Shakespeare escrevia por dinheiro: Contém spoilers

Confesso que sempre achei um pouco de frescura esse cuidado que algumas pessoas têm com spoilers. Pensava assim porque pessoalmente nunca me incomodei em saber antes quem morre no final ou qual o graaaande plot twist armado para a história. Deixando a coisa de um jeito mais claro, sempre fui do time que acha mais importante o como se conta uma história, e não a história que se conta – então saber de alguma surpresa ou do desfecho em si não era algo que realmente estragasse a experiência de leitura. E pelo uso do passado nas frases acho que deu para perceber que tenho mudado minha opinião, certo?

A verdade é que de uns tempos para cá tenho me dado conta de como alguns elementos do enredo são vitais para o efeito que causa no leitor. Quando falei de Não me abandone jamais, por exemplo, fiz questão de já no começo alertar as pessoas que ainda não tinham lido que só voltassem para meu post depois. Porque eu queria que elas tivessem a mesma sensação que eu tive (ou pelo menos algo próximo disso), de ter um livro se transformando completamente em suas mãos: você achar que era uma coisa, descobrir que era outra e ficar completamente pasmo durante o resto da leitura por ver como o autor vai conduzindo aquela bomba que ele largou no seu colo como se tivesse falado do tempo.

E eu estou comentando sobre spoilers este mês porque por duas vezes repensei a questão enquanto lia livros agora em abril. A primeira foi enquanto lia The Perks of Being a Wallflower. Cismei de tal modo com a personagem que queria saber se mais leitores estavam tendo a mesma impressão que eu sobre ele, e lá fui eu consultar o sr. Google. Bem feito para mim, acabei descobrindo coisa sobre o enredo antes de ler. Se você me perguntar “Mas isso estragou o livro para você, Anica?”, a verdade é que não, não estragou – adorei mesmo, tanto que me curou da minha Depressão pós-leitura. O problema é que a partir do momento que fiquei sabendo de algumas coisas sobre o enredo, passei a julgar determinadas personagens de modo diferente. E pelo discurso do narrador, fica óbvio que ele NÃO QUER que eu julgue a personagem daquele jeito antes da hora.

Aí que no final das contas eu deixo de ser o leitor modelo que o Umberto Eco descreve lá em Seis Passeios Pelos Bosques da Ficção (recomendo muito a leitura, mesmo!). O conceito é mais ou menos assim: um autor quando escreve um livro sabe que por conta da pluralidade que é o processo de interpretação de texto, não conseguirá passar exatamente as mesmas sensações ou ideias que gostaria para seu leitor. Ele pode tentar programar o leitor para isso, mas ele não pode controlar uma Anica sem noção que vai pesquisar sobre o livro no Google antes de terminar a leitura. Então disso Eco cria a ideia do leitor modelo, que seria, trocando em miúdos, o modo ideal de receber uma obra, na concepção do autor. Friso para na concepção do autor, porque né, cada um recebe do jeito que acha melhor.

Mas eu acabo me sentindo mal quando percebo que estraguei a experiência proposta para aquela leitura. Por isso acabei alertando meus leitores sobre os spoilers de The Walking Dead: A Ascensão do Governador, quando normalmente não faço isso (lembrem, eu achava que spoilers eram frescura). Porque há realmente informações que mudam sua visão sobre personagens e, mais ainda, sobre a narrativa como um todo. E são tão importantes que não tinha como eu deixar de comentar, por outro lado quis dar a opção de quem ainda não leu continuar sem saber daquilo. Mas quem escreve sobre livros por aí sabe como se trata de um terreno bem perigoso, quase um campo minado. Até porque, de novo, a pluralidade das interpretações acaba fazendo que o que eu ache relevante não seja para você e vice-versa.

