Os heróis e a morte na Ilíada

Na aristocrática Grécia descrita por Homero na obra Ilíada, os conceitos de Morte e Heroísmo achavam-se intimamente ligados, dado que em inúmeras vezes é o comportamento diante a morte que distingue o guerreiro comum do herói.

O herói era uma espécie de escolhido. Pertenciam aos grupos de governantes ou proprietários de terras, algumas vezes eram filhos de deuses, comportavam-se honradamente, tinham boas maneiras, eram belos e vaidosos, além, evidentemente, de serem perfeitos no manejo das armas. Entretanto, diversas vezes não seriam heróis caso não tivessem encontrado a situação fatal e agido de forma corajosa diante da mesma. É o próprio Homero que define como corajoso aquele que não teme a morte (Ilíada, XIII, 284-7).

O exemplo ideal de herói é Aquiles, que desde o início pode escolher entre viver como uma pessoa comum, mas por um longo período, ou morrer jovem, mas ser inesquecível. Escolhera então morrer em batalha, pela pátria, de tal forma que esperava pela bela morte, a morte gloriosa e mostrava indignação diante de uma morte comum, como no caso em que estava prestes a se afogar, dizendo preferir ser assassinado por Heitor, que ao menos era heroico como ele (Ilíada, XXI, 279-83).

Um fator de destaque que comprova a importância da morte na formação do herói é o valor que os guerreiros dão a sua armadura, e até mesmo para a aparência, quando nas batalhas. Homero por muitas vezes tende a fazer um contraste entre o belo e o bélico, usando termos como “a pele macia em retalhos deixará”, “cruel bronze atingir-lhe a epiderme macia”, ou ainda “tomba de bruços, ressoando sobre ele a armadura brilhante”, e também o recurso da símile, às vezes quadros longos que saem de uma cena de guerra para uma bucólica, comparando os atos do guerreiro a ações de animais, ou fenômenos da natureza.

É certo então, que para os heróis, a verdadeira morte era a velhice, o esquecimento e a covardia. Por outro lado, estar vivo era ser endeusado, lembrado com grande admiração, possuindo glória imperecível. Um bom exemplo para a glória conquistada está na morte de Pátroclo. Sendo seu oponente Heitor, um guerreiro de incontestável valor, sua morte foi sentida não apenas pelo grande amigo Aquiles, mas por todos os aqueus (Ilíada, XXIII, 1- 16). Os rituais fúnebres de Pátroclo são de certo modo singulares, uma vez que Aquiles propõe jogos fúnebres, imolação de doze troianos aristocratas e banquete. Ainda com relação aos ritos fúnebres, Homero utiliza-se da morte de Pátroclo para descrever a importância do sepultamento, e mais do que isso, uma descrição clara do que aparenta ser o Hades para os gregos (Ilíada, XXIII69-106).

É nesse momento que Pátroclo fala do rio Styx, ou Estige, que dividia o mundo dos vivos do mundo dos mortos e possuía todas as angústias das almas. Nesse mesmo rio Tétis banhou Aquiles para torná-lo invulnerável. Os mortos eram conduzidos por esse rio pelo barqueiro Caronte, chegando então às portas de Hades. A menção de Pátroclo de que não podia atravessar ainda as portas amplíssimas do Hades sugere não apenas que há uma além vida, mas uma espécie de limbo, porém de curto período, para os gregos.

Aquiles, que tivera a visão do amigo, ainda descreve como seria o Hades. É importante perceber que o Hades estava longe de ser o que imaginamos como Inferno, era apenas um lugar onde viviam almas e imagens dos vivos, mas sem alento (Ilíada, XXIII, 103-4). Era uma espécie de reflexo opaco da vida terrestre, sendo que apenas depois surgiram os conceitos de recompensa para os bons e castigo para os maus, e a divisão do Hades em Campos Elísios (onde os bons bebiam do rio Lethe, o rio do esquecimento), Tartarus (região para onde iam os maus) e Campina Asphodel (para onde iam os neutros).

Por fim, torna-se difícil através de traduções em português reconhecer quando Homero cita a morte como figura de linguagem, deidade (aqui seria o deus Tanatos) ou apenas como um fato. Mas a insistência de Pátroclo em lembrar Aquiles que sua morte estaria para chegar, deixa claro que para Homero, a única certeza era o Destino do herói, e não sua morte.

Advertisements

5 thoughts on “Os heróis e a morte na Ilíada

  1. E é justamente sobre essa ligação entre a Morte e o Heroi que meu TCC trata em partes – no todo ele trata do encontro da dimensão humana com a divina em alguns romances contemporâneos. Como nunca li a “Ilíada”, não sabia que essa ideia também estava presente nos épicos – aliás, digo abismado que acreditava que isso estivesse circunscrito apenas à Tragédia. É por isso que eu sempre visito este site: aprendo cada coisa nova. 😀

      1. Pô cara, a Anica já pediu.. mas vou reforçar! Considerandoa qualidade dos teus posts, o TCC deve estar show de bola! Compartilhe conosco!

        Sobre o post: esses conceitos aparecem de forma muito mais simplista, mas deliciosamente corretos, nos livros da sério Percy Jackson. Por isso adoro esse moleque! 🙂

  2. há q se considerar também q o conceito d herói possui variações entre as pólis gregas, como podemos perceber na comparação entre oq pensavam os atenienses e os espartanos.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s