A morada final dos escritores: Paris

Na cabeça de muitas pessoas simplesmente não há explicação para o que leva uma pessoa visitar o túmulo de alguém quando esse sequer é um parente, mesmo que distante. Para prestar homenagens? Pode ser, alguns dirão. Outros que é simplesmente para matar um tipo de curiosidade (sem intenção de trocadilho aqui). De qualquer forma, é um hábito bastante comum de turistas incluírem em seus passeios uma volta por cemitérios com habitantes “famosos”, o que dá origem até a pequenas tradições ou lendas (e dores de cabeça para os responsáveis por preservar os túmulos). Mas algo que é indiscutível é como um lugar que aparentemente não traz mais do que pedras com nomes e datas gravados contém em si tanta história.

Para os amantes da literatura pode ser um passeio bastante inusitado e ao mesmo tempo interessante. Um contato com marcas deixadas por outros fãs, ou mesmo uma forma de saber um pouco mais sobre certos autores. Porque há lugares que sim, os mortos falam. Se você é um sortudo que tem viagem marcada para Paris ou Londres em breve, seguem aqui algumas sugestões de cemitérios com alguns mortos literários ilustres.

Père-Lachaise: Não dá para falar de cemitérios com celebridades literárias e não falar de Père-Lachaise. É lá que se encontra o famoso túmulo de Oscar Wilde, que agora se encontra protegido porque até o ano passado era tradição entre os fãs deixar marcas de beijos em suas paredes (além de frases que vão desde declarações de amor ao escritor até simplesmente citações de obras famosas). Se você entrar pelo portão da Av. Du Père Lachaise, o túmulo de Wilde fica logo ali perto.

O túmulo de Wilde antes de receber a proteção (clique na imagem para ampliá-la)

A poucas quadras dali é possível visitar o túmulo da escritora Gertrude Stein e de sua companheira Alice B. Toklas. Aliás, a curiosidade é que na lápide, ao olhar na frente, você vê o nome de Stein, e atrás o nome de Toklas. Os visitantes costumam deixar uma pedra sobre ele quando passam por ali.

Gertrude Stein (clique na imagem para ampliá-la)

Tomando o túmulo de Wilde como referência e seguindo na direção da entrada principal, para a esquerda há uma série de escritores franceses cujos nomes fazem qualquer amante da literatura suspirar. Proust, Balzac, Nerval e Apollinaire. Saindo do túmulo de Nerval e pegando a Av. Transversale Nº1, dá para chegar aos túmulos de Moliére e La Fontaine, tão grandes e pomposos se comparados com o de Apollinaire, por exemplo, que já dá para ter uma ideia do respeito que os franceses tem por esses dois escritores.

Moliére (clique na imagem para ampliá-la)

MontparnasseConsideravelmente menor do que o Père-Lachaise, mas ainda assim com algumas figuras bastante ilustres. Samuel Beckett, escritor irlandês, viveu bastante tempo em Paris, e foi enterrado lá. Para se ter uma ideia da relação de Beckett com a França, acredito ser suficiente dizer que uma de suas peças mais famosas, Esperando Godot, foi escrita originalmente em francês e só depois traduzida pelo autor para sua língua materna, o inglês.

Samuel Beckett (clique na imagem para ampliá-la)

Lá também se encontra o túmulo de Sartre, aparentemente bastante visitado: há sempre flores, pedras e objetos variados sobre o túmulo do filósofo e escritor francês, incluindo pedaços de papéis com mensagens escritas para ele (li uma que perguntava “Sartre, o que é o nada?”). O poeta Baudelaire também está lá, e tem inclusive uma construção dedicada a ele próxima a um dos muros do cemitério.

Monumento dedicado a Baudelaire (clique na imagem para ampliá-la)

PanteãoPara quem não gosta da ideia de visitar um cemitério, há a opção de conhecer o Panteão. O monumento começou a ser construído em 1764, e lá estão enterrados os grandes heróis franceses, incluindo aí inúmeros escritores.  Voltaire é um caso interessante: quando morreu não teve o enterro que merecia, mas anos depois seu corpo foi levado para o Panteão. Também estão lá Alexandre Dumas, Émile Zola e Victor Hugo. Cabe dizer que a construção por si só já vale uma visita e que, é evidente, as “homenagens” que os fãs prestam em cemitérios comuns (como deixar flores, pedras e afins) não acontecem aqui.

Victor Hugo e Alexandre Dumas (clique na imagem para ampliá-la)
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18 thoughts on “A morada final dos escritores: Paris

    1. eu acho um tipo de passeio muito legal. dependendo do cemitério, é quase como visitar um parque – é um lugar bonito, calmo. e aí ainda tem o extra da carga histórica do lugar. mas q tem gente q me olha esquisito qdo digo que fui visitar cemitérios em paris, tem hehehe

      (isso sem falar das catacumbas, que não citei aqui pq o único famoso que lembro que está lá é o lavoisier)

  1. beijar um túmulo ? credooooooo prefiro colar uma marca do meu beijo com fita crepe kkkkkkkkk
    mas adorei o texto seu maravilhoso

    1. é, eu não cheguei a beijar, não. deixei um bouquet de girassóis para ele e foi só (e foi mó difícil sair carregando aquelas flores no metrozão hehehehe)

      e obrigada pelo elogio ao texto ;D

  2. Muito bom post =D
    Outro lugar que eu acho lindo, e que é famoso por seus túmulos, é o Mosteiro dos Jerônimos, em Portugal. Vasco da Gama, Camões, Garrett e Pessoa são alguns dos nomes que repousam ali… Um conhecido meu foi lá e tirou algumas fotos pra mim (acho isso um pouco estranho, pedir fotos de tecnicamente túmulos) de alguns monumentos, e o do Pessoa ficou muito bonito.

