Abaixo as verdades sagradas (Harold Bloom)

O crítico norte-americano Harold Bloom é uma figura bastante conhecida no meio literário. Seja por conta de sua produção voltada aos estudos literários (como O Cânone Ocidental ou ainda Shakespeare: A invenção do humano), seja pela língua afiada que aponta para todos os lados (vide a controvérsia que criou ao dar opinião sobre o Nobel que a escritora Doris Lessing ganhou). Mesmo fora do meio “acadêmico” ele ainda é popular (ou deveria dizer impopular?) entre fãs de Harry Potter – na época de maior sucesso dos livros, ele apontou sua metralhadora para a obra de J.K. Rowling também. De qualquer forma, polêmico ou não, é uma leitura indispensável para aqueles que enveredam pelo campo da literatura.

Com Abaixo as verdades sagradas, vemos um pouco desse crítico polêmico no que é uma reunião de seis ensaios que visam discutir questões como a influência que um autor sofre de autores anteriores, além da noção de sublime na literatura (que fica mais evidente no quinto capítulo, sobre Iluminismo e Romantismo). Os textos começam com a Bíblia hebraica, partem para Homero e Dante, seguido então de Shakespeare, Milton, depois, como já mencionado, Iluminismo e Romantismo para fechar então com Freud. Pode parecer pouco (especialmente se julgarmos o tamanho do livro, que mal passa das 200 páginas), mas é o suficiente para levantar questões bastante interessantes, além de mostrar o vasto conhecimento do autor sobre literatura.

O primeiro capítulo pode soar um pouco confuso para os que não estão familiarizados com os textos da Bíblia hebraica, mas é fundamental que ele abra o capítulo não só para manter uma certa ordem cronológica que pauta a obra, mas porque ele dá a dica do que será um elemento constante mesmo nos outros textos: o sagrado. Seja para falar da relação do homem com o divino (como no capítulo de Milton), seja para comentar a influência que a Bíblia exerce em outros textos (como no capítulo de Shakespeare), o tema sempre volta, mesmo que de forma sutil. E talvez por isso seja importante prestar uma atenção especial à abertura, porque é nela que estão as principais ideias de Bloom sobre a Bíblia.

De todos os capítulos o melhor, sem sombra de dúvidas, é o sobre Shakespeare, mas isso porque Bloom é um apaixonado pelo bardo inglês (o que fica bastante óbvio se levarmos em consideração obras escritas pelo crítico, como a já mencionada Shakespeare: a invenção do humano, ou ainda Hamlet: poema ilimitado). O interesse de Bloom por Shakespeare acaba tornando o capítulo até mais leve, com o tom de amigo que comenta sobre uma banda ou um filme que admira em especial.

O mais longo (e provavelmente o mais polêmico) é o último capítulo, Freud e além. Já nos primeiros parágrafos o autor dispara: “Freud está mais próximo de Proust do que de Einstein, e até mais próximo de Kafka do que do cientismo de Darwin“, isso logo após afirmar que a psicanálise é mera especulação. Como dá para perceber, não é exatamente o tipo de crítico que tem papas na língua ou mesmo receio de expor suas ideias, e até por isso vale tanto a pena conhecê-lo – nem que seja para ver um outro ponto de vista de verdades que você considerava como certas e definitivas.

Abaixo as verdades sagradas é realmente uma leitura essencial para os acadêmicos de estudos literários, e nisso algo que chama minha atenção é a tendência da Companhia das Letras em republicar livros como esse em formato de bolso. O título de Bloom foi originalmente lançado pela editora em 1993, e estava esgotado, e embora importante, estava bem difícil de encontrar, pedindo aí uma boa garimpada em sebos. Agora livros como esse (e ainda outros títulos como A Ascensão do Romance, de Ian Watt) estão saindo pela Companhia de Bolso, com o preço mais em conta e portanto muito mais acessível ao universitário. E o melhor, novamente  fácil de encontrá-los nas estantes.

Abaixo as verdades sagradas
Harold Bloom
Tradução: Alípio Correa de França Neto e Heitor Ferreira da Costa
216 Páginas
Preço sugerido: R$24,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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4 thoughts on “Abaixo as verdades sagradas (Harold Bloom)

  1. Só reclamo da edição que são faltas de notas de rodapé para termos conceituais como “tropo, daimon, egon” etc. No mais a leitura é bom que se faça com o minimo de leitura prévia, caso contrário pode-se perder nos nomes dos personagens de livros diversos.

    1. Se não me engano o livro foi escrito com base em uma série de palestras realizadas por Bloom. Contudo, desde o começo dá pra perceber que o livro é voltado para quem já tem algum conhecimento dos assuntos ali tratados.

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