O caderno vermelho (Paul Auster)

Primeiro, dois comentários para ilustrar. Para começar: todo mundo tem aquele amigo que consegue descrever situações cotidianas de um modo engraçadíssimo, empolgante ou que simplesmente amarre nossa atenção até o fim. Você sabe quem ele é. Aquele que quando começa a contar uma história, todos param para ouvir, porque não tem como não prestar atenção no que ele diz. Uma ida até ao mercado pode virar material para arrancar gargalhadas e até lágrimas. Guarde esse amigo na memória, já já vou precisar dele.

O segundo: já conversei com amigos que escrevem ou têm vontade de escrever e percebi que temos algo em comum. Às vezes, presenciando situações inusitadas pensamos “Isso ficaria muito bom num livro”. Isso para não falar dos diálogos imaginários criados numa fila de banco ou no caminho de volta para casa. Se você é assim como eu e como esses meus amigos, deve sentir uma falta danada de um caderninho à mão, ou pelo menos já criou vergonha na cara e foi atrás de um, suponho.

Pois bem, é exatamente como um caderno de anotações de um escritor um tanto misturado com livro de memórias que vejo O caderno vermelho, de Paul Auster. Dividido em quatro partes (“O caderno vermelho”, “Por que escrever?”, “Notícia de um acidente” e “Não significa nada”), o que Auster parece dizer é que muito do ofício do escritor está em ser um bom observador. Vai usando o que vê da forma que acha melhor, seja na criação de uma personagem, seja simplesmente em um diálogo perdido entre outros tantos. O caderno vermelho parece funcionar como anotações de Auster sobre sua vida, e do que o transformou em escritor, como deixa bem clara a frase que fecha a segunda parte:

No mínimo, os anos me ensinaram isto: se você tem uma caneta no seu bolso, há uma boa chance de que um dia se sinta tentado a começar a usá-la.

Como gosto de dizer para os meus filhos, foi assim que me tornei escritor.

E é assim que Auster vai compondo esse caderno vermelho, com relatos de momentos que à primeira vista não parecem ter nada de extraordinário, mas que aos poucos vão surpreendendo. O que é incrível nestes capítulos que descrevem os ditos momentos é que eles são brevíssimos – o livro mesmo não chega a 100 páginas. E com tão poucas palavras o autor consegue dizer tanto, como no segundo “conto” da primeira parte, onde Auster tira tanto significado do sabor de uma torta de cebola mal assada. Lembra daquele amigo que conta histórias como nenhum outro que comentei? É bem provável que se Auster fosse um conhecido seu, você teria lembrado dele ao ler o primeiro parágrafo deste post.

Há sim em O caderno vermelho histórias peculiares, que chamam a atenção especialmente pelo fator constante que é a coincidência de determinados eventos (como a história do amigo que sempre estava presente quando furava o pneu do carro do narrador, ou na descrição de um quase encontro completamente por acaso com um amigo em Paris). Mas se pensar bem, nenhuma delas é algo que só pode acontecer a um grupo restrito de pessoas. É esse apelo universal que encanta, porque ao ler os capítulos de O caderno vermelho, o leitor se identifica, consegue se transportar para aquele momento e se colocar no lugar do narrador. É um elemento básico para conquistar a atenção de quem será uma espécie de interlocutor, para então conquistá-lo de vez com uma prosa afiada e, sem exagero, deliciosa.

Tão boa que fica aquela velha história de o maior defeito do livro é ele ser breve demais. Dá realmente vontade de ler mais e mais destes relatos, ou ainda, uma inveja tremenda dos amigos que são identificados apenas pelas iniciais, pensando em como eles têm sorte em não só fazer parte dessas histórias como também de provavelmente ouvirem de Auster muitas outras que não chegaram ao papel.

O caderno vermelho
Tradução: Rubens Figueiredo
96 Páginas
Preço sugerido: R$18,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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5 thoughts on “O caderno vermelho (Paul Auster)

  1. Excelente resenha, Anica!

    Sou fã do Auster, mas nunca li o Caderno Vermelho. Lendo o seu texto, me deu vontade de largar minhas leituras atuais e correr para o Paul, que, aliás, dizem que vem com um livro muito bom por aí, na linha de A Invenção da Solidão: Winter Journal.

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