Arte e Letra: Estórias P (Vários)

A revista Arte e Letra Estórias já é uma velha conhecida aqui no Meia Palavra. Desde a edição L temos comentado sobre essa fantástica proposta da editora curitibana Arte e Letra de reunir textos curtos de autores ainda não tão conhecidos do público e outros já bastante famosos, de modo a criar uma revista-livro que funciona perfeitamente como um “menu degustação” para quem quiser conhecer novos nomes. O que torna a ideia da revista muito legal também é fugir da mesmice até quando apresenta contos de escritores do século XIX, por exemplo. Aliás, se há algo que se pode afirmar com certeza sobre a revista, edição após edição, é que não há espaço para o óbvio.

No caso da edição P isso fica ainda mais nítido. Mesmo que traga nomes consagrados como dos britânicos James Joyce e Virginia Woolf, a escolha dos títulos é bastante peculiar. Para Joyce foi escolhido o conto presente em Dublinenses “Uma pequena nuvem” (traduzido por Adriano Scandolara), que foge da escolha de “Os Mortos”, bem mais comum em coletâneas. Para Woolf a escolha é ainda mais interessante: “Craftsmanship” (traduzido por Gustavo Hessmann Dalaqua) é na realidade um texto lido por Virginia Woolf na rádio BBC em 1927, falando sobre as palavras (e o ato de escrever). Se a revista fosse só esse texto já valeria a pena, mas há mais, muito mais na edição P.

Contrariando o que se espera de uma edição ilustrada por simpáticos velhinhos posando para fotos em determinados locais de Curitiba (a ideia genial de fotografar os bonecos é de Daniel Gonçalves e Fabiano Vianna), parece que a palavra da vez nesta edição é MULHER. Há contos que puxam mais para o masculino, é claro, mas em sua maioria a feminilidade parece transbordar nas páginas da revista. Há o caso de histórias escritas por mulheres como Muriel Spark abrindo a coletânea com o engraçadíssimo “O Apocalipse de Miss Pinkerton”, traduzido por Beatriz Sidou (tradutora que deu conta muito bem de um complicado jogo de palavra criado pela autora), ou ainda o ótimo “Descosturado”, da brasileira Luana Azzolin.

Há também o caso de narradoras-personagens, como a mulher em “Tarde da Noite” de Rosa Montero, traduzida por Iara Tizzot, ou no primeiro dos dois contos da boliviana Giovanna Rivero, traduzido por Mariana Sanchez. Em “Camas Vizinhas” a feminilidade fica mais explícita (assim como a loucura), já em “Ondas de cetim” o sexo do narrador não é evidente, mas novamente vemos uma mulher no foco da narrativa.

E mesmo quando as mulheres vão abrindo espaço para os homens, de modo sutil elas ainda estão lá. Por exemplo, é graças à tradutora Gabriela Soares da Silva que dois textos de escritores russos menos conhecidos aqui no Brasil ganham agora tradução em português – tradução direta, vale destacar. Um deles é “A Múmia Egípcia”, de Mikhail Bulgákov e o outro “Uma visão”, de Evgueni Zamiatin, ambos de forte teor político, servindo como metáfora para o período em que foram escritos.

Continuando a surpreender, a edição P foge do que poderia ser um padrão (publicar apenas contos) não só com o já mencionado “Craftsmanship” de Virginia Woolf, mas parte de um texto biográfico sobre o ator Buster Keaton, em “Buster Keaton – Tempestade num chapéu achatado”. Bastante interessante e ao mesmo tempo comovente (especialmente na conclusão), parece um caminho interessante que a revista passa a tomar, abrindo novas possibilidades, vozes diferentes e tomando um corpo de revista de fato, até pela variedade de gêneros.

A coletânea ainda traz uma dobradinha de Paulo Venturelli, com “Faça-se a luz. E a luz negou-se” e “Atos, cenas e quadros”. Seguindo esse mesmo esquema de conto duplo, temos o sueco Hjalmar Söderberg com “O desenhoa a naquim” e “Vox Populi”, traduzidos por Guilherme da Silva Braga. Fechando a revista há o excelente “Meu filho, o fanático” de Hanif Kureishi, traduzido por Christian Schwartz e “Um sermão difícil”, de Louis Pergaud, traduzido por Natália Florêncio.

É uma ótima seleção, com textos acima da média e que certamente despertarão a vontade de conhecer mais dos autores presentes na revista. Vale a pena conferir, especialmente se você está em busca de algo novo, querendo fugir um pouco dos velhos nomes de sempre. Ela pode ser comprada direto no site da editora, e o preço sugerido é de R$20,50. E para terminar,caso este seja seu primeiro contato com a revista, segue abaixo uma lista de links para outras edições que já comentamos aqui no Meia Palavra.

 

Arte e Letra: Estórias P
Autores: Muriel Spark, Mikhail Bulgákov, Virginia Woolf, Luana Azzolin, Rosa Monteiro, Giovanna Rivero, Evgueni Zamiatin, Edward McPherson, Paulo Venturelli, Hjalmar Söderberg, James Joyce, Hanif Kureishi e Louis Pergaud.
Tradutores: Iara Tizzot, Beatriz Sidou, Mariana Sanchez, Irinêo Baptista Netto, Guilherme da Silva Braga, Natália Florêncio, Gabriela Soares da Silva, Christian Schwartz, Fabiano Vianna, Daniel Golçalves.
96 Páginas
Preço sugerido: R$20,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Arte & Letra

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