Jogos Vorazes (Suzanne Collins)

Confesso que comecei a ler Jogos Vorazes com uma certa carga de preconceito que tenho sobre o que se publica ultimamente para o público infantojuvenil. Pensei “Lá vem mais uma história romântica com um casal improvável…”. Mas estava dando um crédito mesmo assim para o primeiro livro da série escrita por Suzanne Collins porque pessoas cujo gosto é parecido com o meu falavam muito bem do livro. Primeiras páginas, fico conhecendo Katniss Everdeen, adolescente que vive em um futuro para lá de distópico: o mundo se organiza em distritos, cada qual com sua matéria-prima principal, todos tendo que servir a Capital sem perguntas. A última vez que uma revolta aconteceu, a Capital acabou com quem ia contra seu poder e criou a partir daí os Jogos Vorazes.

Só no conceito por trás desses Jogos Vorazes já vemos que Collins não é daquelas escritoras que pintam um mundo cor-de-rosa só porque está falando principalmente com o público jovem. A ideia dos jogos é que cada distrito mande dois jovens como representantes para participar de uma espécie de reality show no qual só pode existir um vencedor, o único que sobrevive. Sim, a premissa lembra muito Batalha Real, mas dê uma chance mesmo assim, porque passando esse momento de apresentação de Katniss e sua realidade no Distrito 12, o que se tem é um livro eletrizante (desculpem o termo “poster de filme de ação”, mas não consigo pensar em algo melhor agora), daqueles que não dá vontade de largar.

A protagonista Katniss é também a narradora da história, passando uma visão interessante do que acontece na arena porque ela já assistiu outros anos de Jogos Vorazes e sabe qual é a mecânica cruel que move a competição. Ela é inteligente, tendo a experiência de caçadora que desenvolveu para sustentar a família desde a morte do pai, e é essa sua grande arma contra competidores de outros distritos que na realidade se orgulham em mandar suas crianças para a batalha. Pouco a pouco vemos a garota vencendo dificuldades, sabendo ser mais esperta do que os demais e passando de uma candidata que não teria qualquer chance (já que o Distrito 12 não tem muitos campeões) para uma das favoritas.

Há algo de cruel na narrativa de Collins, porque de certa forma ela transforma o leitor em um telespectador. Tal como quem senta no sofá torcendo por um favorito em um programa como Big Brother, em Jogos Vorazes Katniss conquista o leitor de tal maneira com sua garra que passamos a torcer por ela, mesmo que isso signifique que a garota tenha que matar, o que vá lá, não é característica típica de “mocinhos” de livros do gênero. Ainda sobre a questão do meu preconceito inicial, há sim um interesse romântico na história, mas eu não o vejo como a engrenagem principal da narrativa, como acontece em muitos títulos voltados para o público mais novo. O que acontece entre Peeta e Katniss é um desenvolvimento natural do jogo, e é dosado de maneira certa a não melar com açúcar uma trama que tende muito mais ao sangue.

Chama a atenção também algumas personagens que vão aparecendo ao longo da história. Embora algumas sejam apenas “tipos” (como Cato, por exemplo), outras são complexas mesmo com o pouco tempo em que aparecem ao longo da trama, como por exemplo o mentor de Katniss, Haymitch (eu vi um pouco antes de ler o livro que na adaptação para o cinema ele será interpretado por Woody Harrelson, e aí não consegui imaginá-lo com outro rosto que não uma mistura de Tallahassee, Carson Welles e Larry Flint) ou ainda a garota Rue (que rende um dos momentos mais tocantes da história).

Eu sei que volta e meia adulto que lê young adult acaba comprando briga dizendo que não, o livro não é voltado para o público infantojuvenil, como se fosse uma vergonha uma pessoa se divertir com uma história como essa. Eu não acho que o fato de Jogos Vorazes ser um título que mira o público jovem seja um defeito. Na verdade, o fato de conseguir agradar faixas etárias diferentes me parece pesar mais favoravelmente à obra, já que deixa claro que é possível divertir com uma trama mais complexa. E no final das contas já sei o motivo pelo qual Jogos Vorazes é uma das adaptações mais esperadas para esse ano no cinema. Após ler o livro, até eu me empolguei assistindo ao trailer.

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19 thoughts on “Jogos Vorazes (Suzanne Collins)

  1. Não tinha dado atenção ao livro justamente por esse preconceito, apesar de achar que eu, com meus 18 anos, não estou nem um pouco longe da “faixa”, digamos, infanto-juvenil; mas depois que vi algumas pessoas falando que ele faz uma certa crítica a sociedade e aos reality shows, me animei um pouco… não o suficiente pra procurar o livro e ler, mas já é um começo!!

    1. Olha, Mylena, eu não posso dizer com segurança “Corre lá para ler” porque já ouvi bastante opinião desfavorável ao livro, então de repente ele tem um mecanismo que funcionou comigo mas pode ser um desastre para você. Mas da minha experiência (eu aqui, Anica), achei muito divertido. De loooooonge o melhor young adult que li nos últimos tempos, e olha que leio bastante young adult, hehehe

    2. Mylena, leia. O livro é muito, muito bom. E olha que eu, com 33 anos, estou bem longe do infanto ou do juvenil ^_^. Mas são poucas autoras/autores que tem uma escrita tão envolvente, personagens carismáticos (ou odiáveis, mas o que importa mesmo é que você se relaciona com eles, não são figuras no papel, eles se tornam reais, palpáveis) e a história faz todo o sentido, do início ao fim. Ela não dá ponto sem nó.
      E não é um livro cheio de clichés, muito pelo contrário. Você realmente se surpreende com os acontecimentos, ao mesmo tempo que os aplaude, porque são totalmente coerentes com as personalidades e caráter dos personagens.
      Sem falar que o livro vai longe do modelo de young adult, por isso tanta gente discute se é YA ou não.
      Vale a pena sim a leitura, não tem como não gostar (quero dizer, há gosto para tudo neste mundo, mas acho muito difícil ler e não se ver envolvido).

