Shakespeare escrevia por dinheiro: Preconceitos literários

Em uma consultada rápida ao dicionário você encontrará para preconceito uma definição parecida com “ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial“. E sim, nós leitores temos cá nossa cota de preconceito literário. É o tipo de coisa que não podemos controlar, por mais que racionalizemos pensando que isso é idiota, lá vamos nós torcer o nariz para um livro que mal foi lançado por conta de uma birra qualquer. Sempre acreditei que se fizessem uma pesquisa entre os odiadores de Paulo Coelho, uns 30% diriam que odeiam mas não saberiam explicar o motivo, e uns outros 30% diriam que na realidade nunca leram algo do sujeito.

E engana-se quem pensa que o preconceito se limita apenas aos livros: temos preconceito sobre os leitores também. Há uma imagem no tumblr que brinca com a ideia dizendo “Eu julgo silenciosamente os outros por sua estante“. E um pouco do que nos leva a fazer isso é o fato de que achamos que o que lemos é, de certo modo, o que somos. Como se a pilha de livros lidos fosse uma espécie de amontoado de peças do quebra cabeça do seu ser. E ao inconscientemente acreditarmos nisso, passamos estabelecer relações entre o que é alguém que lê determinado livro. Sujeito diz que lê James Joyce? Uouuu, é genial. Guria diz que adorou Crepúsculo? Deve ser uma adolescente com problemas de auto-estima. E por aí segue. O irônico é que se você tem a chance de conhecer melhor a pessoa provavelmente se descobrirá equivocado.

Mas voltemos aos livros. Brinquei sobre as pessoas dizerem odiar Paulo Coelho sem sequer terem lido porque é algo que observei ao longo dos anos, conversando sobre livro com as pessoas. Sempre tem aquele que acha que é desnecessário ler/conferir com seus próprios olhos se alguém (seja lá por qual critério) for referência ao falar de livros. Eu sinceramente acho que não há nada mais estúpido do que dar opinião sobre algo que você não conhece. Acredito tanto nisso que desde a adolescência sigo a ideia de não falar algo sobre o que não li. Paulo Coelho (já que o nome dele está na roda), eu li. Mais de um, aliás. Não gostei. Mas veja bem: EU não gostei. E não o fulano entendido em literatura que diz que não devemos gostar.

Há uma sutil diferença entre adotar as sugestões e opiniões dos outros ou tomá-las como suas. No primeiro caso, convenhamos, a vida é curta e tem muito livro para ler, então você tenta de alguma forma otimizar o seu tempo para ler o máximo de coisas que gostará. E nisso o comum é nos guiarmos através das opiniões de pessoas que admiramos, ou que reconhecidamente tem um gosto parecido com o seu. No meu caso, por exemplo, quando a Dani fala bem de um livro, eu fico automaticamente curiosa – porque volta e meia eu gosto do que ela gosta. Mas não posso dizer que eu, Anica, não gostei de um livro que ela não gostou só porque ela não gostou. Tão pouco posso dizer que eu achei que o livro é ruim só porque “a crítica especializada” diz que é ruim. Nesses dois casos há de se ressaltar que a opinião não é minha, mas de outros.

Porém, tem um outro caso ainda, que é uma espécie de filtro criado após várias leituras. Continua sendo um preconceito, é claro. Mas depois de um tempo já dá para perceber qual tipo de livro não te agrada. É quase como aquele ditado do gato escaldado: dois livros de fulano são ruins, por que vou investir meu tempo no terceiro? Estou sempre com vontade de abandonar livros de um determinado gênero, por que me arriscar novamente? Pensando aqui eu devo dizer que sou bem flexível, acabo lendo meio que de tudo. Só continuo com um pé atrás com biografias e auto-ajuda. Sobre as biografias, de vez em quando tento algo e me surpreendo positivamente (como no caso de Como Shakespeare se tornou Shakespeare). Já com a auto-ajuda, verdade é que desde Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus eu não tentei mais nada. Eu tenho noção de que meu filtro não é infalível, mas de novo, tenho noção também de que não vou poder ler todos os livros do mundo, então é realmente melhor passar meu tempo com aqueles que vou achar razoavelmente bons.

Acredito, porém, que vez ou outra devemos tentar vencer o preconceito e dar uma chance para determinados livros. Há sempre uma chance de você no mínimo se divertir, o que já terá feito a leitura valer a pena. Aliás, não há nada que me deixe mais feliz do que descobrir que estava completamente enganada sobre a má impressão que tinha de uma obra: ter em mãos um livro que julgo não ser nada demais, e aí chegar ao fim e descobrir que tenho um novo autor na minha lista de favoritos.

Livros lidos: Bonsai (Alejandro Zambra), Revista Arte e Letra Estórias P (Vários), Dublinenses (James Joyce), Sonetos do amor obscuro E Divã do Tamarit (Federico García Lorca), O Circo da Noite (Erin Morgenstern), O Gato e o Diabo (James Joyce) e Eu não sei ter (Marcelo Candido).

Leituras em andamento: A trama do casamento (Jeffrey Eugenides).

Livros que chegaram: O sonho de Vitório (Veridiana Scarpelli), Dublinenses (James Joyce), Os Descendentes (Kaui Hart Hemmings), Romeu e Julieta (William Shakespeare), Eu não sei ter (Marcelo Candido), A trama do casamento (Jeffrey Eugenides), O Substituto (Brenna Yovanoff), O gato e o diabo (James Joyce), O horror em Red Hook (H.P. Lovecraft), Sonetos do amor obscuro E Divã do Tamarit (Federico García Lorca), Suicídios Exemplares (Enrique Vila-Matas), O livro de areia (Jorge Luis Borges) e Histórias Fantásticas (Adolfo Bioy Casares).

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