A Esperança (Suzanne Collins)

Quando escrevi sobre o primeiro livro da trilogia Jogos Vorazes aqui no blog, a leitora Mica fez ótimos comentários sobre não considerar o livro infantojuvenil. Eu não discordei por completo, na época só achava que a definição em si não era demérito algum para o livro, que realmente me pareceu acima da média se comparar com obras do gênero. Mas agora, ao terminar o terceiro livro, tenho que concordar com Mica. Não é YA, não. Ou pelo menos abrange um novo conceito de livros para jovens, abordando temas bem mais complexos, de forma bem mais crua, sem aquelas lentes cor-de-rosas que normalmente vemos em títulos do gênero. Então ficam dois avisos: o primeiro é que este post tem spoilers, que realmente estragam a experiência de leitura, então, se você tem qualquer intenção de ler os livros, leia e depois volte aqui. O segundo é que não, Suzanne Collins não quer saber de final feliz e bonitinho, então prepare seu coração.

O livro começa após os eventos narrados no livro Em Chamas, com Katniss sobrevivendo a mais uma edição dos Jogos Vorazes, desta vez salva pelo plano arquitetado pelos rebeldes que se reuniram contra a Capital e seu representante, o presidente Snow. Com a história acontece o mesmo que nos títulos anteriores: demora um pouco para engrenar, mas depois pega fogo, embora aqui a trama fique mais ágil bem mais rapidamente do que nos dois primeiros volumes. O problema é que em alguns momentos você para e pensa na trama rocambolêstica, como por exemplo, a necessidade dos rebeldes em terem Katniss como o Tordo (Mockingjay, no original), quando a simples existência do Distrito 13 já servia como sinal de resistência, de força. Porém, mesmo com isso, A Esperança acaba mantendo as mesmas características dos outros livros, de não conseguir largar até terminar de ler, dos ganchos no fim do capítulo, de surpresas atrás de surpresas.

O que chamou minha atenção de fato ali é de como a guerra entre os rebeldes e a Capital se sustentava nas imagens. Eu sei que desde a guerra do Kwait na década de 90 já se fala em “guerra de video game”, com transmissões de lugares sendo bombardeados e do povo sofrendo as consequências de um conflito como uma forma de mostrar quem “está ganhando”, mas não sei até que ponto Collins não quer chamar atenção para como nos comportamos vendo esse tipo de guerra, um tanto passivamente, como se por estar na TV aquilo não fosse real. Ela vai fundo nos horrores da guerra, incluindo momentos de bombardeio ou de perda de pessoas queridas.

Mais ainda, se destaca o fato de ela não criar uma trama maniqueísta (armadilha fácil se falamos em guerra). Os rebeldes já em um primeiro momento mostram ter tantas falhas de julgamento como os poderosos da Capital, inclusive por desejarem sustentar muito dessa batalha nas aparências, como quando escolhem qual seria o ponto da batalha ideal para transmitir. A líder dos rebeldes também não parece ser tão diferente de Snow, como Katniss vai vendo aos poucos, inclusive por conta de decisões que afetam pessoas queridas à protagonista.

Aliás, muito da minha curiosidade sobre A Esperança estava em um comentário que tinha lido da editora de Collins, que dizia que quando viu que determinada personagem morria, pediu para a autora que não fizesse isso, ao que ela respondeu que era uma guerra, e era normal que existissem perdas. Fiquei pensando por muito tempo qual seria essa perda, e fiquei feliz por não ter ido tão a fundo para saber quem era a vítima, podendo manter esse suspense até o momento certo e, mais ainda, podendo me surpreender. Obviamente não vou dizer em quem apostava minhas fichas, até porque sei que sempre tem um teimoso que continua lendo o texto mesmo após o aviso de spoilers, há.

E então que chegamos no desfecho. Muitos elementos ali já se desenham desde o começo, são bem previsíveis (incluindo a relação e atitudes de Katniss com Gale e Coin, por exemplo). Mas tem muito que não se espera ali, a começar pelo retorno melancólico da personagem para o Distrito 12, com Haymitch sendo (aparentemente) forçado a voltar para cuidar dela. A partir desse momento, se você for mais coração mole como eu, se prepare para chorar. Mais ainda, para já começar a sentir saudades das personagens de quem você sabe que estará se despedindo. O epílogo, mesmo que em sua base traga aquele tom de final de novela da Globo, vem carregado do clima pesado dos últimos eventos narrados por Collins.

