O Diabo e Sherlock Holmes (David Grann)

O Novo Jornalismo surgiu ali pela década de 60, com nomes como Norman Mailer, Truman Capote e Gay Talese. A ideia basicamente consiste em uma espécie de mistura entre o texto jornalístico e o literário, criando algo que pode, no final das contas, ser lido como um romance de não-ficção. Para compreender como funciona, uma boa dica é a leitura de A Sangue Frio, de Truman Capote (comentado aqui no Meia Palavra pela Ingrid e pela Uiara), obra que pode apontar inclusive o fascínio que esse tipo de texto pode criar: ter em suas mãos uma história tão boa que em nada deve para a mais mirabolante das obras literárias, provando que realmente a verdade é mais estranha do que a ficção. E esses jornalistas fizeram escola, como mostra O Diabo e Sherlock Holmes: Histórias reais de assassinato, loucura e obsessão, escritas por David Grann.

O livro é na realidade uma coleção de artigos escritos para os periódicos The New Yorker, The New York Times Magazine, The New Republic e The Atlantic. São 12 textos que abordam os mais variados temas, que vão desde a morte de um especialista em Sherlock Holmes até a caçada por uma lula gigante. Mas tudo isso narrado como se fosse um conto (ou novela, já que os artigos são longos), com estrutura típica do que vemos em narrativas de ficção.  E escrito de tal maneira que prende a atenção do leitor do início ao fim, revelando histórias curiosas nas quais a todo momento o que mais chama a atenção é justamente pensar que não é ficção.

O Diabo e Sherlock Holmes é dividido em três partes, embora na realidade não tenha ficado muito claro para mim o motivo da divisão ou, ainda, qual o critério. Tomei como dica as epígrafes (citações de contos de Sherlock Holmes) e concluí que a primeira parte são mistérios, a segunda o homem e  a terceira crimes (ou, me arriscando um pouco, o mal). De qualquer forma o tema que mais se repete é mesmo o “ser” humano, o que já fica claro na apresentação, quando Grann diz: “essas histórias parecem apresentar, no mínimo, alguns vislumbres da condição humana e o porquê de algumas pessoas se dedicarem ao bem e outras ao mal“.

E talvez por conta disso seja até curioso que as melhores histórias da coletânea de alguma forma estejam relacionadas com crimes. “Julgamento pelo fogo”, a segunda da primeira parte, é sem sombra de dúvidas a minha favorita. O enredo em si (um pai é acusado de queimar a casa onde estão suas três filhas e é enviado para o corredor da morte) e a forma como Grann o conduz fizeram com que eu lesse tudo de uma vez só – não conseguia deixar para depois, eu tinha que saber os desdobramentos do que é contado ali. E a todo momento aquele aperto no coração em pensar que trata-se de uma história real, deixando tudo ainda mais tocante.

“Um crime verdadeiro”, terceira da última parte, é bastante curiosa e também prende a atenção do início ao fim. Um escritor parece ter deixado pistas de um crime real em sua obra – o que chega a traçar um diálogo sobre a realidade e a ficção (ainda que sutil) com a primeira narrativa do livro, na qual um especialista em Sherlock Holmes é encontrado morto, e o narrador dá a entender que ele pode ter se suicidado imitando um conto de Conan Doyle, buscando incriminar um rival no campo dos estudos sobre o detetive inglês.

Parte da força das histórias de Grann parece estar na profunda pesquisa sobre os assuntos tratados. Fica evidente que certas “personagens” foram entrevistadas pelo jornalista, e que mesmo para falar dos túneis subterrâneos de Nova York, nada foi escrito sem que existisse uma coleta por informação que abrangia todos os lados do fato narrado. Além disso, há algo na forma como Grann vai colocando as informações que parece propositalmente feito para atiçar a curiosidade do leitor, vide o caso de “O camaleão”, na qual o narrador começa falando de um garoto que fora encontrado em uma estação de trem sozinho e aterrorizado. Grann conta o destino do menino e pensamos que o texto tomará o formato de uma biografia, sendo aquele o começo da vida do “Camaleão” do título. Tudo isso para um pouco mais além sermos surpreendidos (tal como as pessoas que viviam com o garoto).  Não quero estragar a surpresa de ninguém, mas adianto que é certeza que terminando o artigo você correrá para o Google para saber um pouco mais sobre a figura principal desta história.

O trabalho de Grann merece atenção, especialmente por conta da qualidade de seus textos. Fluem bem, transformando a leitura em um verdadeiro prazer. E sim, os eventos narrados parecem ter sido escolhidos a dedo para mostrar o que o ser humano tem de mais peculiar, tanto é que foi impossível fechar o livro e não lembrar das palavras de J.G. Ballard na introdução de Crash:

Além disso, sinto que o equilíbrio entre ficção e realidade mudou de modo significativo nas últimas décadas. Cada vez mais seus papéis são invertidos. Vivemos num mundo regido por ficções de todos os tipos – o consumo de massa, a propaganda, a política conduzida como um ramo da propaganda, o pré-esvaziamento, operado pela tela da televisão, de qualquer resposta original à experiência. Vivemos no interior de uma enorme novela. Hoje é cada vez menos necessário ao escritor inventar o conteúdo ficcional de seu romance. A ficção já está aí. A tarefa do escritor é inventar a realidade.

Ah, sim, para os que gostam de adaptações cinematográficas, os direitos de adaptação de três artigos já foram vendidos: ‘”Cidade de água”, “O velho e a arma” e “Um crime verdadeiro”.

O Diabo e Sherlock Holmes
David Grann
Tradução: Álvaro Hattnher
464 Páginas
Preço sugerido: R$55,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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