Na faculdade eu tive uma professora que começou uma disciplina sobre Guimarães Rosa já falando “E não me venham dizer que eu não posso falar sobre Diadorim aqui!” – quem tinha lido Grande Sertão: Veredas caiu na gargalhada, quem não leu fez cara de “Heiiim?” e deve ter entendido a piada depois. Estou lembrando disso agora por causa da lista da Raquel Toledo, que sim, contém spoilers. E aí eu chego naquele momento em que ainda fico meio dividida. É evidente que a natureza de Diadorim é relevante e deixamos de ser leitores modelo quando temos informações sobre isso antes de ler o romance de Rosa. Por outro lado, fico pensando se saber isso é o tipo de coisa que estragaria uma obra tão genial. É quase como reduzir todo o trabalho do Rosa à Diadorim. E Grande Sertão não é isso.

É tipo dizer que Star Wars só é legal (oi, trilogia clássica, por favor) porque foi uma surpresa descobrir que Luke era filho do Vader. Ou que saber o que era Rosebud tira a graça de Cidadão Kane. Não é por aí. Obras boas sobrevivem mesmo que seus plot twists sejam revelados – vide justamente o caso de Grande Sertão. A questão não é estragar a qualidade da obra, mas tentar manter-se o mais próximo possível do leitor modelo proposto pelo autor.

E desculpem, sem gifs este mês.

Livros lidos: The perks of being a wallflower (Stephen Chbosky), O horror de Dunwich (H.P. Lovecraft), O Retrato (Nicolai Gogol), Crash (J.G. Ballard), A Magia da Realidade (Richard Dawkins), Abraham Lincoln Caçador de Vampiros (Seth Grahame-Smith), The Walking Dead: A Ascensão do Governador (Robert Kirkman, Jay Bonansinga), Retrato de um assassino (Patricia Cornwell).

Leituras em andamento: O filho de mil homens (Valter Hugo Mãe), Our Mutual Friend (Charles Dickens).

Livros que chegaram: Retrato de um assassino (Patricia Cornwell), O filho de mil homens (Valter Hugo Mãe), O circo da noite (Erin Morgenstern), As virgens suicidas (Jeffrey Eugenides), O Diabo e Sherlock Holmes (David Grann).

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21 thoughts on “Shakespeare escrevia por dinheiro: Contém spoilers

  1. Adorei o texto!
    Confesso que às vezes(às vezes não, pô – sempre) sou muito curioso e acabo me prejudicando com isso tbm, hehe
    Até essa do Diadorim eu já fuchiquei por aí pela net e achei infos – e isso que eu nem li o livro ainda, haahahah
    Eu juro que tenho tentado me comprometer mais com uma leitura(ou também ,em outros casos, com um filme, por exemplo) e conhecer a obra a partir dela mesma, sem saber de nada antes – sei, lá, mas acho isso importante, quando consigo realizar tal feito – o que é muito difícil, hehe
    Ou então, no mínimo, não procurar nada além da simples sinopse pela qual me fez ficar interessado por um livro XD

    1. Oi Gabriel, obrigada =D

      Isso de não saber absolutamente nada de um livro é bem difícil para mim. Preciso daquele “Tá, mas pq vale a pena ler?”. Mas eu sou pior com isso sobre filmes. Filme que eu não faço ideia sobre o que se trata não rola, dá 15 minutos e eu já parei de prestar atenção. Por outro lado, tem vezes que já sei até o que vai rolar (tipo Soylent Green) e aí vou até o fim, de olhos grudados na tela.

      1. hehehhe.
        no meu caso é diferente… com filmes eu faço mais questão ainda de assistir “às escuras”… pq tem alguns que eu acabo procurando muito sobre, e parto pra opiniões e resenhas – aí às vezes me prejudica no sentido de ter minha própria concepção da obra… ainda mais se for um Kubrick, por exemplo 🙂
        Ah… mas cada qual sabe seu modo, né?
        No caso específico do seu texto – quando sei de spoiler, apesar de evitar, não deixo de ler o livro por causa disso. E, ao contrário, consigo, mesmo depois de saber o que acontece, sentir a emoção que sentiria se não soubesse – até pq, com vc disse, se o modo como a história for contada for boa, o leitor ainda se surpreende com o tal spoiler!

