Shakespeare escrevia por dinheiro: Depressão pós-leitura

Eu não lembro bem da primeira vez que aconteceu comigo, só sei que passei boa parte da adolescência com esta sensação. Pegava lá um livro aleatoriamente esperando que fosse bom e alguma coisa acontece que a relação livro/leitor toma um outro aspecto, é como se eu fosse puxada para dentro da história e, ao chegar no fim, fosse empurrada para fora de um mundo que passei a gostar tanto. Você fecha as páginas e acaba ficando por alguns minutos (dependendo do livro, horas) um pouco como o gurizinho voltando do dentista:

Is this real life?

É realmente um choque. Se for uma série então, pior ainda, especialmente se você engata a leitura de um livro após a outra. Acabei de fazer isso com Jogos Vorazes e ó, mesmo que em menor grau comparado com o que acontecia quando eu era mais nova, ainda assim tive alguns momentos de depressão pós-leitura. E para sofrer da tal depressão nem precisa ser obra-prima, tem livro que é necessariamente escrito só para divertimento e que mesmo assim causa esse efeito (vide o meu caso com Sherlock Holmes quando eu era mais nova). Os sintomas da tal depressão sempre se manifestaram da seguinte forma para mim:

Primeira etapa: Voltando para o mundo real – Esta é a pior de todas, especialmente se você tem uma quedinha por livros de fantasia/ficção científica. Você estava lá, numa boa, em uma realidade que permitia a existência de gente que voa, lança feitiço ou nunca envelhece e de repente tem que voltar para a tal da vida real. Não levem à mal, a vida real é legal. Mas seria tão, mas tão legal poder se teletransportar. Ou ficar invisível. Ou… Ok, eu acho que deu para entender meu ponto. O pior de tudo é que não precisa só ser fantasia. Há obras extremamente pé no chão (para não usar realista e acabar criando confusão com a escola literária) que apresentam personagens tão, mas tão legais que a volta para o mundo real é um “Pô, por que esse cara não é meu amigo?”.

A difícil batalha para voltar à realidade.

Segunda etapa: Insatisfação – É para mim o traço mais marcante de que estou sofrendo de depressão pós-leitura. Sempre engato um livro após o outro. Por coincidência, sempre que passo por esse momento, demora um pouco até que eu goste do livro seguinte. O triste é quando o livro seguinte tem potencial até para ser melhor, mas você está com a cabeça tão perdida no jeito de narrar do autor anterior, ou ainda, naquele universo criado por ele, que cair em outro leva um pouco mais de tempo para adaptação. É por isso que eu costumo dar uma segunda chance para obras que li depois desse tipo de livro. Porque sei que no final das contas já peguei o novo romance em mãos com uma atitude defensiva: Não, não será como o que acabei de ler.

Não é igual.

Terceira etapa: Recomeçando – O bom de engatar uma leitura após a outra é que as chances de que a terceira etapa chegue logo são maiores. O truque para mim é sempre buscar algo completamente diferente do que eu tinha lido, porque caso contrário as comparações serão inevitáveis. De A esperança eu parti para um terror com Song of Kali (ainda na segunda etapa, como dá para perceber pelo que escrevi para o Meia Palavra), mas quando peguei a Vigor Mortis Comics cheguei na terceira etapa fácil. Aí o negócio é voltar ao bom e velho esquema de livros bacanas e que você curte muito, até o momento que sofra de depressão pós-leitura novamente. É, o processo é contínuo. Não, não tem cura. Felizmente.

Mais livros! Todos comemora.

 

Ah, e coração literário volúvel que tenho, já estou apaixonadinha de novo. Mas desta vez não estou sendo boba de devorar o livro todo de uma vez só. Estou indo aos poucos, sabe como é. Releituras são legais, mas a sensação da primeira leitura nunca é a mesma. Sobre o livro em questão, falarei aqui no Meia semana que vem, prometo.

Livros lidos: Mockingjay (Suzanne Collins), Abaixo as Verdades Sagradas (Harold Bloom), Vigor Mortis Comics (Biscaia, DW, Aguiar), O Psicopata Americano (Bret Easton Ellis), Contos de Lugares Distantes (Shaun Tan), Song of Kali (Dan Simmons), A Máquina Diferencial (William Gibson e Bruce Sterling).

