Crash (J. G. Ballard)

“É, pois, o grotesco uma das supremas belezas do drama. Não é só uma conveniência sua; é frequentemente uma necessidade.”, escreveu Victor Hugo no prefácio de Cromwell. Ele argumentava que se a arte buscava de alguma forma replicar a vida real, ela não poderia ser sempre bonita, porque a vida tinha seus momentos de luz e de sombra, de belo e feio. Parece óbvio falando assim, mas mesmo autores modernos parecem ter medo de mergulhar de fato nesse outro lado da humanidade. Romances que tenham um conteúdo levemente escatológico são encarados como se houvesse um excesso do autor quando ele buscasse narrar alguma coisa envolvendo partes da anatomia (ou momentos da fisiologia) humana, que no final das contas acontecem todos os dias.

É o tipo de pensamento inevitável quando você tem em mãos um romance como Crash, de J. G. Ballard. Reza a lenda que um editor, ao recusar o manuscrito, disse que o autor era caso psiquiátrico. Com isso já dá para ter alguma ideia de que tipo de livro você pode encontrar com Crash. Já adianto que fácil ele não é. Mas é recompensador, se pensar sobretudo na reflexão que oferece ao leitor, e muito disso justamente no que seria considerado “difícil” na leitura. Ballard realmente parte para o grotesco, buscando na relação do homem com o carro uma metáfora não só sobre a tecnologia em nossas vidas, mas sobre nossas próprias vidas. Mas não espere que ele entregue isso de forma óbvia ou em frases feitas.

A história é narrada por um James Ballard, que após sofrer um sério acidente de carro conhece uma figura para lá de bizarra conhecida como Robert Vaughan. Ballard (o narrador) antes do acidente levava uma vida insossa ao lado da esposa Catherine, chegando ao ponto de achar absolutamente normal ter como parte do jogo sexual a mulher descrevendo histórias extraconjugais. Ballard passa a se interessar por acidentes não só pela excitação sexual que isso causa, mesmo que sua próxima amante seja exatamente a outra pessoa envolvida no acidente de carro que o ferira tão gravemente. Há no narrador a mesma curiosidade mórbida que faz com que as pessoas queiram dar uma espiada quando notam uma ambulância perto de carros batidos na rua. Eu inclusive não sei se é uma informação real, mas já ouvi falar que muitos acidentes são causados justamente por quem passa por outro acidente, perdendo o foco na pista e então colidindo.

Essa curiosidade é o tipo de coisa que obviamente não é incomum. O irônico é que poucos assumem esse interesse em tentar ver o que aconteceu. Pergunte para seus amigos e boa parte dirá “Eu nem olho, passo direto” e outras variações. O fato é que Ballard e Vaughan (e outras personagens que vão aparecendo ao longo do romance) não só assumiam que olhavam, como tiravam daquilo um estranho combustível. Aqui entra a parte que Ballard (o autor) diz na introdução que a obra é uma “metáfora extrema para uma situação extrema“. É evidente que a relação das personagens com os carros é exagerada (e voltando a usar o termo, grotesca). Mas porque serve justamente para desenhar a tal da metáfora extrema.

Se o tema pode ser indigesto para algumas pessoas, o modo como Ballard conduz a narrativa é tão fluido que chega até a ser engraçado quando o narrador te leva para alguma divagação erótica e você lê como se fosse a coisa mais normal do mundo, precisando voltar assim que lembra que não, não é normal. A história começa a partir do evento chave da conclusão do romance, e então segue uma linha a partir do já citado acidente de Ballard, mesclando memórias que envolvam os acontecimentos anteriores e posteriores ao acidente que no final das contas serão justamente os que levarão ao desfecho do livro. É quase como roubar o diário de alguém e ver ali as mais obscuras confusões.

E se você está em dúvida se encara ou não Crash, a melhor sugestão que posso dar é que deixando nossos conceitos e preconceitos de lado, a experiência que ele traz é única. Conseguir extrair o belo do grotesco é para poucos, e Ballard realmente consegue com esse romance. O mais impressionante? Mesmo querendo falar da relação entre homem e máquina em um livro escrito na década de 70, continua perturbadoramente atual.

Em tempo: tem uma adaptação cinematográfica dirigida por David Cronenberg de 1996. Aqui no Brasil ganhou o “belíssimo” subtítulo “Estranhos Prazeres”.

Crash
J. G. Ballard
Tradução: José Geraldo Couto
240 Páginas
Preço sugerido: R$39,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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6 thoughts on “Crash (J. G. Ballard)

  1. quero ler algum assim meio bizzaro tipo este ai ou o Middlesex
    a resenha como sempre só deixa com vontade de ler este ai parabéns ela esta incirvel =)

    1. Puxa, Gilberto, que bom que eu consegui despertar vontade de ler. Fiquei com medo que ao falar do livro como ele realmente é algumas pessoas acabassem desistindo de ler, o que seria uma pena, porque é realmente uma experiência bem legal.

      1. não eu quero ler livros com temas esdruxolos gosto destas variações de cárdapios literários
        mas eu achei a reseha leve

  2. Esperando conseguir um tempo – e a boa vontade da Companhia das Letras de baixar o preço dos livros do Ballard – para poder ler “Crash”. Quando li “Corrida Selvagem” fiquei mesmo com essa impressão: a necessidade de exagerar para criar uma metáfora extrema. Contudo, acho que por vezes ele critica nossa incapacidade de absorver ou de sentir o “choque” cotidiano – a História se repete e estamos nos acostumando a esse “eterno retorno” (colocando Kundera no meio, rs). Como então saímos dessa letargia? Indo aos extremos, despindo as coisas de sua intenção inicial e levando-as além para nos complementar e nos identificarmos com elas, tudo isso apenas para conseguir sentir alguma fagulha de vida que nos dê sentido ou que confirme nossa existência.

    1. Bruce, excelente ideia sobre Crash. Acho que tem muito a ver com isso também. Sobre o preço, eu lembro de ter lido algo no blog da Companhia falando sobre revisão dos preços para esse ano. Crash realmente está com um preço meio salgado (se considerar número de páginas), mas no Submarino está saindo por 28,81, o que me parece mais próximo do adequado. Não gosto muito de fazer compras lá, mas fica como alternativa enquanto não rolar a tal da revisão de preços que tinham comentado no blog da companhia no começo do ano.

  3. Show =D
    A capa é bem convidativa !!!

    Como vc disse no texto, quando eu ler esse livro vou lembrar de deixar preconceitos ou julgamentos de lado para ver no que vai dar até terminar o livro. E, tb estou tentando fazer isso com outras obras, pq acho que interfere um pouco no que o escritor está tentando nos dizer com sua história. Eu peco em tirar conclusões de passagens q nem sei se são verdadeiras ou coisas da cabeça do escritor =/

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