E no final das contas, é bem como a escritora falou para sua editora. Não tinha como ser diferente. Qualquer outro desfecho seria uma trapaça com o leitor que acompanhou a história até aquele momento. Iria contra a natureza das personagens e do destino que suas ações haviam traçado. Nesta discussão se é realmente um livro voltado para adolescentes ou não, fica o fator positivo de que, se era o plano de Collins, ela pelo menos não se prendeu ao gênero na hora de encerrar uma trilogia que merece ser lida para quem gosta de ação e diversão.

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16 thoughts on “A Esperança (Suzanne Collins)

  1. Fico feliz de ver sua resenha, Anica. A maioria das pessoas que resenham esse terceiro livro parecem odiá-lo. Acho que justamente por algumas mortes e “falta de atitude”. Só que, como você expressou aqui, acredito que não teria como ser diferente. Ficou uma coisa mais real.

    Sobre a trilogia: quando li o primeiro livro, me incomodou o fato de algumas coisas serem abordadas de forma (aparentemente) corriqueira e até superficial, principalmente na primeira parte. Jogos Vorazes eu vi sim como um YA. Contudo, acredito que a autora tenha evoluído sua abordagem a cada livro. O terceiro sem dúvida é mais do que um YA. É deprimente, forte, aborda detalhes que senti falta desde o primeiro… Gostei demais. Ficou mais verossímil, na medida do possível.

    Acho que se não fosse voltado pra jovens, talvez teríamos mais detalhes, uma obra mais completa. Porém, acabei gostando da trilogia e, se vista como YA, é definitivamente um grande avanço.

    (ps: E eu preciso falar uma coisa meio *SPOILER*-> como não amar o Peeta? Ele é a personagem mais interessante pra mim desde o começo. Nesse último então… Sensacional a abordagem, a transformação. E o Haymitch, e… Tantos! rs. Vou parar por aqui.)

    1. Nem me fale do Peeta. Sabe que quando comecei a ler eu obviamente acabei tendendo para o Gale, que era nítido que era a paixãozinha da Katniss. Mas desde o começo ele vai se mostrando tão fofo, e aí você descobre que não era pelo jogo, mas que era real e acha ele mais fofo ainda e quando chega o terceiro livro , aquele último parágrafo, pans, dá vontade de chorar.

      O Haymitch é engraçado, eu desde o começo achei uma personagem peculiar, me chamou a atenção. Mas comecei a gostar mesmo dele ali para o segundo livro, quando ele começa a ser melhor desenvolvido pela Collins.

      E concordo sobre a evolução gradual da Collins para cada livro. E sabe que acho até bom? É meio como comer bombom sonho de valsa, tirando camadinha por camadinha. Dá aquela chance de as personagens desenvolverem junto com a trama. Ela foi bem corajosa (e claro, quem topou publicar o livro mais ainda).

  2. Acabei de ler esse livro e engraçado como também pensei que ela evoluiu muito como escritora.

    Embora goste muito do primeiro livro, sou tentada sempre a adorar livros onde o realismo impera, e obviasmente amei os 2 ultimos porque nada acaba “bem”.

    1. Ou pelo menos não acaba bem de um jeito forçado, né? Eu vejo até em detalhes, como o final de Gale – que na minha opinião sai de “mocinho” para personagem tão carregada de defeitos quanto qualquer antagonista ali (especialmente qdo ele começa a projetar as armadilhas). E a Collins poderia chegar no fim e fazer de conta que nada disso aconteceu, redimir todas as personagens e fazê-las felizes, mas ficaria forçado demais e completamente irreal.

  3. Oi Anica,

    Eu acho que seus posts deveriam vir com a seguinte advertência: “Cuidado!!! Não leia se não quiser mudar todo o seu planejamento de leitura”. rsrsrsrs
    Toda vez que leio seu post, meus livros mudam de ordem na estante dos próximos a serem lido. Agora você vai me fazer passar uma TRILOGIA na frente…
    Mas tudo bem, no final das contas (até agora) valeu muito a pena!!!!!