Leituras em andamento: The perks of being a wallflower (Stephen Chbosky) e O Horror de Dunwich (H.P. Lovecraft)

Livros que chegaram: O Psicopata Americano (Bret Easton Ellis), Contos de Lugares Distantes (Shaun Tan), A Máquina Diferencial (William Gibson e Bruce Sterling), Crash (J.G. Ballard), O retrato (Nicolai Gogol), O Horror de Dunwich (H.P. Lovecraft), A Magia da Realidade (Richard Dawkins), Vigor Mortis Comics (DW, Biscaia, Aguiar), Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (Seth Grahame-Smith).

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35 thoughts on “Shakespeare escrevia por dinheiro: Depressão pós-leitura

  1. A coluna desse mês tá tão boa que eu deveria te mandar uns 50 mangos. Nada paga as risadas que eu dei com o gif dos Power Rangers HAHAHAHAHHAHAHAH

    Lembro da minha insatisfação quando terminei A Sociedade do Anel e não encontrei As Duas Torres pra ler na sequência. Todos os livros que eu toquei naquele mês só foram terminados depois… Que tenso, né?

    1. Com o Senhor dos Anéis eu dei sorte pq li de uma edição que vinham os três juntos, aí engatei um no outro. Mas já passei por isso. Cheguei ao ponto de procurar para ler no computador mesmo, mas não rolou ><'

      1. Eu li a Saga Crepúsculo no computador. Sabia que não valia a pena gastar com os livros e estava morrendo de curiosidade. Resumo: Dá-lhe tradução ilegal e downloads =[

  2. Adorei o texto! Legal perceber o método de leitura dos outros, hehe…
    e… adorei essas imagens, hehe… principalmente a do gato e do pato 🙂

  3. eu sofri de depressão pós leitura depois de terminar A Dance with Dragons… vc tem razão, com séries é pior… e eu adoro séries

    1. eu acho que com série é pior porque ficamos mais tempo imersos naquela história. se bem que tem casos como os livros do sherlock que não são necessariamente séries mas que causaram em mim efeito igual. fiquei um bom período só procurando livros que se passassem na inglaterra vitoriana para matar saudades hahaha

      1. digamos que o personagem está em uma série de livros…acontece também… Agora estou em depressão pela trilogia Hunger Games… que horror…

      2. Haha, eu acabei de ler o último livro de The Hunger Games,( a exatamente uma hora atrás) e antes minha amiga falou ” Sabe, dá mó depressão o final” E eu já fiquei , “E agora?” Fui para minhas preciosas páginas , lendo e lendo emocionando e lendo… Quando chegou o final eu não sabia o que sentir, é engraçado isso! Fui para o Google e escrevi “Depressão pós Jogos Vorazes” e acabei encontrando essa coluna , me diverti bastante pensando “Eu não sou a única!” rsrs . São varias emoções, o livro está entre meus favoritos e eu agora estou pensando ” Qual será o próximo livro que irei ler? Será que eu vou voltar ao normal?”
        Suzanne Collins, mechendo com o psicológico das pessoas! (;

      3. Meu deus! eu tambem acabei de ler ”A Esperança”,tem duas horas e estou chorando até agora..triste,triste..fiquei assim com HP tambem…e nunca passa!Mesmo que eu leia outro livro,sempre vou lembrar :(,mas é bom saber que não sou a única!!!!1

  4. juro que é muito raro eu sentir isso só senti quando li os da rosa montero ( a louca da casa , história de mulheres)
    ou do moacyr scliar e do cony do resto eu nem sinto saudades pq vivo trocando de livro ai acho que fica dificil manter um parametro por gênero

    1. Mas eu acho que não depende muito de gênero. Lógico, com fantasia/ficção científica a volta à realidade é mais complicada, mas qualquer livro pode nos puxar de um jeito que depois que terminamos passamos um tempo meio “estragados” para outros livros, entende? =]

      1. sim entendi =)
        eu evito parametro ou ler em sereis mas tem livro que penso poxa o autor foi embora e esqueçeu de devolver meu estomago ficou meio oco aki dentro kkkkkkk

  5. E terminar ‘O Apanhador’ e ficar pensando: ‘Putz, onde é que vou achar um livro com umas tiradas tão maneiras como as do Holden?’

