Shakespeare escrevia por dinheiro: Dia dos namorados, livros, etc.

Este ano demorou um pouco mais, porém já aparecem aqui e acolá propagandas dos Dias dos Namorados, incluindo as que vendem livros como opção de presente. O que eu achava até engraçado, já que no final das contas a leitura mais e mais é um hábito particular. Mas aí pensando em elaborar uma lista de sugestões, por coincidência cai em minhas mãos Bonsai, que é todo montado na relação de um casal com os livros. Ou seja, embora a experiência de leitura seja única e varie de leitor para leitor, podemos ter momentos compartilhados com outras pessoas, fazer uma obra virar lembrança, uma piada interna, ir além da leitura. Quer exemplos?

Exemplo 1: Menina de 18 anos ao telefone com um carinha por quem era completamente apaixonada porque ele era todo inteligente-cheio-de-mil-referências. Estão jogando conversa fora, quando a garota comenta que o irmão e a cunhada estão assistindo ao filme 1984. O guri fala “Desligue já o telefone e vá ver este filme”. A menina desligou e nem assistiu direito, em uma neura louca pensando que ele só queria era se livrar dela. E mais: naquele dia escreveu no diário como aquele cara era babaca às vezes. Poucos anos depois finalmente leu 1984 de George Orwell. Gostaria de ainda ter contato com o sujeito para comentar com ele como aquele livro era genial, e como ela deveria ter assistido ao filme sem birra naquele dia do telefonema. Mas outros anos depois viu a lista de favoritos dele no Orkut e chegou a conclusão que um relacionamento com um carinha que colocava Amyr Klink no top5 estava mesmo fadado ao fracasso.

Exemplo 2: Garota começa um relacionamento longo com uma pessoa que sempre sabia quais livros ela queria (e a importância desses para ela). Ele tinha uma listinha de pockets da L&PM para presenteá-la eventualmente, e sabia como ela não aceitava livro que não tivesse alguma dedicatória. No último dia dos namorados que passaram juntos, enquanto se despediam pela manhã o guri fala para ela “Arruma direito seu travesseiro”. A garota sobe correndo para o quarto e encontra um Contos Fantásticos do Século XIX que era seu objeto de desejo desde que fora lançado. E sim, com dedicatória. Alguns meses depois no Natal daquele ano ele dá um DVD para ela. No mês seguinte eles terminaram. Não por causa do DVD, é óbvio. Mas o salto dos livros para o DVD hoje em dia parece ser um interessante sintoma que ela não soube enxergar.

Exemplo 3: O amigo sabia que a garota adorava Hamlet. Eles passavam a tarde trocando emails discutindo diversas teorias, entre elas a de que Shakespeare na fala de Gertrude sobre a morte de Ofélia aponta que a jovem estava grávida quando se suicidou. Aí eles combinam de assistir a adaptação dirigida pelo Kenneth Branagh com uma amiga. A tal da amiga estrategicamente não aparece nesse encontro, mas uma garrafa de Malbec está lá. E naquele dia começa um relacionamento que dura até hoje. A confirmação do casamento chegou não quando ela trouxe suas roupas para o apartamento dele, mas quando uniram os livros que já tinham antes de começar a namorar.

A verdade, pequeno gafanhoto, é que se você resolver embarcar em um namoro com uma pessoa que lê compulsivamente, você terá que aceitar o livro como um dos vértices de um triângulo amoroso. Eventualmente você terá que ler aquele livro do qual a pessoa amada tanto fala, nem que seja para entender por que diabos ela tanto fala sobre ele. Vai ter que se informar sobre os lançamentos, para fazer alguma surpresa que envolva um livro novo daquele autor favorito. Vai acabar deixando passar batido uma ou outra frase obviamente retirada de um livro, que você só não saberá qual. Vai ter que se controlar para não cair na armadilha de tentar achar algum significado escondido em um livro indicado (acredite, às vezes é só porque o livro é bom mesmo). E vai ter que lembrar sempre que livro, só com dedicatória.

Mas pense pelo lado positivo: ao contrário de muitos apaixonados por aí, você já sabe exatamente o que será o presente no 12 de junho.

***

Ah, sim, as sugestões. O Blog da Companhia fez uma boa lista, dividida nas seguintes categorias: Comprometidos, Indecisos e Solteiros. Eu vou seguir por outra trilha. Vamos lá.

Mal acompanhado: Sim, é com você mesmo que estou falando. Você sabe que esse relacionamento não tem futuro, só não sabe bem o motivo para continuar seguindo em frente. Ganhar o presente de dia dos namorados, talvez? Quem nunca, não é? De qualquer forma, é uma boa você já ir preparando terreno para explicar para o/a quase-ex o que é que deu errado. E com isso, a primeira sugestão é bastante óbvia:

Por isso a gente acabou (Daniel Handler)

A insustentável leveza do ser (Milan Kundera)

Juliet, Nua e Crua (Nick Hornby)

– Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus… hum, ok, brincadeira.