  4. bicho, não sabia desse pedido da editora pra “determinada personagem” não morrer. que genial. porque quando ela morreu eu devo ter pensado algo como “PQ ISSO ACONTECEU? PQ A EDITORA DEIXOU?”. muito triste.

    mas sério. (SPOILERS………………….) ainda bem que ela morreu. porque no fim das contas a mensagem da suzanne é sobre os efeitos da guerra e do jogo de poder, e apesar de isso ser abordado ao longo da história toda, é depois da morte dela que a reflexão mais profunda e madura acontece.

    eu gosto especialmente quando a katniss pensa que alguém teve que autorizar a ida de uma menina de 13 anos direto no front. uma frase tão rápida mas que tem todo um significado. eu gosto também como a suzanne não define quem jogou a derradeira bomba (a Capital ou os rebeldes), porque se definisse, ela tomaria um lado, quando o ponto é justamente o terrível fato de ser plausível qualquer um dos dois ter feito.

    e outra: a “personagem” precisou morrer pra história terminar com um gosto amargo. eu penso que se ela não morresse, poderia haver a impressão de que os rebeldes atingiram seu objetivo e todos foram felizes para sempre, e viva a revolução – apesar de todo o sangue jorrado antes disso, o efeito dramático é sempre mais eficiente quando algo acontece com alguém com quem vc se importa. e uma guerra não pode ter um tom de felicidade, mesmo quando o seu lado ganha. me surpreendi muito com esse final, extremamente pesado.

  5. Pelo visto todos concordam que não é um YA, até parece começar assim, mas definitivamente termina bem pesado, o que faz todo o sentido já que guerra é guerra e não dá pra acabar tudo bem.

    Fiquei bem inquieta durante a permanência da Katniss no Distrito 13, essa coisa de ficar em baixo da terra realmente me sufocou, tanto que quando ela ia para floresta era um alívio.

    O desenvolvimento dos três (Gale, Katniss e Peeta) não me desapontou. Aos olhos de um jovem de 17 anos acho que não se pode esperar gestos muito calculados. Eles são impulsivos, apaixonados.

    As perdas fizeram sentido, lamentei a morte de alguns personagens, (nem tanto “A” perda, pq eu achava mesmo que ia acontecer) mal tive tempo de me apegar a eles e já se foram. Acabei ontem a noite de ler a trilogia, li um após o outro sem intervalo, consumindo todo meu tempo livre e agora estou órfã.

    Em tempo.. Peeta, ai que querido!! – achei a escolha do Josh Hutcherson bacana.

  6. Pingback: Jogos Vorazes
  7. Eu desconhecia totalmente essa trilogia até o lançamento da adaptação para o cinema. Depois de assistir ao filme, meu Deus, corri atrás de conseguir ler os livros. E como, infelizmente, livros no Brasil não estão nada baratos foi difícil conseguir uma forma de ler. Finalmente, baixei os três livros de uma vez, coloquei no meu celular, e passei o final das minhas férias lendo-os. No total, foram sete dias, e que sete dias… Pegava o celular para ler e só terminava as 04h da madrugada quando dava sono.

    O que eu achei? Simplesmente inédito para mim, um garoto de 15 anos (quando li, agora tenho 16 rsrs) com pouco repertório de leitura. A forma que ela trata cada personagem, dentro da trama, o modo como alguns simplesmente vêm e vão no segundo livro, as dúvidas causadas pela narrativa em primeira pessoa (o que chega até a ser comparado com Dom Casmurro de Machado de Assis). Foi realmente uma das minhas melhores leituras.

    A morte da personagem foi o que mais me abalou, porquê é justamente ela que causa toda a reflexão do fim da história. Depois que essa personagem morre, é onde Katniss beira a loucura, é devido a essa morte que ela dispara uma flecha em quem deveria ser sua aliada, é graças a essa morte que ela por alguns segundos acredita no seu pior inimigo. É graças a essa morte, que o livro é o que é, inédito, magnífico, dúbio.

    E finalmente, quem é que realmente ganha numa guerra? Quem é que perde? Talvez essa resposta esteja na própria dúvida causada pela morte da personagem em questão. Quem a matou? A Capital ou o Distrito 13? A resposta dessa pergunta, é a mesma da primeira. Nenhuma das duas. A guerra a matou, como a própria autora disse “é uma guerra, pessoas morrem”. E como isso responde quem vence numa guerra? Simples, numa guerra ninguém ganha até que todos (ambos os lados, “perdedores” e “vencedores”) estejam em paz uns com os outros.