    Aqueles ‘fora de brincadeira’, ‘só de farra’, ‘me esbaldo’ e adjacentes me acompanharam por um bom tempo como parte do meu vocabulário cotidiano.

    Tá aí uma idéia para uma outra futura coluna Anica: como somos em parte um mosaico de nossos personagens preferidos. Que tal?

  6. Estou em depressão pós-Persépolis. E eu sempre acabo o livro que mexe comigo e fico: “óh, acabou minha vida literária, nunca mais lerei nada”, etc. É triste.

    1. Iris, eu tenho a sensação de que tem vezes que com HQs essa depressão pós-leitura bate mais forte, viu? Porque eu lembro de sair da gibiteca depois de passar uma tarde toda lendo Sandman, eu ia andando pela rua num misto de Is this real life com a expectativa de encontrar Morpheus na Cândido de Abreu /o

  7. Essa coluna caiu como uma luva para mim nesse fim de semana, tinha acabado de ler Les Amants du Spoutnik do Murakami e estava sentindo aquele sensação de abandono. Empilhei alguns livros que estavam na espera para serem lidos, pegava um lia as primeiras linhas parava, pegava outro e nada, demorei um par de horas até me decidir por L’energia del vuoto, do Bruno Arpaia.

    1. Ary, essa descrição dos livros empilhados bateu muito com o que eu passo de quando em quando. Olho para eles, começo um, começo outro e parece que não engata – tudo por causa do livro que li anteriormente =S

  8. Eu tinha isso quando lia meus pockets faroestes e policiais… Mas aí eu fui percebendo que a diferença entre um personagem e outro era a dose de whisky que cada um tomava, e então era como se no final fosse sempre o mesmo homem mas em histórias diferentes. Depois, quando eu comecei a ler personagens mais bem acabados, como a Lolita e o Humbert Humbert, eu já percebi que era simplesmente impossível querer encontrá-los em outro livro: mas como eu tinha a certeza e a disposição de reler a qualquer instante, a minha depressão pós-leitura se tornava num conforto de saber que eu podia visitar a casa deles sempre e tomar um chá, quando eu precisasse.

    1. Quando você relê você consegue captar a sensação da primeira leitura? Eu não consigo =( Posso reler, achar genial e tudo o mais, mas aquela emoção de ir descobrindo frase após frase um daqueles livros que serão os da minha vida, nunca, só com a primeira vez mesmo =/

    1. Ih, vai economizando a série porque depois do último livro bate uma deprezinha pós-leitura, viu? A gente se apega às personagens, quer saber mais sobre elas =S

  9. Anica,

    Arrasou no texto!
    Me sinto muito parecida quando amo muito o livro que li e ele acaba.
    Teve fase que eu sentia falta do personagem e voltava pra ler uns trechinhos de novo (lembro que fiz isso várias vezes em O Amor nos Tempos do Cólera).
    Mas quando gosto meeesmo do livro, prefiro dar uns 2 dias pra começar a ler outro. Uma forma de tirar o sentimento de “traição” e, principalmente, as comparações.

    1. Hahahaha, sabe que eu queria um dia comentar sobre esse negócio de sentimento de traição? Eu tenho muito disso quando preciso deixar de lado um livro que estava lendo para ler outro =F

    1. Estou dizendo, quando é fantasia a coisa bate ainda mais forte. Fechar o livro e perceber que vivemos num mundo onde só tem trouxas, que tristeza =/

  10. Terminei de ler A Batalha do Apocalipse e comecei a ler Otelo… que desastre! Além de ter odiado todos os personagens ainda perdi o marcador do livro…
    Você fica muito vidrado no embalo do livro, principalmente se for aventura com fantasia, não tem como não sofrer pra achar um substituto!

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