Bem acompanhado: Meu querido, a verdade é que se você está bem acompanhado então já sabe exatamente que livro seu/sua namorado(a) quer. Ele(a) já terá dito com todas as letras “UAU, CHEGOU O ULYSSES COM A TRADUÇÃO DO CAETANO GALINDO” e outras dicas nada sutis. Mas se quiser um plano b para surpreender, seguem alguns livros que de certa maneira celebram o amor (*toca tema de rádio brega*):

Um Dia (David Nicholls)

Não me abandone jamais (Kazuo Ishiguro)

O filho de mil homens (Valter Hugo Mãe)

***

E agora a lista de sempre:

Livros lidos: O filho de mil homens (Valter Hugo Mãe), As Virgens Suicidas (Jeffrey Eugenides), O Diabo e Sherlock Holmes (David Grann), Por isso a gente acabou (Daniel Handler), Wilson (Daniel Clowes), Zodíaco (Robert Graysmith), Talvez não tenha criança no céu (Davi Boaventura), Simon’s Cat (Simon Tofield).

Leituras em andamento: Bonsai (Alejandro Zambra) e Our Mutual Friend (Charles Dickens).

Livros que chegaram:  Zodíaco (Robert Graysmith), Viva para Contar (Lisa Gardner), Por isso a gente acabou (Daniel Handler), Wilson (Daniel Clowes), Revista Arte e Letra Estórias: P (Vários), Talvez não tenha criança no céu (Davi Boaventura), Simon’s Cat (Simon Tofield), Bonsai (Alejandro Zambra), Ulysses (James Joyce).

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16 thoughts on “Shakespeare escrevia por dinheiro: Dia dos namorados, livros, etc.

    1. hahahha, eu já me dei tão mal com isso que eu tenho que me controlar com essa coisa de escolher livro pela capa. mas tem umas que são tão lindas que não dá para resistir.

      1. ele escolhe todos os meus catálogos da Cia e até os contos que vou ler da lista da Bravo…é um amor só… Fico bem feliz quando ele entra numa livraria comigo e diz: “Posso escolher um livro pra vc?”

      2. Eu e o Fabio entramos numa fase em que um indica livro para o outro mas raramente lemos o que foi indicado. Foi um sufoco convencê-lo a ler Miss Peregrine, e ele me convencer a ler Song of Kali heheh.

  1. 1. Adoro sua “lista de sempre”.

    2. Como assim Bonsai em “leituras em andamento”? Ele é tão fininho que achei que só poderia estar em um lado ou outro da lista (lido ou só “chegado”).

    3. Adorei as historinhas. E as dicas. O que me lembrou que abandonei “Juliet nua e crua” há cerca de um ano por medo de terminá-lo.

    1. então, eu estava lendo um livro quando bonsai chegou, comecei a dar uma bizu no bonsai e nisso foi metade do livro, mas eu tinha que terminar o outro para resenhar e tive que deixar o bonsai de lado. acho que hj pego novamente e termino hahaha

      o juliet nua e crua foi aquilo que te falei, mais para o fim o hornby erra a mão, mas o livro ainda vale a pena. tem um negócio naquela parte da relação do fã que eu acho muito engraçada, lembrei demais do pessoal da valinor com tolkien.

  2. pfv chorando com o exemplo 3 ❤

    E Ulysses, como bem a Diana colocou na lista da Companhia, só pros solteiros. Nada de dar pro bofe/cocota.
    Ou seja: estou no caminho certo (quando o assunto é leitura)

    1. eu me dei de dia das mães o ulysses. fabio não comprou presente, ficou se enrolando, aí um dia virei pra ele e falei “me dei ulysses e bonsai de dia das mães, ok?”.

      1. Que nem minha mãe, anos atrás: “Filhos, não precisa de presente”. No mesmo dia, foi numa joalheria e comprou um conjuntinho de anel, brincos e gargantilha que estava namorando há algum tempo. ^^

      2. É o que minha mãe fez esse ano: “Fui no centro comprar meu presente”. Poupando trabalho pra mim (que to a 600 km dela) e pro pai. =D
        (até porque, se eu quisesse comprar um presente pra ela, teria que pedir dinheiro dela xD)

      3. com a minha mãe nós fazíamos café da manhã especial para ela quando ainda não tínhamos dimdim para comprar o dinheiro. aí eu fazia um cartão bem bonito e todos nós assinávamos. esse eu ano eu dei flor =S

  3. Certo… vou mandar um e-mail com o link disso para minha esposa.

    E anexar minha MUITO sutil “Lista de Livros que eu QUERO”.

    Valeu Anica!

  4. Que amor o texto =]
    O bom de gostar de uma pessoa que ama ler é q nunca faltará assunto interessante 😀

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