Song of Kali (Dan Simmons)

O maior problema de quem gosta muito de um tipo específico de livro é que chega uma hora que pouca coisa surpreende. Umas vinte páginas de um livro e você já sabe de que forma a trama vai se desenrolar, já tem um palpite quase sempre certeiro sobre o desfecho da narrativa. Comigo isso acontece quando o assunto são livros de horror. Já foram tantos que hoje em dia isso influencia até o modo como vejo filmes do gênero, já que os clichês de um são mais ou menos os mesmos que na outra mídia. E é por causa dessa sensação de já ter visto isso antes que terminei Song of Kali, de Dan Simmons, com uma opinião ainda inconclusiva: eu teria gostado mais do livro se o tivesse lido antes de outros tantos que já li?

Porque a sensação que tive enquanto virava as páginas era de um cansaço tremendo e uma tentativa real de tentar encontrar ali o que tanta gente chamou de melhor livro de horror de todos os tempos, ou ainda, o vencedor do prêmio World Fantasy de 1986. E capítulo após capítulo ficava a sensação de que já tinha visto aquilo em outro lugar. Era quase uma mistura de Stephen King com alguns fragmentos de The Serpent and the Rainbow. ((A versão cinematográfica desse filme aqui no Brasil chegou como A Maldição dos Mortos Vivos)) E é aí que fico pensando, se fosse uma novidade, se tivesse lido quando comecei a me interessar por terror, de repente teria gostado muito mais. Porque há qualidades em Song of Kali, isso é indiscutível. Mas a mesmice e alguns defeitos acabaram pesando mais para mim.

O livro foi originalmente publicado em 1985, e pelo menos no primeiro capítulo você não precisa nem de muito esforço de imaginação para se transportar para aqueles tempos. Há qualquer coisa na narrativa de Simmons que te faz pensar no protagonista dessa maneira:

A imagem é do filme Ghost Story (1981), baseado em um livro do Peter Straub que chegou aqui como Os Mortos Vivos. Se você gosta de terror, leia o livro. E veja o filme.

Sem que para isso ele tenha utilizado qualquer recurso de descrição. De qualquer modo, vamos ao enredo, que é um dos pontos positivos da história: Robert Luzcak é enviado por uma revista a Calcutá para investigar o que seriam novos poemas escritos por M. Das, um poeta que todos acreditavam estar morto há alguns anos. Ele viaja com mulher e filha, e mal chega lá entra em contato com um certo Krishna, que o auxilia a saber mais detalhes sobre o paradeiro de M. Das, assim como os poemas escritos recentemente.

O problema número um chega aí, com a enrolação para armar o cenário. São páginas e mais páginas só com Luzcak falando sobre sua ida para a Índia, depois chegando lá acaba sendo enrolado pelo próprio Krishna e nisso nós, leitores, somos enrolados também. Eu diria que a história engrena mesmo já passados uns 30% do livro, quando somos apresentados a parte do horror da narrativa, com o grupo de adoradores de Kali e seus cultos. Depois disso temos o terror de fato, com Luzcak mergulhando fundo nos assuntos sobre o culto à deusa, mas antes o que temos é mais um quê xenofóbico com relação à Índia que, sinceramente, não desce bem. É provável que em tempos de politicamente correto esse livro sequer fosse publicado (pense em frases como “há lugares no mundo com tanta maldade que não deveriam existir” para se referir a Calcutá, por exemplo). As descrições que o narrador faz da cidade chegam a dar mais medo do que o plot envolvendo o culto à Kali, para se ter uma ideia.

Outro problema passa no que já citei, na questão de haver pouca novidade no desenvolver da trama. Já na metade dá para saber no que tudo aquilo vai dar, e embora Simmons consiga mexer com os sentimentos do leitor (no que diz respeito à filha de Luzcak, por exemplo), ainda assim parece que ficou faltando um pouco de novidade para que aquilo tudo causasse medo – aquela sensação que você tem ao ler O Iluminado mesmo depois de já ter visto o filme, digamos assim.

Como dito antes, fico então dividida, pensando em quanto eu poderia ter gostado desse livro se minha bagagem de histórias de horror fosse um pouco menor. De qualquer forma, pelo menos valeu por ter conhecido um livro que frequentemente aparece em listas de favoritos do gênero, nem que seja para chegar a conclusão que talvez seja um bom momento para procurar um outro gênero favorito.

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One thought on “Song of Kali (Dan Simmons)

  1. sei como é quando começei a ler li tantos livros da Judith McNaught que fiquei sem ler romances de amor desta época quando eu tinha 10 anos ate estes tempo atras que superei o trauma e voltei a ler algu meloso agora tenho 20 voltei a ler um assim aos 18

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