Altas Literaturas (Leyla Perrone-Moisés)

Parece que com o tempo nós (leitores) acabamos nos acostumando com a ideia um tanto preguiçosa de que um clássico é um livro que sobreviveu ao tempo. Digo preguiçosa porque, embora ela não seja de todo uma mentira (ou vai dizer que não é mérito da obra de Shakespeare ser lida e emocionar leitores até o dia de hoje?), ainda assim ela exclui alguns elementos da complexa equação do que forma os cânones literários até os dias de hoje. Uma prova disso é possível encontrar na pesquisa de Leyla Perrone-Moisés, publicada pela Companhia das Letras com o título Altas Literaturas. Em dado momento, ela observa que um poeta completamente esquecido pela crítica por séculos, John Donne, é resgatado novamente por escritores-críticos como Eliot e Pound. Como dá para perceber, não é mera questão de sobreviver ao tempo.

Tanto não é que o primeiro capítulo da pesquisa de Perrone-Moisés é todo dedicado à questão da História Literária e do julgamento de valor, oferecendo a base para o que veremos a seguir. Há uma crítica muito consistente ao modelo linear adotado através dos anos, que rotulava autores de acordo com escolas que na realidade eles tinham pouco a ver com isso (aqui lembro do caso do norte-americano Edgar Allan Poe, que certamente não tem o perfil único/engessado que muitos tentam atribuir para que caiba nas tais linhas do tempo), modelo este que pode passar duas falsas interpretações: a primeira é de que todos os autores posteriores a uma determinada obra devem algo ao escritor mais antigo. A segunda é de que os mais recentes estão mais próximos de uma certa evolução, um progresso. Para desfazer esse nó, Perrone-Moisés acaba se sustentando na opinião dos autores que fazem parte do corpus de sua pesquisa para uma orientação sobre a relação da literatura moderna com o passado: a de que o passado está constantemente mudando, e que uma obra nova reverberá não só no futuro, mas também na leitura que se faz de livros anteriores, o que fica bastante claro na citação que faz de Borges:

Depois de enumerar várias obras do passado que qualificaríamos hoje de “kafkianas” ele (Borges) observa: “Se não me equivoco, as peças que enumerei se parecem com Kafka; se não me equivoco, nem todas se parecem entre si. Esse último fato é o mais significativo. Em cada um desses textos está a idiossincrasia de Kafka, em maior ou menor grau, mas se Kafka não tivesse escrito, não o perceberíamos; o que quer dizer, não existiria.”

Após a discussão sobre História Literária, Perrone-Moisés passa de fato para o objeto de sua pesquisa, que seria o cânone dos escritores-críticos. Tomando como base os escritos críticos de Ezra Pound, T. S. Eliot, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Italo Calvino, Michel Butor, Haroldo de Campos e Philippe Sollers, ela monta um quadro com os nomes dos autores mais privilegiados por esses escritores-críticos. Os “favoritos” (com mais ocorrências no quadro) foram: Homero, Dante, Joyce, Virgílio, Donne, Voltaire, Flaubert, Mallarmé, Pound, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Dostoiévski, Henry James e Kafka. Desses, a pesquisadora observa quatro casos exemplares. O primeiro é o de confirmação, com Dante; o segundo já mencionado é o de recuperação, com John Donne; o terceiro é um caso de reconhecimento, com Mallarmé e o último é o caso de consagração imediata, com James Joyce.

O que é interessante na escrita de Perrone-Moisés é que ela vai amarrando os assuntos num texto fluido, coeso. Aquela discussão sobre história literária do começo fica ainda mais clara depois que passamos a ver a reflexão sobre os cânones dos críticos, que complementam o debate do capítulo seguinte, sobre quais são os valores adotados pelos escritores-críticos. A saber: maestria técnica, concisão, exatidão, visualidade e sonoridade, intensidade, completude e fragmentação, intransitividade, utilidade, impessoalidade, universalidade e o último, novidade – que é um valor moderno sobre o qual a autora tem algumas ressalvas (especialmente sobre os críticos que enxergam apenas este critério como digno de nota).

O capítulo seguinte, “A modernidade em ruínas”, pretende responder se as escolhas dos críticos modernos continuam valendo para os dias atuais. O que chama a atenção aqui é que a pesquisa de Perrone-Moisés começou em 1980, e terminou em 1998, há quase 15 anos. E mesmo assim as observações que ela faz sobre a literatura continuam extremamente atuais, como quando fala do ensino de literatura em sala de aula (com a literatura sendo diluída em outras disciplinas do currículo, até por acreditarem que ela seja só “perfumaria”) ou quando fala do papel da crítica atual: “A difusão os livros passa, atualmente, menos pelos críticos e professores universitários do que pelos agentes literários, e pelas várias formas de publicidade. Quanto aos leitores de literatura em geral, esses se interessam pouco por discussões acadêmicas, embora delas dependa, pelo menos em parte, a existência futura de leitores de literatura“. Como se vê, a visão de Perrone-Moisés não é das mais otimistas (mas certamente não está longe da realidade).

É realmente digno de nota como Perrone-Moisés consegue tratar do tema de modo conciso e preciso, sem se desviar (em um assunto que poderia render muitos desvios). É um livro de nicho, é óbvio, mas o que em nenhum momento significa que seja chato. Aliás, só pelas cutucadas no Harold Bloom já teria valido a pena a leitura (fiquei pensando aqui, será que eles se cruzaram pelos corredores de Yale?). Mas Altas Literaturas é muito mais, e pelas reflexões que traz merece especial atenção não só dos estudantes de literatura, mas de todos que têm alguma curiosidade sobre o assunto.

Altas Literaturas
Leyla Perrone-Moisés
240 páginas
Preço sugerido: R$54,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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10 thoughts on “Altas Literaturas (Leyla Perrone-Moisés)

    1. eu pessoalmente não tenho nada contra o bloom, curto o que li dele (incluindo o cânone). mas ele é mesmo chegado a umas polêmicas e aí vai ganhando seus desafetos. meio que aquela coisa de “quem diz o que quer, ouve o que não quer”, hehe.

    2. Acho que é porqueele não gosta muito das abordagens pós-colonialistas e feministas que surgiram na Academia nos últimos 50 anos. Curiosamente, ao mesmo tempo em que ele assume essa posição “retrógrada”, ele ajudou a impedir que alguns chamados “pós-modernos” “destruíssem” a crítica literária.

      1. sim, a cutucada da leyla é justamente nas opiniões dele sobre as abordagens feministas. se eu lembrar coloco o trecho aqui depois ^^

      2. Preciso ler esse livro, também. Ultimamente ando levando mais a sério os estudos de e sobre crítica literária. Lia mais por prazer, mas agora vou me dedicar mais ao assunto.

  1. Muito da boa a sua resenha Anica, parece ser um livro comedido e com os pés no chão, que não quer revolucionar tudo o que já existiu, mas se colocando perante grandes nomes da literatura e dos estudos literários com humildades mas não com subserviência.

    As abordagens sobre História Literária foram as que mais me despertaram a curiosidade, parece se tratar de um livro muito bom mesmo, fiquei mais empolgado ainda para ler.

    1. lucas, foi como te disse por mp, lembrei muito de você lendo o primeiro capítulo. a argumentação da leyla é bem interessante mesmo. aliás, ela poderia ter feito o trabalho dela todo ali e já teria sido muito legal, hahaha

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