  2. Já falei várias vezes isso, mas sempre vale repetir: spoiler me dá vontade de ler o livro. Se eu fiquei sabendo de algo sobre ele que me surpreendeu, vou querer ler ele todo. Pra mim spoiler não estraga a surpresa, só é uma “surpresa adiantada”, não significa que eu não vá gostar dela depois, lendo a história, vendo o filme, etc… É fácil pra eu até esquecer o que já sabia que estava por vir por estar envolvida com o livro, se ele for realmente bom.
    Mas né, não vou ser estraga prazer de quem se importa por isso, então prefiro não ficar contando tudo por aí, só quando for estritamente necessário =P

    1. Poisé, eu também tento evitar os spoilers nos meus textos mais em respeito aos leitores – assim, euuu não ligo, mas vai que tem leitor que liga, né. Melhor dar a opção e escolha, aí no mínimo avisando quando virá um spoiler.

      Eu esqueci de linkar no texto, mas lembro de uma pesquisa que saiu ano passado revelando que pessoas se interessam mais por uma obra quando sabem dos spoilers. Achei algo bem interessante, até pq na minha opinião tem a ver com isso que você falou, de que se tem algo que surpreende vc quer saber o todo.

  3. Eu, na qualidade de apontador alheio de spoiler (O RLY?) no artigo da Raquel Toledo, devo dizer que só sabia dessa porque a Bruna Lombardi fez o papel na minissérie – que eu nem cheguei a assistir. O resto inferi pelo que falavam do livro. 😀

    1. Tem isso, né, uma geração inteira sabe de Diadorim pela série hahahaha Sobre Diadorim eu confesso que fico um tanto dividida. Gostaria de ter tido a oportunidade de ler o livro sem saber disso, por outro lado não fosse a a aula que tive com um professor da faculdade (outro, não a que comento no texto) eu provavelmente não teria me interessado pelo livro, e ele falou de um modo apaixonadíssimo do livro todo, mas da Diadorim falou meio como se fosse falar do tempo (do tipo “isso nem é importante”).

      Aliás, professores de literatura = contadores de spoilers hahaahah

  4. Boa análise 😀

    Eu prefiro não saber dos spoiler, o meu problema é que se eu souber, por exemplo, que fulano X morre, vou ficar a obra inteira esperando pela sua morte. Daí, eu fico nessa expectativa e ñ aproveito o livro 😦

    Mas, confesso que em alguns casos eu até leio o spoiler, mesmo sabendo q é, essa tal da curiosidade sabe hehehe

    1. sobre isso de ficar esperando um evento acontecer, tem outra coisa que comentei uma vez no fórum valinor: qdo falam de uma atitude que é contrária a que uma personagem tomaria. usando o exemplo do snape (hahahaha). sempre foi minha personagem favorita do harry potter, mas vá lá, a redenção só vem no fim. e eu que ainda estou no quarto livro já fiquei sabendo disso, então toda vez q leio uma passagem do snape penso “ok, tem justificativa esse comportamento dele” hahahaha mas de novo: não é o que me fez empacar na leitura da série. empaquei pq achei o quarto livro chatinho mesmo =S

      1. Só que no caso do Snape já notamos que há algo de diferente nele. Claro que só vamos saber dos seus reais motivos lá pelo sexto livro, mas até então a personagem não deixa clara suas intenções, o que faz com que o leitor fique com o pé atrás antes de chamá-lo de mocinho/bandido.

