Talvez não tenha criança no céu (Davi Boaventura)

Escrever sobre a adolescência é uma tarefa complicada para quem já entrou na fase adulta. Seja pelo fator nostalgia (que deixa tudo muito melhor ou muito pior do que realmente era), seja simplesmente porque vamos esquecendo o que era ser adolescente, a realidade é que muitos dos livros (ênfase para “muitos dos”, não estou dizendo todos) voltados para o público juvenil acabam se afastando da realidade que os leitores vivem. Eles têm qualidades próprias, mas parecem criar um tipo de adolescente que só vê nas páginas dos livros, daqueles que não falam palavrão, não fumam escondido dos pais e não fazem besteira por não saber para onde ir. Justamente por isso foi com grande (e positiva) surpresa que recebi Talvez não tenha criança no céu, livro de estreia de Davi Boaventura. Essa fase tão complexa de nossa vida está lá com todas as cores, com aquele sabor agridoce de um tempo que por mais difícil que tenha sido, ainda assim desperta saudade.

A história é narrada pelo protagonista, sem que seu nome seja revelado. Sabemos que é um menino de classe média que vive na região metropolitana de Salvador, mas que, vá lá, poderia viver em qualquer lugar do Brasil. O leitor é arremessado sem grandes enrolações dentro de um turbilhão que representa muito bem a ansiedade de viver, de se definir, de se colocar como alguém no mundo. O primeiro capítulo do livro chega a ser emblemático: aquela festa com música alta, o narrador meio perdido sem se dar conta do que estava de fato acontecendo quando vai apartar uma briga entre irmãos. São os últimos dias das férias, e ele tenta aproveitá-los da melhor forma possível com seu amigo Gil.

A voz do narrador cria uma simpatia automática. Há algo naquele discurso de ser só mais um na multidão que é extremamente cativante. Diz ele em certo momento: “Li vários livrinhos descartáveis, de bolso, e, como cada um deles me ensinou a não confiar, de um jeito diferente, nos amigos, nos professores e na família, não demorou e eu me sentia o próprio guri do Campo de Centeio, filho único do mundo, sem saber ser essa uma comparação inútil porque, no fundo, dois terços dos fracassados de minha idade um dia se acharam idênticos ao guri do Campo de Centeio“. E é com isso que ele nos conquista, porque de fato em algum momento já nos sentimos como Holden Caulfield, e também sabemos o quão ruim é em fase de definição de personalidade descobrir que você não é tão diferente quanto pensa que é.

E a narrativa segue sem surpresas, são de fato os últimos dias de férias de um adolescente, divagando sobre relações com a família e os amigos. Aquela confusão entre a raiva e o respeito, o não conseguir compreender o que parece tão óbvio para alguém mais velho. O lado ruim de fazer parte daquela zona cinza onde você já tem vontades de um adulto, mas ainda não tem a liberdade que desejaria para agir como bem entender, já que não paga suas contas e ainda mora com os pais. Parece fazer um coro com Morrissey em seu “How soon is now?”: quanto tempo mais, para conseguir viver como quer? Aliás, muito embora eu não lembre de referência ao Smiths no livro, o fato é que ele vem recheado de outras tantas que farão a alegria de quem gosta de menções à cultura pop. E são bem inseridas, como complemento de fato e não como um acessório dispensável. A definição do esquema “escola cinema clube televisão” tirada de Legião Urbana, por exemplo, ou ainda o desenho animado Caverna do Dragão. O engraçado é que de certa maneira as referências acabam fazendo o livro um tanto atemporal. Pelo que ouve, lê e assiste, o narrador não é um jovem dos tempos atuais. Por outro lado, usa celular como qualquer um hoje em dia.

O estilo de escrita de Boaventura é fluido, representa de certa forma o que seria uma pessoa contando para você algum episódio de sua vida. Não segue um estilo formal, de “dois-pontos-pula-uma-linha-travessão” para os diálogos, por exemplo, e nem há divisão de parágrafos dentro dos capítulos. É evidente que isso poderia dar muito errado dependendo de como o escritor fizesse, mas em Talvez não tenha criança no céu isso funciona, porque aproxima o narrador do leitor, dá espaço para criar uma certa intimidade transformando quem lê em um outro Gil, e não apenas em um voyeur.

O título me parece sugerir um pouco de perda de inocência, mas o que falou mais alto enquanto lia o livro de Boaventura foi de fato a busca pela identidade. Há um diálogo entre o narrador e Gil que parece representar isso muito bem, quando o primeiro diz para o outro que gostaria de ser como ele, e então segue assim: “Você ia odiar ser igual a mim, ele disse, e encheu seu copo também. Continuei: não, sério, puta merda, ia ser do caralho. Preciso deixar de ser eu um pouco, cansei. E quem não se cansa de si mesmo, negão? É quase um pleonasmo, cansar de si mesmo“. É aquela velha sensação de que a grama do vizinho é mais verde, que dá a entender que até ser Cássio, que ambos tanto odiavam, poderia ser melhor.

Foi realmente uma boa surpresa, até pelas diferentes sensações que o livro causou. Inicialmente cheguei até a pensar que os eventos não eram adequados às idades das personagens, mas aos poucos fui lembrando de histórias pessoais e de amigos e refleti que não era algo distante da realidade. Mas o que sem sombra de dúvidas mais agradou foi o fato de nessa narração dos três últimos dias de férias desses jovens, Boaventura conseguir capturar tão bem sentimentos e pensamentos que todo jovem tem por tantos e tantos anos.

Talvez não tenha criança no céu
Davi Boaventura
128 Páginas
Editora Livros de Safra

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