A Magia da Realidade (Richard Dawkins)

Atualmente a primeira palavra que passa na mente das pessoas ao ouvir o nome Richard Dawkins é “ateu“. Somos assim, maníacos por rótulos que facilitem de alguma forma o reconhecimento do outro. O que é uma pena, porque apesar de sua “cruzada anti-religiosa”, Dawkins é acima de tudo um divulgador da ciência (e, mais precisamente, do pensamento científico). Ele é autor de obras como Desvendando o Arco-Íris, na qual busca mostrar como a ciência não tira “a poesia” das coisas, que fugir dos mitos não é necessariamente algo ruim. Sim, é uma espécie de Carl Sagan, aquela tentativa de mostrar o lado encantador da ciência através de um discurso encantador que mistura ingredientes essenciais para que se cumpra o propósito de chamar a atenção do público para as belezas do pensamento científico: ele é claro, sem que para isso precise usar uma linguagem “inferior” (ou, em outros termos, sem ter que tratar o leitor como um idiota) e possui uma capacidade de argumentação invejável.

E se os adultos podem conferir isso em Desvendando o Arco-Íris, agora chega a vez do público jovem com A Magia da Realidade. Mais uma vez a proposta é falar de ciência fugindo do que seriam os dois fatores que a estragam: o misticismo e a chatice. Já na introdução, quando Dawkins explica os sentidos que vê na palavra “magia”, fica bem claro que não haverá espaço para achismo ou superstições perpetuados ao longo dos anos. A magia da qual ele falará, nas palavras do autor, é a de algo “comovente e estimulante” que nos mostra que é bom estar vivo.

Como obra introdutória a questões das ciências, A Magia da Realidade é muito bom. São diversos temas abordados, passando por evolução, átomos, as estações do ano, asteroides, comprimento de ondas, terremotos, etc. Na maior parte do livro, Dawkins segue um padrão de apresentar crendices sobre o assunto como introdução, para então seguir para o lado científico dos assuntos explicados. O que torna a leitura ainda mais gostosa é que a obra é ilustrada por ninguém mais, ninguém menos do que Dave McKean, artista que ficou conhecido especialmente por sua parceria com Neil Gaiman ao ilustrar as capas da série Sandman. Alguns dos mitos apresentados por Dawkins surgem como “histórias em quadrinhos”, com aquele estilo marcante de McKean. Serve como um complemento, embora aqui eu tenha que insistir que a prosa de Dawkins seria suficiente para prender a atenção do leitor.

Os tópicos abordados mais polêmicos na minha opinião ficaram para o fim. No décimo primeiro capítulo Dawkins responde a pergunta “Por que coisas ruins acontecem?” e no décimo segundo “O que é um milagre?”. Enquanto muito do que era apresentado antes tratava-se de crenças de pessoas que viveram séculos atrás, nesses dois aparece muito de coisas que ainda se pensam (e acreditam) nos dias de hoje (como que coisas ruins só deveriam acontecer para pessoas ruins, por exemplo). Outro também polêmico e que certamente chamará a atenção é o sobre vida extraterrestre (“Estamos sozinhos?”), no qual Dawkins é enfático ao dizer a opinião dele (sim, existem) e então complementa “Mas quem se importa com uma opinião? Não existem evidências.”

E no final das contas, acredito que Dawkins consegue cumprir muito bem a proposta inicial do livro. Apresenta a ciência como algo interessante, encantador. Adoraria que algum professor meu na escola tivesse indicado este livro, embora talvez o apelo à razão fosse mal visto por alguns. É, como já disse antes, uma pena. Porque A Magia da Realidade é livro não só para os jovens conhecerem e se encantarem com o universo científico, mas também para os adultos – até porque se tem algo que fica evidente nesta obra é que não há idade para passar a se surpreender com tudo o que a ciência tem a oferecer.

A Magia da Realidade
Richard Dawkins
Ilustrações: Dave McKean
Tradução: Laura Teixeira Motta
271 Páginas
Preço sugerido: R$54,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

Advertisements

10 thoughts on “A Magia da Realidade (Richard Dawkins)

  1. “Adoraria que algum professor meu na escola tivesse indicado este livro, embora talvez o apelo à razão fosse mal visto por alguns.”

    Ele nem poderia, porque o livro saiu lá fora há apenas dois anos. 😀

    1. Bruce, na boa, acho que dá para entender com a frase que o que eu quis dizer é que eu gostaria de ter a possibilidade de ter lido esse livro na escola. Caso não tenha dado para entender, acho que agora está explicado 😉

      1. Quem sou eu pra dar bronca ou chamar a atenção de alguém, Anica? Aliás, eu amo os seus textos. Não há razão alguma pra eu ter de dar puxão de orelha em você. (Deixo isso pros outros comentaristas, rs).

  2. Gostei do finalzinho da sua última frase… além da rima é memorável!!
    “…não há idade para passar a se surpreender com tudo o que a ciência tem a oferecer.

  3. Dawkins realmente é um dos mais ilustres divulgadores atuais da ciência, e tudo que seja voltado ao público jovem, que contribua ao seu crescimento intelectual, deve ser louvado. Em meio à descefalização que vem ocorrendo com o povo, esse livro é como uma vela no escuro, e deveria, sim, ser uma obra consultada como livro de cabeceira nas escolas do país.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s