Retrato de um assassino (Patricia D. Cornwell)

Poucos criminosos mexeram tanto com o imaginário popular quando Jack, o Estripador. Por conta do fato de que sua identidade nunca foi descoberta, coube à ficção tentar desvendar os crimes que ocorreram em Londres no final da década de 1880. De romances até HQs (vide o caso de Do Inferno, de Alan Moore), com uma passada óbvia pelo Cinema, histórias e mais histórias foram contadas, baseando-se em diversas teorias a respeito da identidade do famoso serial killer. Um médico influente, um membro da realeza britânica. Muitos foram apontados como suspeitos, mas considerando o que era o trabalho de investigação naqueles tempos, a verdade é que fica difícil sair do campo das teorias de conspiração. Pelo menos até recentemente.

Há 10 anos a autora de best-sellers policiais Patricia Cornwell resolveu investigar o caso aplicando a metodologia moderna, o que inclui entre vários detalhes a análise de amostras de DNA e digitais. E a partir disso ela afirma categoricamente que sim, ela sabe a identidade de Jack, o Estripador. O livro Retrato de um assassino busca mostrar o que foi que ela descobriu com suas investigações, justificando porque seu suspeito, no final das contas, é o Estripador (e também porque isso foi mantido em segredo até os dias de hoje).

Embora ao escrever policiais Cornwell busca a fórmula básica de só revelar a identidade do criminoso no final, neste que é seu primeiro livro de não-ficção não há mistério. Desde o início ela diz que Jack é o pintor Walter Sickert. A obra começa apontando a vida de Sickert do começo até o momento dos crimes, explicando qual era a razão da raiva que sentia das mulheres – que chegou ao ponto de cometer os crimes que cometeu. Explicado o motivo, Cornwell passa então a descrever as vítimas, e embora divida os capítulos de modo a evidenciar os cinco assassinatos ditos “canônicos”, em determinado momento ela aponta que não foram apenas cinco, chamando a atenção inclusive para um livro de registro de um hospital da região em que Jack atacava que apresentava um número grande de pessoas que tentaram o suicídio cortando o pescoço. Cornwell sabe que na falta de arma de fogo esse era um método comum de praticar o suicídio na época, mas questiona quantos casos podem ter sido assassinatos quando foram classificados de suicídio.

As principais evidências que Cornwell aponta são uma amostra de DNA coletada do selo de uma carta enviada pelo Estripador, a marca d’água de papéis de carta usadas por Jack e por Sickert e alguns quadros pintados por Sickert que revelam uma mórbida semelhança com as vítimas do Estripador. Há ainda uma série de coincidências, que vão desde o nome artístico adotado por Sickert quando ele era ator até o fato de o pintor contar para os amigos que um de seus estúdios ficava em um quarto que fora utilizado por Jack.

Uma rápida pesquisa no Google revela que em dez anos muitas pessoas já apareceram para contestar as teorias de Cornwell. E aí entra a questão: mesmo que você não acredite na ideia de Sickert como assassino, ainda assim a leitura terá valido a pena, por conta do trabalho envolvendo pesquisa e reconstrução da Londres vitoriana. É uma verdadeira aula de História, mostrando como era a polícia naqueles tempos, ou ainda, como era o trabalho de um legista. A reconstituição dos crimes chega a ser arrepiante: a autora lembra o papel da iluminação da cidade naquele período, de como mesclada à neblina produzia a atmosfera perfeita para que Jack agisse sem que fosse pego. É realmente muito envolvente, e tão gostoso de ler que dá até para esquecer que é um “não-ficção”.

Algo que chama a atenção além do estilo de escrita de Cornwell é o fato de que ela usa muito material que só ficou conhecido recentemente. Algumas cartas de Jack, um caderno de recortes de Abberline, certas fotos das vítimas. Há muita coisa que ficou escondida do público, o que pode ter ajudado a perpetuar conceitos que ela considera errados, como o fato de acharem que para retirar o útero de uma vítima Jack deveria necessariamente ser um médico (já que saberia de onde extrair o órgão).  Como dá para perceber, ela realmente foi fundo no mistério, tão fundo que há quem a acuse de ter destruído quadros de Sickert para coletar amostras de DNA (embora a autora negue isso).

O livro conta com algumas imagens, como fotos das vítimas e cartas do Estripador. Infelizmente (por motivos óbvios) a entidade responsável pelos direitos de reprodução de cartas e obras de Sickert não autorizou a reprodução desses itens no livro, coisa que teria enriquecido enormemente a leitura. Mas acredite, ele desperta de tal forma a curiosidade do leitor que a cada descrição de quadro fui correndo para o Google pesquisar para acompanhar os detalhes apontados por Cornwell. Uma pena que nem todos sejam fáceis de encontrar (Patrol, por exemplo, que alguns entendidos em Jack, o Estripador dizem ser bastante revelador, eu não consegui encontrar).

Portanto não há dúvidas que é um livro imperdível para quem gosta de histórias policiais, mas também para quem tem interesse sobre a Inglaterra vitoriana. O trabalho de Cornwell pode não ser a resposta definitiva (e haverá algum dia?) para o mistério de Jack, mas indiscutivelmente vale a leitura, até porque com Retrado de um assassino Cornwell deixa claro que de fato, a realidade é mais estranha do que a ficção.

Retrato de um assassino
Patricia Cornwell
Tradução: Manoel Paulo Ferreira
392 Páginas
Preço sugerido: R$70,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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4 thoughts on “Retrato de um assassino (Patricia D. Cornwell)

  1. engraçado que tenho um certo preconceito com essa autora por conta de um livro que eu li sobre o Jack escrito por um brasileiro, o Paulo Schmidt, e talvez por causa do Casebook. Mas sua resenha me deixou interessada…

  2. Kika e JLM, ela é bem criticada pelas teorias dela, e sinceramente eu acho que ela força a barra em algumas ligações que faz entre o Sickert e o Ripper. Mas mesmo que a teoria dela seja inválida, o livro ainda assim é MUITO legal – dá para ser lido como se fosse romance de ficção. E nesse sentido rende um policial dos bons. Sério, eu não conseguia desgrudar do livro, e as imagens que ela cria ao descrever a Londres de 1888 são fantásticas. O livro não é barato, eu sei, então não é exatamente o caso que eu indicaria “Vai lá e compre sem nem pensar”. Mas para quem curte policial eu acredito que dificilmente se sentirá enfadado com o livro. Pode até não concordar com as teorias da Conrwell, mas com certeza vai se divertir muito.

    (Não consegui pensar em uma melhor palavra do que diversão, mas vá lá, não pensem que eu tenho algum prazer mórbido em ler descrições de vítimas retalhadas. É diversão no mesmo sentido de quando lemos um bom policial e curtimos a história)

    1. Nesse ponto o do Paulo tb é indicado. Mas se sobrar um tempinho das minhas leituras, vou buscar o livro da Patrícia, nem que seja para confrontar meu preconceito…hehehe

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