O filho de mil homens (Valter Hugo Mãe)

Muitas vezes como leitor você pode dizer que gostou de um livro, mas na realidade gostou do enredo. Ou ainda, gostou das ideias apresentadas pelo autor. Pode também gostar de alguma técnica de narrativa inovadora ou mesmo difícil de usar, mas que o escritor soube dominar muito bem. Mas a verdade é que depois de um tempo como leitor, ter os três elementos combinados vai se tornando algo cada vez mais raro, e é por isso que enquanto lia O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe (agora com maiúsculas!), já o fazia pensando que era livro para entrar fácil nos favoritos do ano. Sim, todos os elementos estão ali. E sim, se você como eu também se apaixonou por A máquina de fazer espanhóis, deve correr atrás sem perder tempo – vale a pena até furar aquela sua interminável lista de leituras pendentes, acredite.

O enredo encanta porque, embora melancólico, é de uma doçura surpreendente. Temos inicialmente um pescador chamado Crisóstomo, que ao chegar nos 40 anos se dá conta que por conta de fracassos na vida amorosa é agora um homem sem filho. E ele realmente acredita que um filho o tornaria completo, tiraria dele uma tristeza na qual mergulhara. “Via-se metade no espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausência e silêncios como os precipícios ou poços fundos“. Sai então procurando alguém que o aceite como um pai, para encontrar Camilo, metade como ele que com Crisóstomo forma algo inteiro, completo. Até que o menino sugere ao pai que busque uma mulher, para que seja o dobro.

Parece extremamente singelo e na realidade o é, e por isso é tão encantador. Valter Hugo Mãe pega um pedacinho da vida de personagens comuns, de vontades e sonhos tão comuns e conta uma história que ganha a empatia imediata do leitor. Você deseja que Crisóstomo seja feliz, assim como as pessoas que orbitam ao redor da personagem. Não são pessoas boas ou más, são apenas pessoas, e nisso está seu melhor aspecto. Mas como disse, não é só o enredo que agrada. No caso da estrutura narrativa, por exemplo, Hugo Mãe lança mão de um artifício muito interessante para nos prender à história e, mais do que isso, conhecermos suas personagens.

É algo um tanto parecido com o que Jennifer Egan faz em A visita cruel do tempo: cada capítulo foca em determinada personagem, como fosse peça de quebra-cabeça que o leitor vai montando aos poucos, tendo uma visão completa da história apenas quando termina o livro. Digo “um tanto parecido” porque o autor não muda foco narrativo ou gênero textual como Egan faz. É a mesma voz do narrador, que vai contando uma história que tem Crisóstomo como centro, e as personagens que se relacionam com ele direta ou indiretamente aparecendo aos poucos. Vemos Camilo chegando na vida do pescador, para no capítulo seguinte termos a história do nascimento de Camilo. Então temos a Isaura, Antonio e assim segue, cada qual chegando e completando o quadro que virá a ser a vida do protagonista.

E o genial disso é que de certo modo a narrativa copia justamente uma ideia de Crisóstomo sobre a solidão ou os relacionamentos com outras pessoas, que é o tema principal do livro. Diz a certa altura a personagem: ” (…) todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver uma pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e gere cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa para pessoa, que nunca estaremos sós.

Então chega o terceiro ponto alto de O filho de mil homens, as ideias. Como já havia acontecido durante a leitura de A máquina de fazer espanhóis, durante a leitura desse livro eram frases e mais frases pedindo para serem grifadas, às vezes nem tanto pelo que diziam em si, mas pela beleza como era dito. Valter Hugo Mãe faz uma prosa com tom de poesia, cheia de imagens belíssimas como da tristeza sendo representada com a pessoa caindo dentro de si, de quando Isaura e Antonio sentam no sofá com Crisóstomo ou mesmo do pescador sentado ao lado e Isaura em frente ao mar. São pequenos quadros que aos poucos vão montano um belíssimo painel, que nos mostra bem isso: nunca estamos sós.

Livro belíssimo, em todos os sentidos que a palavra pode ser aplicada para uma obra. Agrada o leitor que busca o prazer estético de um grande romance em mãos, mas também aquele que quer apenas se deleitar com uma história simples e doce, sem ser piegas. E que permanece na memória mesmo após a leitura, deixando aquele gostinho de saudades de personagens tão boas.

O filho de mil homens
Valter Hugo Mãe
256 Páginas
Preço sugerido: R$39,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Cosac Naify

Advertisements

11 thoughts on “O filho de mil homens (Valter Hugo Mãe)

  1. “(…)vale a pena até furar aquela sua interminável lista de leituras pendentes, acredite.”

    Opa. Então o trem é bão.

    Correndo atrás já.

  2. De tudo que falam do valter hugo mãe, e dessas capas da Cosac que eu acho o máximo, pelo jeito eu vou acabar comprando… Acho que vou começar com esse livro; gosto do nome Crisóstomo.

    1. Agora ele já está escrevendo o nome com letras maiúsculas hahahhaa

      Olha, vale a pena, sim. Dá gosto saber que tem alguém produzindo literatura de língua portuguesa tão boa assim.

  3. Olá, sou português e já tive o prazer de ler todos os livros de VHM. O seu comentário “descobre” o poeta e eu recomendo os seus livros de poesia. Quando um poeta resolve prosar, o resultado é esse: “as frases ficam pedindo para serem grifadas”, como voce diz, muito bem. Disfrutem que ele anda por aí….

  4. olá, aqui vai uma sugestão em jeito de aperitivo: procura no Youtube “Regina Duarte escolhe Valter Hugo Mãe”. É mesmo, a vossa Regina já o descobriu e diz um poema seu.
    MM

  5. Oi, Anica. Amei esta resenha do livro. Ainda não conheço Mãe, apesar de já ‘acompanhar’ seu trabalho por conta de tanta projeção. Eu tenho um defetinho de fábrica que é implicar levemente com autores de livros que ganham tanta repercussão (sei, isso é feio), mas estou tentando mudar esse (pre)conceito. Este teu texto me enterneceu a tal ponto que, como diz, vou furar minha lista de leituras pendentes (já a furei indiscriminadamente mais de duas vezes este ano).
    Parabéns e abraços apertados.

    1. Oi, Aline! Sabe que eu tenho o mesmo defeito de fábrica? Mas comigo funciona com filmes e bandas, hahaha. Por exemplo, já estou quase pegando birra de Os Vingadores, de tanto que estão falando dele.

      Se ler algo do Mãe depois volta para dizer o que achou =D Eu sei que tem momentos que ficamos com o pé para trás por causa de muita badalação, mas no caso dele posso garantir que não é por nada: ele realmente tem talento e merece todo o bafafá. Agora quero até seguir a sugestão do Manuel Marques aqui dos comentários e ir atrás da poesia dele ^^

  6. Passei vergonha na fila do banco…
    Dei uma gargalhada quando li o trecho: “Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas”. (p. 68, 69)

    1. Hahahaha, muito bom esse trecho, Silvia! E comigo isso acontece direto, especialmente no ônibus. No começo eu ficava preocupada “o que vão pensar?”, hoje em dia nem ligo. Inclusive não só para gargalhadas, mas para chorar também (sim, sou meio manteiga derretida).

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s