola escolar faz bem à saúde. 😀

    2. E nisso entra outra questão desse debate do gosto é gosto: acho que as pessoas ao falarem sobre um livro, antes de começarem com o “eu gostei”, “eu não gostei”, deveriam apontar o contexto, quais os critérios que usaram para criticar a obra. Em muitos comentários ali nos 50 shades fui acusada de fazer uma análise “acadêmica”, talvez por conta do que diz o meu perfil no final do texto as pessoas concluíram que o que faço aqui no blog é um prolongamento do que fazia na faculdade, não sei. E acabei falando mais disso lá no fórum do que no blog, o que talvez tenha contribuído para que algumas pessoas continuassem com essa opinião equivocada. Copio e colo aqui um trecho do meu post sobre o assunto:

      então, eu acho que até cabe explicar – porque para quem acompanha o que eu publico no blog sabe que tem livro que parece uma porcaria e mesmo assim eu consigo ver algo bom ali. a questão é: eu busco sempre duas coisas em um livro, qualidade formal (técnicas de narrativa, inovações, diálogos bem montados, etc.) e a do enredo (se a história é divertida, bacaninha, etc.). então se eu tenho em mãos um YA, por exemplo, eu sei que invariavelmente o primeiro quesito não será preenchido, então leio para me divertir. e alguns tem histórias bobinhas mas que sim, divertem. é aquela literatura para passar o tempo, relaxar e tal, não para refletir.

      e com 50 tons de cinza eu segui o mesmo padrão de sempre. a questão é: aspecto formal é um lixo. uma bosta, e eu não costumo usar essa palavra para me referir a livros, mas eu não consigo imaginar algo que se encaixe mais adequadamente nesse caso. é como se uma adolescente de 15 anos com os hormônios a mil resolvesse botar no papel suas fantasias eróticas com o ídolo da vez. é raso, mal escrito, com uma repetição enfadonha de expressões ridículas que acabam prejudicando o que seria o erotismo que o livro deveria trazer consigo (afinal, quando uma guria fica dizendo PUTA MERDA enquanto descreve uma transa, bom, não é bem o que eu chamo de excitante).

      e aí viria o segundo aspecto, o da diversão, mas para mim simplesmente não rolou porque:

      a) as cenas de sexo são ridículas (relembrando aqui a cordinha do ob como exemplo)
      b) NÃO HÁ UMA FUCKING STORY além dos dois FUCKING EACH OTHER. simplesmente não há. a história toda é basicamente se a guria deixa ou não o cara bater nela. pronto. só isso. eu estava conversando com a Luara do IsaacSabe pelo twitter hoje, e ela está lendo o segundo livro (sim, aquele que abandonei depois da citação da Enily Dickinson). E ela disse que estava curiosa para saber o que “aconteceria com a ex louca do Grey”. Entende? Agora tem algo que faz com que o leitor fique curioso por virar as páginas, há uma história de fato (por pior que seja). Mas o primeiro é só putaria mesmo, e mal escrita.

      ***

      Enfim, o que quero dizer é que às vezes a discussão existe porque algumas pessoas não conseguem aceitar que uma história divertida pode ser sim mal escrita, e que histórias bem escritas podem ser sim muito chatas (pelo menos se considerarmos o enredo) – justamente por levarem seus livros favoritos de modo tão pessoal. “Como assim é ruim? Mas eu adoro esse livro? Está dizendo que eu gosto de coisa ruim?”, etc.

      1. Você disse bem, Anica, “algumas pessoas não conseguem aceitar que uma história divertida pode ser sim mal escrita, e que histórias bem escritas podem ser sim muito chatas”. Dan Brown é um exemplo de história divertida mas muito mal escrita; do lado oposto, vejo um Octavio de Frias, por exemplo. Escrevia bem mas era de uma chatice enorme. Ou José de Alencar.

