O Retrato (Nicolai Gogol)

Minha primeira lembrança de contato com um livro da L&PM foi de um Hamlet, não lembro ao certo se comprado em 1999 ou em 2000. Custava 3,90 reais. Lembro que grifava os títulos dos outros livros que gostaria de comprar, porque estava ali uma oportunidade de ler coisa boa por um preço igualmente bom. O tempo passou e é evidente que aquele preço não era mais possível, chegando aí novas tentativas da editora de continuar colocando no mercado pockets baratos com, por exemplo, a série L&PM Plus. E recentemente chegou uma nova investida da L&PM, a série 64 Páginas. A ideia é ter número de páginas e preço fixo: as tais das 64 por cinco reais. Dos títulos disponíveis tive a oportunidade de conhecer O Retrato, de Nicolai Gogol.

O conto está disponível em um outro livro da editora, O capote seguido de O retrato, vindo agora sozinho nesta edição. É de fato bastante interessante e gostoso de ler, o que talvez seja um pouco da proposta da coleção (além do preço baixo), de oferecer uma obra de qualidade que possa ser lida rapidamente. Para todos aqueles que vivem reclamando de falta de tempo para ler, talvez esse seja um bom começo. 64 páginas voam em poucas horas, especialmente se a história for boa como esta de Gogol.

Incluindo elementos do fantástico para discutir um tema da realidade, em O Retrato Gogol conta na primeira parte a história do pintor Tchartkov, que sonha em alcançar a fama mas vê como principal dificuldade a falta de dinheiro para simplesmente continuar pagando por serviços básicos para sua sobrevivência, como a moradia e velas para iluminar seu estúdio. Eis que o jovem um dia compra por impulso um quadro e o leva para casa. Chegando lá, passa por uma sequência do que Neil Gaiman chamaria em Sandman de “o eterno despertar”: um sonho que sempre acabava com ele acordando, para logo então ele descobrir que ainda não acordara. Essa sequência é simplesmente genial, seja pela impressão que o retrato causa dobre Tchartkov, seja pela sequência de despertares.

Nesta mesma noite ele sonha que o homem do retrato mostra para ele mil ducados. No dia seguinte ele finalmente desperta e descobre que os mil ducados realmente existem. E é aí que entra o elemento chave do conto, a questão do que faz um artista ser conhecido, ou ainda, o preço que um artista conhecido paga por sua fama. Tchartkov usa o dinheiro para luxos dispensáveis como roupas e jantares caros, mas também o utiliza para pagar uma notícia em um jornal falando sobre ele.

O sujeito que até então não tinha trabalho, e entrava em um círculo vicioso no qual por não ter trabalho não conseguia dinheiro para bancar sua vida enquanto queria simplesmente criar ou desenvolver sua arte, depois do anúncio fica conhecido. Mas já nas primeiras clientes vem um novo conflito: o que elas querem não é o que ele acredita que deveria fazer. As consequências disso levam a um desfecho melancólico, e até bastante surpreendente.

A segunda parte é um pouco menos interessante, embora ainda assim seja muito boa. Nela o mesmo retrato da primeira parte está prestes a ser vendido quando um homem aparece reclamando ter direito sobre ele, narrando assim uma história para justificar sua reivindicação. Novamente temos a questão do artista e sua criação, embora aqui se apresente de forma mais sutil do que na primeira parte. Mas a força do retrato continua viva, e é surpreendente a imagem que Gogol consegue passar com palavras.

No final das contas, cabe os parabéns para a L&PM por trazer esta novidade. Até então eu ainda não conhecia a obra de Gogol, e O Retrato serviu como ótima amostra para o que o autor tem a oferecer, o que significa obviamente ir atrás de mais obras dele. Em tempos nos quais as pessoas acabam sempre justificando o fato de não ler dizendo que livro é caro e que não tem tempo, talvez livros como esse apareçam como uma boa alternativa para esse tipo de público.

O Retrato
Nicolai Gogol
Tradução: Roberto Gomes
64 Páginas
Preço sugerido: R$ 5,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da L&PM Editores

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One thought on “O Retrato (Nicolai Gogol)

  1. Olá,

    se me permite dizer, O Retrato e O Capote são dois dos contos mais invulgares de Gogól, pelo que não serão os melhores para se ficar a conhecer o autor. Proponho Almas Mortas, a sua obra prima, ou, para se introduzir no sentido de humor de Gogól, O Nariz e Diário de um Louco. No Brasil não haverá um livro intitulado “Contos de São Petersburgo”? Nesse livro constam vários contos, incluindo os quatro contos que a Anica e eu referimos, juntamente com Avenida Nevski e A Caleche.
    O surrealismo de Gogól traz algo de novo e para se entender a obra dele é preciso não ter medo de se desprender da realidade para que, dessa forma, esta seja exposta da maneira mais pura e cómica que se podia imaginar. É sublime! Dos meus autores favoritos.

    Cumprimentos,

    Ana

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