Contos Essenciais: A Igreja do Diabo (Machado de Assis)

Considerando dados da pesquisa do Instituto Pró-Livro (Retratos da Leitura no Brasil), Machado de Assis é o segundo escritor brasileiro mais admirado pelos leitores em nosso país, perdendo apenas para Monteiro Lobato. É uma informação que fala muito, mesmo que o português Fernando Pessoa apareça em 18º lugar na mesma lista. Fala muito no sentido de que Machado de Assis é conhecido do público, portanto dispensa maiores apresentações.  Sim, é o cara da Capitu dos olhos de ressaca. É o mesmo que autor que escreveu Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra citada por pessoas como o crítico literário Harold Bloom e o cineasta Woody Allen. E com tantos romances famosos, é bom lembrar que Machado de Assis era também um excelente contista.

Na realidade é tão bom que chega a ser uma tarefa ingrata escolher um sobre o qual falar aqui nos Contos Essenciais. Quem não leu A Cartomante, Missa do Galo, Um Homem Célebre entre outros, deveria correr atrás de ir conferir. Mas hoje ficaremos com A Igreja do Diabo, que ganha pontos extras por se manter tão atual. É o tipo de texto que poderá ser lido e compreendido (e admirado) durante muitos anos, porque fala do ser humano em sua característica mais básica: a dualidade.

Publicado em 1884 na coletânea Histórias Sem Data, A Igreja do Diabo vem com uma ideia bastante provocadora (especialmente se considerar o período em que foi escrito): o Diabo cansa de só receber “os restos” de Deus por conta de uma má organização do Inferno, e então decide que fundará sua própria igreja. Planeja assim capturar mais almas do que as que vão para o Paraíso, baseando-se principalmente na premissa de que ao contrário do que acontece com Deus, sua igreja não terá divisões, já que “Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

O Diabo vai conversar com Deus e disso vem um diálogo marcado daquela ironia já famosa do estilo de Machado (atenção para Deus chamando o Diabo de “velho retórico”). Argumenta o demônio que com sua Igreja as pessoas seriam elas mesmas, e por isso ele teria mais adeptos. Aqui Machado usa uma metáfora fantástica para retratar a humanidade, do manto de veludo que acaba em franjas de algodão. Ou seja, são todos bonzinhos, mas lá no fundo todo mundo peca. É um ponto para o Diabo, que não está falando mentira com isso.

Porém, colocando o plano em prática, as coisas que nos primeiros anos vão muito bem começam de repente a desandar. O Diabo descobre que alguns fiéis estão “cometendo virtudes” às escondidas. É aí que em nova conversa com Deus ele ouve:  Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Tive a oportunidade de conhecer professores de literatura que sustentam a teoria de que os contos de Machado eram uma espécie de laboratório de ideias para seus romances. Se isso for verdade, A Igreja do Diabo parece casar perfeitamente com Esaú e Jacó, exatamente nesta ideia da dualidade/contradição humana. Por mais que tenhamos Deus e o Diabo no conto, a verdade é que Machado fala dos homens, e não de religião. Ok, é óbvio que a religião é também tema do conto, mas não é o principal. E justamente por lidar de uma condição típica do homem que Machado garantiu um conto que sobreviverá ao tempo.

Para quem ainda não conhece o texto, no site Domínio Público tem uma versão em PDF para download. Sugiro fortemente que não perca nem mais um segundo e vá logo conferir. É um texto curto e delicioso, com aquele humor sutil de Machado que tenho certeza que faz com que no final das contas ele apareça em listas de autores brasileiros mais admirados.

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2 thoughts on “Contos Essenciais: A Igreja do Diabo (Machado de Assis)

  1. Acabei de ler esse conto e ele é, de fato, maravilhoso. A 2ª parte dele possui paralelos fortíssimos com o “Prólogo no Céu” do Fausto de Goethe. Definitivamente maravilhoso esse conto. Uma obra-prima.

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