Ray Bradbury (1920 – 2012)

Ontem os fãs de literatura ficaram mais tristes ao saber do falecimento do escritor norte-americano Ray Bradbury. Digo “fãs de literatura” porque, embora mais famoso por seus títulos de ficção especulativa como Fahrenheit 451 e Crônicas Marcianas, Bradbury foi um daqueles casos de autores que pela qualidade do que faziam extrapolou rótulos, gêneros e semelhantes. Pergunte para qualquer pessoa “que não é muito fã de sci-fi” o que ela achou de Crônicas Marcianas, e tenha certeza que 10 entre 10 delas diram “Ok, talvez eu deva ler mais sci-fi”. Pergunte para qualquer pessoa quais histórias distópicas estão entre suas favoritas, e fique certo de que Fahrenheit 451 estará lá. Bradbury marcou seu nome entre os grandes, saindo daquele grupo de autores que escrevem para um público específico para ser reconhecido até por quem não apreciava o tipo de história que ele contava. Basta saber que ao ser confirmada a notícia de sua morte, homenagens começaram a pipocar na internet, e seu nome esteve nos trending topics do Twitter por horas.

E mesmo que nunca tenha lido algo dele, saiba que é bem provável que você tenha lá sua dívida com Bradbury se gosta muito de escritores atuais, sobretudo os que escrevem em língua inglesa. Neil Gaiman mais de uma vez já expressou sua admiração e reconheceu a influência do norte-americano em seus trabalhos. Um caso mais óbvio é a coletânea M is for Magic (ainda sem publicação no Brasil) cujo título faz uma referência à coletânea de contos de ficção científica S if for Space, publicada em 1966. Os dois livros tem a mesma ideia: apresentar um universo fantástico para jovens leitores. Para quem lê em inglês, Neil Gaiman escreveu ontem para o Guardian uma belíssima homenagem ao escritor que tanto admirava (para ler, basta clicar aqui).

Mas se a influência que Bradbury exerceu sobre autores que você lê hoje em dia não basta, que tal então o trabalho de divulgação da ficção científica, que fez dele parte do famoso “ABC da ficção” (no meio de Isaac Asimov e Arthur C. Clark), tirando em muito o preconceito que (infelizmente) ainda se sustenta sobre ficção especulativa não ser literatura de qualidade, mas apenas entretenimento. É até uma estranha coincidência que algumas semanas antes da notícia da morte de Bradbury, estivesse sendo bastante compartilhada pela internet a seguinte charge:

Vocês todos estão só com inveja do meu jetpack.

Lembrando, é claro, que embora suas obras mais emblemáticas se enquadrem facilmente como ficção especulativa, a realidade é que Bradbury tem uma produção tão vasta que chega a ser até um pecado considerá-lo “apenas” escritor de ficção científica. Uma rápida consulta na bibliografia do escritor (disponível na wikipedia) mostra que Bradbury publicou não-ficção, tem roteiro para teatro e até para filmes e séries de televisão (aqui os mais famosos são Twilight Zone e Alfred Hitchcock Presents). Chegou inclusive a ter um programa próprio de TV, que durou alguns anos, chamado The Ray Bradbury Theater.

Foi sem dúvida uma pessoa peculiar (por exemplo, corre por aí a lenda de que não usava um computador para escrever, e de que nunca aprendeu a dirigir), mas o que parece chamar bastante atenção em qualquer biografia ou comentário de terceiros sobre o escritor é que era alguém dedicado ao que fazia, mas mais ainda, um apaixonado e grande divulgador do prazer da leitura, vide seu trabalho com os livros voltados para o público infantil. Foi também um criador de histórias maravilhosas, que fazem parte do imaginário coletivo, como a própria ideia de um bizarro futuro onde bombeiros queimam livros.

Se você ainda não conhece Ray Bradbury, talvez esse seja um bom momento. Eu comecei com Crônicas Marcianas, é o que sugiro como primeira leitura para qualquer um que pergunte por onde começar, embora reconheça que o peso da “fama” de Fahrenheit 451 faça com que muitas pessoas acabem optando por esse. De qualquer modo peço que nunca, nunca, nunca deixe de lado Algo sinistro vem por aí (publicado no Brasil pela Bertrand), uma genial metáfora sobre aquele difícil momento em que deixamos de ser crianças.

E não teria outro jeito de fechar esta homenagem senão citando o próprio autor (em Fahrenheit 451):

E, quando morreu, percebi repentinamente que não chorava por ele, mas por todas as coisas que ele fez. Chorei porque nunca mais voltaria a fazê-las, nunca mais esculpiria um pedaço de madeira nem nos ajudaria a criar pombas e pombos no quintal, nem tocaria violino como costumava fazer, nem nos contaria anedotas. Ele fazia parte de nós e, quando morreu, todas as ações pararam e não havia ninguém que as fizesse como ele fazia. Era particular. Era um homem importante. Nunca me recuperei de sua morte. Penso muitas vezes que nunca mais nascerão esculturas maravilhosas porque ele morreu. Quantas piadas faltam neste mundo e quantos pombos que não são tocados pelas suas mãos. Ele moldou o mundo. Ele fez coisas ao mundo. O mundo ficou sem dez milhões de boas ações na noite em que ele morreu.

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4 thoughts on “Ray Bradbury (1920 – 2012)

  1. poucos se lembram q ele começou a escrever pq amava histórias d dinossauros, e deixou contos clássicos como o dos caçadores q voltam no tempo e matam sem querer uma borboleta alterando toda a história da humanidade.

    1. A Sound of Thunder, né? Premissa muito, muito legal mesmo. Na realidade eu acho uma pena de verdade que muitas pessoas acabem conhecendo só Fahrenheit 451. O livro é genial, claro, e merece o devido reconhecimento. Mas ele tem outras coisas tão boas quanto que acabam passando batidas por aqui =/

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