        O fato é que você usou as ferramentas que tem disponíveis – e, convenhamos, você pegou leve – para avaliar e analisar a obra, chegando a essa conclusão. Só que um leitor médio também pode fazer isso e perceber as falhas da obra: basta prestar atenção na coerência do texto enquanto história e enquanto texto. Ou seja, se perguntar “por que o personagem age assim se na verdade ele é assim”? “Como uma garota de 20 e poucos anos nunca transou e, no entanto, fala sobre deusa interior como se fosse a coisa mais natural do mundo”? Entre outros. Gente, não é porque vocês gostam da história que ao questionarem se ela faz sentido irão destruí-la. Vai perder aquele gostinho? Vai, infelizmente. Mas pelo menos seu paladar ficará mais exigente. Muita gente diz que amou “Crepúsculo” e, no entanto, concordam que muita coisa lá não faz sentido e que seria interessante que o romance fosse escrito novamente.

      2. Sobre o final, eu concordo que muita coisa não faz sentido, mas não sei se gosto da ideia de ser escrito novamente hahahaha. Sabe que é até por eu gostar de Crepúsculo (no sentido = sei que é mal escrito, mas me diverti às pampas lendo) que eu realmente concordo que livros tem efeitos diferentes sobre as pessoas.

  3. E já que estamos falando sobre questão de gosto, tenho de confessar algo: sei que uma partezinha de mim morre toda vez que alguém fala o tal do “gosto não se discute”. Se eu continuar a ouvir isso, certeza de que, em breve, de tanta parte minha que morreu, serei zumbi, e passarei fome, obviamente, porque sei que encontrarei vento no lugar onde deveria encontrar cérebro quando for atacar minhas “presas”. (Presas-predadores-behaviorismo-que-droga-eu-andei-tomando-meu-deus?)

    Sinto muita vontade de responder, para quem diz que gosto não se discute, a seguinte coisinha: eu não gosto de você, e não me pergunte o motivo porque gosto não se discute.

    1. O povo do “gosto não se discute” é o mesmo que acha que não se muda de ideia nessa vida. É triste. Como se fosse um pecado você descobrir depois de uma boa argumentação que algo que achava bom pode ter seus aspectos negativos (e o contrário tb vale).

      1. Mas aí é que está, Anica: esse do “gosto não se discute” não tem outro argumento a não ser esse! São vitrolas quebradas! Se você tem um guilty pleasure, beleza. Eu mesmo tenho um – acho o filme “O Apanhador de Sonhos” bom, apesar do final ruim. Ter auto-crítica é necessário. Saber avaliar as coisas também. Consumir sem atentar ao que está sendo posto diante de você é algo muito perigoso – principalmente quando falamos de arte em geral.

      2. Mas aí é que está: qdo temos um guilty pleasure, ao chamar a coisa de guilty pleasure nós já mostramos que temos consciência que ela tem falhas. O problema é que eu vejo em comentários dos meus posts de 50 tons que muita leitora está disposta a defender o livro com argumentos estapafúrdios ao invés de simplesmente reconhecer que sim, é um livro ruim, mas que sim, pode divertir um determinado grupo de pessoas.

  4. Quando eu li os comentários sobre o que voce escreveu Anica eu fiquei até assustada até comentei isso, o livro é ruim mesmo e mesmo uma pessoa que não olhe somente pela sua qualidade formal pode ver isso, ai é uma questão de bom senso e maturidade, tudo bem não posso obrigar as pessoas a gostarem ou concordarem comigo sobre o que eu gosto, eu li os dois primeiros livros da trilogia Cinquenta Tons de Cinza, mesmo não sendo “especialista” eu vi que é ruim mesmo, até me diverti lendo algumas coisas mas na maioria é de fazer chorar mesmo, quem não consegue ler uma crítica deveria evitar esse tipo de situação, é chato pra quem dá sua opinião e para quem quer ler comentários que sejam interessantes.

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