        (SPOILER)
        Mudando de pato pra ganso, a gente nota essa mudança súbita do caráter da personagem em “Casablanca” com o Renault e o Ferrari. Aí sim eu diria que não faria muito sentido a personagem agir diferente da forma como vinha agindo até então. Mas o Snape se salva, sim. 😀

  5. Será que não dá para fazer uma separação entre dois tipos de spoilers?

    1. Os “Estraga-fodas”, que acabam com o tesão ou mudam o jeito do leitor ler o livro, ou de ver o filme.

    2. E os spoilers-convite, que assim como a Taizze disse causam mais curiosidade sobre a obra.

    A revelação do Snape de fato muda a narrativa, assim como o desfecho de alguns filmes – que neste caso estragam mesmo o filme,

    1. Eu ainda acho que se chega ao ponto de “estragar” um livro/filme então o livro/filme não era realmente bom e eu não vou perder nada deixando de ler/assistir. Porque se basear num negócio só para ser bom não conta muito favoravelmente, certo?

      E como disse no comentário, o lance do Snape não estragou Harry Potter para mim. O que estragou foi aquele começo arrastado do quarto livro. =F

      1. Concordo. Mas talvez o problema seja maior em filmes, como por exemplo no caso de Sexto Sentido, A chave mestra, Os outros, Precisamos falar sobre Kelvin, Star Wars – Se bem que no caso dos dois últimos o fato de saber o final não tira a beleza e o impacto da obra.

        Isso pode criar um dilema. Ler spoilers para saber se vale a pena ler/assistir ou ler/assistir e descobrir se valeu a pena o risco da surpresa?

  6. Eu sou daquelas leitoras neuróticas que fica fuxicando o livro todo antes de terminá-lo e com isso descubro tudo. E olha… Isso me faz aceitar o final de muitos livros mais rapidamente do que se eu lesse como uma “pessoa normal”. Acho que spoiler ainda não me incomoda no final das contas. Só que no caso de Never let me Go realmente não vou procurar, rs.

  7. Eu não tenho muitos problemas com spoilers. Principalmente os bombásticos. Eu fico bastante curiosa em ler como o autor consegue chegar e trabalhar o tal do plot twist. O tal dos comos e porquês me atraem muito mais que o spoiler. Mas sei que não sou maioria na questão e evito colocar spoilers nos meus textos, porque algumas coisas são bem mais impactantes se vc não souber antes…

    Já com filmes, quanto menos eu souber, mais eu aproveito..

  8. hahahaha Anica, tive um professor na faculdade que falava a mesma coisa: “não me venham com essa de que não posso contar o fim. Todo mundo já sabe. Clássico é assim, mesmo sem ler, você já sabe tudo”.
    Faz sentido. O livro passa por tantos caminhos, como série de tv, como dito aí, quadrinho, peça de teatro, crítica, ensaio, filme… que fica impossível não saber como as coisas vão andar… mas, exato, será que isso é o mais importante?
    No caso do Rosa, acho que não. Mas em textos ainda menos “na boca do povo”, talvez deixar alguns segredos para o autor seja uma ideia boa.

    Adorei o texto, Anica!
    Beijocas.

  9. “você achar que era uma coisa, descobrir que era outra e ficar completamente pasmo durante o resto da leitura”

    acontece em alguns inqueritos e processos hahah. um dia escrevo um roteiro baseado num.

  10. Ah eu concordo, tudo depende se tratando de spoiler, gosto em certas situações, nesses casos eu procuro por ele ou pergunto, mas não gosto quando contam tudo sem avisar sobre algo que pretendia assistir/ler, principalmente quando já até adquiri.

  11. Excelente texto!
    Eu detesto spoilers, porque dependendo do livro, fico imaginando a história na mente e quando chego lá, não é aquilo que eu imaginei e eu meio que me frusto. É como se eu criasse uma expectativa oposta à realidade. Isso acontece especialmente com trilogias…
    E dependendo da revelação, o autor faz ela de um jeito que para o leitor, é um BOOOM. Mas, se tu já saberes, aquele BOOOM não vai ter aquela graça que teria… Tem gente que diz que é frescura minha isso, mas…
    Claro, que alguns spoilers me fazem eu querer ver como o autor chegou a tal caso, como a Kika disse, mas depende de cada caso…

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