Eu não sei ter (Marcelo Candido)


Claro, eu não tinha feito nada demais, porém minha neutralidade fora fundamental, ou pelo menos me dava prazer pensar assim. Saí de lá com vários elementos para remontar a história de meu amigo. Me dá até vontade de escrever um livro. Se fosse escrever, já teria um nome: Infidelimizade.

A fala acima é do personagem-narrador Justiniano, do romance Eu não sei ter, de Marcelo Candido. Quando li o trecho pensei “Mas e por que o autor não adotou isso como título?”, teria sido genial. Porque se há uma palavra para descrever o motor da narrativa, seria exatamente esta: infidelimizade. Justiniano é um homem que em determinado momento se vê forçado a repensar sua relação com o melhor amigo Gregório, em como quando veio do interior para São Paulo adotou a família do amigo como sua, de como cresceram e se desenvolveram juntos – e de como acabaram se distanciando. O leitor toma as palavras do narrador não só como uma remontagem da história de Gregório,  mas também da relação de ambos, e das pessoas que circulam em suas vidas.

Por outro lado, Eu não sei ter parece cair como uma luva quando pensamos no protagonista, em como ele parece carregar uma dose de amargura misturada com um pouco de solidão, talvez justamente pelo medo de se relacionar mais profundamente com alguém. Há um momento em que ele revela um curioso método para escolher aquela que seria a mulher de sua vida: oferece um bonsai para a namorada depois de alguns meses juntos. Se ela conseguisse mantê-lo vivo por um determinado tempo, ela seria a escolhida. É claro, nunca funcionou. E é claro, ele logo descobre que não há muita lógica na hora de se escolher “a pessoa da nossa vida”.

Candido joga com a curiosidade do leitor ao plantar uma espécie de mistério, que cabe justamente a Justiniano desvendar: quem é Gregório de fato? É evidente que quanto menos eu revelar sobre essa questão, melhor, mas a verdade é que nos mantemos presos ao livro querendo descobrir mais e mais enquanto Justiniano pesquisa a vida do amigo. E a verdade é que quando tudo parece estar claro e respondido, a curiosidade do leitor muda o foco para quais serão os desdobramentos da história, do que acontecerá com as personagens que nos foram apresentadas. Então é óbvio, o escritor acaba prendendo a atenção do leitor do início ao fim.

Porém, por mais que eu tenha gostado muito do modo como os fatos vão se revelando aos poucos, o que mais me chamou a atenção (e sim, o que mais me agradou) em Eu não sei ter foram as digressões de Justiniano. De como ele pulava de uma confissão profundamente pessoal para músicas ruins que tocam em táxis e coisas do tipo. Embora Justiniano seja uma personagem um pouco amarga, ele faz observações que tem uma certa dose de humor, ou vá lá, com uma acidez que chega a beirar ao cômico. Como logo no início fala do rompimento da amante, fazendo uma analogia às máquinas detectoras de metais dos aeroportos: ” (…) mas até o operador mais distraído perceberia na tela de seu scanner Orgulho Ferido escondido no meu coração de metal, colocado ali junto com as moedas, o celular e as chaves. Se me levassem para a salinha do interrogatório e me pressionassem, eu seria obrigado a confessar o despeito: Por que ela não me ligou para falar de nós?” ou quando começa a explicar o que aconteceu após a família de Gregório pedir que ele fosse ao consultório do amigo: “Procrastino, como todo ser humano. Na dúvida, não faço. Na desconfiança de um resultado negativo, enrolo“.

Esses desvios na narrativa tornam Justiniano tão real, tão palpável, que poderia ser um amigo seu contando dos últimos eventos de sua vida após um longo período sem se encontrarem. Muito do que auxilia nessa impressão é o fato do livro ser narrado em primeira pessoa mas quase replicando um fluxo de consciência. Até mesmo a fala das outras personagens chegam ao leitor através das palavras do narrador, e não das personagens em si. um exemplo disso é esse ótimo momento (que parece conter em si tanto da base da história que é até importante citá-lo):

(…) Existem coisas no passado que deveriam se perder na memória coletiva, mas parece que tem sempre alguém pensando exclusivamente em si mesmo, querendo reviver tudo. E a pessoa não faz nem ideia do que pode causar.

Quando ouço dona Glória dizer isso, entendo poque ela pediu para sairmos do Viena do andar térreo (…)

E é assim que os diálogos vão aparecendo, como que recordados no ato e contados para o interlocutor, que espera saber o que acontecerá com Justiniano, Gregório, Cândida e as outras personagens que fazem parte da história. E no final das contas chega até a ser interessante que embora o foco do romance seja a relação entre amigos, o protagonista consegue fazer isso ir além e falar de relações de um modo bem mais amplo (e geral). É aí que Justiniano nos conquista, e que Candido conquista o leitor. Vale a pena entrar no labirinto de pensamentos do narrador, até porque é inevitável encontrar um pouco de nós mesmos ali, nós que também não sabemos ter.

Eu não sei ter
Marcelo Candido
205 Páginas
Preço sugerido: R$39,50

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One thought on “Eu não sei ter (Marcelo Candido)

  1. Anica, o mais engraçado é que o primeiro nome do livro era esse: Infidelimizade. Um amigo poeta e editor implicou que pareceia muito poesia concreta, criação de palavras, daí mudei…
    Fiquei feliz que apontou as divagações do narrador como positivas, acho que o mundo tá muito direto e superficial, a literatura não precisa reforçar isso, como foi dito ontem numa mesa da Flip, Faulkner parece ter afirmado que a literatura é como um fósforo, riscado, ilumina, mas apenas para termos noção do quão escuro é o entorno!
    Bom, eu gostei da sua resenha, mesmo que pareça suspeito.
    Marcelo

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