    De todos esses, o que mais gostei foi o do Molière. Ele tem o formato de um palco, com máscaras penduradas ao lado e apenas as folhas caídas como espectadores.

  3. Visitei os três e os três já valem pela caminhada, pois são lugares lindos. Mas passei a maior vergonha chorando de soluçar na frente do túmulo de Alexandre Dumas no Panthéon

    1. Eu achei estranho o túmulo do Oscar Wilde, aquela estátua e fora a beijação, tomará que pare aí neh XD

      Os lugares são bonitos, não parecem com cemitérios, ñ sei, é q os cemitérios em q fui, não tem árvores e é cheio de túmulos com mais cheio tipos de cores,flores e frufrus..
      Essas são mais harmonizados e arborizados, fica gostoso passear mesmo. Poxa deve ser uma sensação boa-estranha de ir poder ver seu escritor no túmulo em Paris!
      Alguns são até um templo neh
      bem legal ^^

  4. Todas as sugestões anotadas por aqui Anica, muito bom o post.

    O Voltaire e o Rousseau também estão por lá, os dois no Panthéon, salvo engano. O que eles pensariam disso é algo bastante divertido de se pensar, já que eram adversários em vida, hehe.

    1. Sim, o Voltaire e o Rousseau estão lá. Eu falei do Voltaire no post ;D Queria lembrar de uma frase que fizeram em um monumento para ele, mas agora não consigo nem lembrar onde está o monumento, que droga. Era uma frase muito linda. =/

      1. Ops…devo ter passado batido.

        O Rousseau também não foi originalmente enterrado no Panthéon, ele foi enterrado em Île des Peupliers, na Picardia; e só depois, se não me engano durante a República Jacobina, que ele foi levado para lá.

      2. A República Jacobina não aconteceu em um período que abrangia o começo da década de 1790? Porque a construção do Panteão foi concluída nesse momento, o que explicaria o momento da transferência do corpo do Rousseau. De qualquer forma, eu acho que a ironia é maior no caso do Voltaire, que não pode ser enterrado como cristão (o que na época era a big deal, convenhamos) e depois foi enterrado lá com todas as honrarias.

      3. é que lá é um monumento ao Estado Laico, em princípio não ligado a religião. Uma das coisas que a Revolução queria abolir era exatamente a religião.

  5. Kika, acho que vc não entendeu o que eu quis dizer, a questão não é a religião, pelo menos não *só* a religião. Mais do que um monumento ao estado laico, o Panteão é um monumento aos grandes homens da França. “Aux grands hommes, la patrie reconnaissante”, certo? A ironia eu acredito que se construa a partir desse reconhecimento. Um sujeito que foi enterrado secretamente em uma pequena cidade francesa, depois tem um cortejo acompanhado por milhares de pessoas quando é enterrado no Panteão em Paris. =]

    1. o que eu quis dizer é que este monumento aos grandes homens feito durante a Revolução Francesa tinha como um dos objetivos exatamente homenagear a ciência, independente da religião. O cortejo funebre pomposo é mais por causa de Voltaire ser reconhecidamente um heroi de dita Revolução, assim como o Rival Rousseau (e estão frente a frente ali). É um curtíssimo período de tempo no qual para os franceses o que mais valia era não ser cristão mesmo.

      Mas entendi a ironia agora…

      1. De fato, a República Jacobina (1792-1795) teve como uma das principais medidas uma ação descristianizadora. O Robespierre mesmo procurou fomentar a construção de Templos da Razão, dedicados não às crenças cristãs, mas à ciência e à razão, como a kika disse.

        Na época também se espalhou o culto ao ser supremo, uma espécie de arquiteto e construtor do mundo, mas cujas características e cujo culto se distinguiam bastante dos cultos cristãos. É bastante interessante a forma como se conjugaram e se influenciaram reciprocamente as questões religiosas e políticas no processo revolucionário.

        Criou-se ao longo do governo jacobino um sentimento patriótico forte, inclusive como expediente de resistências às investidas estrangeiras, que queriam derrubar o governo republicano. Nesse período, os conceitos de revolução e pátria se conjugaram, proteger uma era lutar pela outra. Havia até os mártires da liberdade (que também se conjugava com pátria e revolução) entre os quais também estava Marat.

      2. bah, eu adorava minha professora de história, mas depois desse comentário queria ter tido aula com vc… hehehe

      3. Fico feliz que tenha gostado! 🙂

        Se tu te interessas por esse assunto (e creio que o faças), procure os livros do Michel Vovelle, em especial um intitulado ‘A Revolução Francesa contra a Igreja – Da razão ao Ser Supremo’ É muito legal ver como essas questões religiosas revelam as peculiaridades da França e dos franceses e o caráter realmente revolucionário dos eventos de 1789.

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