  8. Eu devo admitir: quando terminei de ler o livro, segurei um ataque de pânico, tive uma péssima noite de sono e aturei minha própria revolta durante a manhã seguinte. É só desgraça! Pra ser sincera, realmente queria esganar aquela filha-da-puta que deixou todos os meus (sim, pertenceram a mim durante mais ou menos sete dias, portanto, são meus também) preciosos personagens loucos e queimados ou enxotados para escanteio sem nenhuma explicação. Mas depois de uma soneca e alguns filmes de comédia romântica, consegui analisar um pouco a lógica do livro. Ou achar alguma. E é exatamente como Collins (que já deixou de ser uma filha-da-puta) disse. É uma guerra, e na guerra, pessoas morrem, sofrem e convivem com as sequelas desta pelo resto da vida. Não havia como um Gale apresentando sua nova namorada a Katniss, um Haymitch eternamente sóbrio ou um rosto de Peeta intacto (ouch, aguentaria tudo, menos o rosto de Peeta) entrar no final da história. Esperança mais se parece com uma montanha russa do que com um livro, e, pelo menos em mim, causou aquele efeito de enjoo insuportável logo após o carrinho finalmente parar antes do sentimento de excitação e desejo de retornar e se descabelar dentro do brinquedo novamente. Suzanne pode até ser uma grande filha-da-puta, mas é uma filha-da-puta extremamente inteligente e talentosa.

  9. Acabei de assistir ao filme. Sem tempo para ler os livros…
    Impossível não se apaixonar pelo Peeta desde o início…
    Espero que no final Katniss e Peeta fiquem juntos…Por incrível que pareça, não curti o Gale…
    O triste é ver o sofrimento pelo que passam os jovens tão cedo…
    Tendo que matar para sobreviver…

    Bjs doces,

  10. Nossa, primeiramente eu quero dizer que sua resenha é ótima, Anica! Realmente vc conseguiu explicar um pouco da essência do livro, que sinceramente só lendo para perceber.
    Eu li os três livros em exatamente quatros dias, sem parar. Aproveitei todo o meu tempo livre só para isso e quando terminei fiquei completamente sem folego. Confesso que não tinha nem ideia da existência da série e quando soube pensei horrores e logo deduzindo ser um enlatado fantástico americano tanto o filme quando os livros, mas depois de ver o filme que achei interessante, eu li os livros e me apaixonei completamente. Espero realmente que esse se torne um tipo de livro para os adolescentes, não falando mal dos outros voltados para esse públicos existentes por ai, mas esses livros trazem uma abordagem completamente nova, e muito educacional! É inegável o fato do livro ser violento e cru no romance, principalmente que Collins não o coloca em primeiro plano. O romance é uma consequência dos fatos que acontecem em Panem, e sim o principal é o que ocorre nesse país fictício dividido em distritos. Eu adorei Katniss, principalmente por ela ser tão próxima da realidade, tão forte e ao mesmo tempo fraca, tão revoltada e ao mesmo tempo indiferente a situação do lugar onde vive, pq é exatamente isso que ocorre né? Collins expõe as características dos personagens ao longo dos livros. Gale no inicio é um bom moço, no final já percebemos a sede de vingança, a obsessão pela revolta ao ponto dele seguir o “os fins justificam os meios”. Como tbm a própria Katniss que as vezes se torna totalmente indiferente a dor e sofrimento do povo, preocupando-se somente com ela e sua família. Achei que os livros consegue atrair vc de todos os modos, e fazer aquilo o que um bom livro tem que fazer, tem comover, te revoltar, te fazer chorar! O ultimo livro é o meu preferido, completamente arrasador o final, eu chorei rios, confesso. E o final como vc disse não tem nada de feliz, tem uma realidade que é impossível não ocorrer: o que a guerra faz com as pessoas. E é exatamente isso que Collins mostra, o que uma guerra pode fazer, e como ela pode transformar a vida das pessoas, deixando marcas eternas! Realmente o Peeta, é o Peeta hahaha Desde o primeiro eu já meio que sabia o que ocorreria com o triangulo amoroso, embora a maneira como Collins justificou ficou muito sincero. Peeta e Katniss tinham que ficar juntos pq somente os dois passaram pela arena, e sofreram juntos as perdas que Gale não compartilhou. Peeta amor da minha vida tbm! Vou recomendar para todo mundo esses livros! Perfeitos! Quatro dias inteiros muito bem gastos, embora esteja órfã agora…

    1. Pois é, Cybele, o ruim é essa depressão pós-leitura que bate assim que acabamos o livro. Demora um tempinho até nos empolgarmos com outra história como com essa 😐

      Obrigada pelos elogios =*

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