  2. Uma coisa que eu gostei bastante é que no segundo e terceiro livro a Suzanne desenvolve ainda mais esses personagens improváveis como o Haymich e os outros vencedores que a Katniss vai conhecendo. E sempre dá pra alguém prestar atenção só em uma característica do livro se quiser – como só no romance, ou só na selvageria, ou só no fato de ser infantojuvenil – mas eu achei ele com todas as partes juntas bem mais legal. Tô ansiosa pro filme 🙂
    É daquele tipo de livro que você fica até as 4h da manhã pq resolveu que ia “ler só mais um capítulo” antes de dormir

    1. É, eu já notei que alguns estão aparecendo mais, até a Effie mesmo (eu ainda não consigo gostar dela, não sei se é para gostar mais para a frente, mas por enquanto acho ela uma pentelha hahahah). E eu concordo com você, todas as partes juntas fazem o livro mais legal. Também fiquei ansiosa pelo filme ^^

      1. Acho que no fim das contas a Effie não é assim tão importante e não aparece tanto quanto um Cinna da vida… ela é tipo o prep team, parece mais um bando de pet meio sem noção xD
        No segundo ela apresenta mais um mooooonte de personagem (pra compensar pelos que morreram, hehehe) que vão ocupando lugares mais importantes, é bem legal. Mas ele demora um pouquinho mais pra engatar, pq a história toda já começa a ficar mais política. Mas já engatando no seu comentário lá embaixo, sangue é o que também não falta

  3. Sim eletrizante define o livro não consegui largar enquanto não li todos os 3 livros, embora o primeiro na minha opinião seja o que mais/ melhor prende a atenção do leitor.

    1. Eu ainda estou no segundo livro, mas por enquanto estou gostando mais do primeiro. Eu entendo que os primeiros capítulos do segundo estão meio que colocando as peças no tabuleiro, digamos assim, mas aquela coisa com o Peeta tá me enchendo o saco. Quero saaaaangue (heheheheh)

  4. Eu acho estranho Jogos Vorazes ser catalogado como Infanto Juvenil porque não me parece YA. Não é porque seus protagonistas são adolescentes que o livro necessariamente precisa ser YA.
    Para ser bem sincera, eu nunca tinha pensado nele como YA até ir na livraria ontem e encontrar na seção dos Infanto Juvenis. Levei até um susto.
    Mas nada contra também, eu gosto de YA quando bem escritos (infelizmente não tem tantos bem escritos assim….mas livro adulto também é não a última bolacha do pacote, tem os autores de qualidade e os mequetrefes).
    Agora, o que importa mesmo, é que a trilogia é fantástica, a Collins tem uma redação segura e consistente e eu virei fã. Não consegui largar antes de terminar o último. Foi numa talagada só.

    1. Então, Mica, se eu já não soubesse antes de ler que era um YA, eu provavelmente tomaria este susto também. Até porque esses dias alguém comentou comigo no twitter que nos outros volumes a Capital fica ainda mais cruel e eu pensei “WTF, mais cruel como?”, e junto com isso pensando exatamente em quão “infanto-juvenil” ele é. Por outro lado, fico lembrando do que eu lia quando tinha 14 anos e aí penso se a gente não acaba subestimando a garotada, pensando que eles só vão gostar (ou se interessar) por livros que mostrem um mundo fofo e romântico tipo Crepúsculo. Na realidade, enquanto lia o livro eu fiquei mais do que feliz em pensar que terá um geração de adolescentes que lerá uma coisa tão bacana como Jogos Vorazes. Queria eu ter algo semelhante quando era mais nova =/

      1. Ah..na minha infância eu lia Marion Zimmer Bradley (Brumas de Avalon, série Darkover), Marcelo Rubens Paiva (Feliz Ano Velho, Blackout, Bala na Agulha), coleção vagalume…
        Na minha adolescência eu lia Agatha Christie, Sidney Sheldon, Stephen King, Jack Higgins, Ken Follet, Robin Cook…
        Para ser bem sincera, comecei a ler YA só depois de adulta, hehehehe (ou na infância).

        Mas, para mim, (e aqui eu uso um método bem particular que provavelmente não tem a ver com a verdadeira definição) young adult são aqueles livros com protagonistas jovens, leitura rápida e de fácil digestão (pq vc lê um YA em um dia facinho, mas um livro adulto para ler em 1 ou 2 dias tem que suar muito), que geralmente se dividem ou em romances ou aventuras. Claro que pode ter os dois, mas sempre um se sobressai mais do que o outro. Geralmente tem mais conflitos internos também, coisas bem típicas da adolescência, quando o povo está se descobrindo, sabendo quem é e qual o seu poder no mundo (não que isso seja explícito, mas fica tão evidente nas atitudes e pensamentos dos personagens que não dá para disfarçar).

        Por exemplo a série Instrumentos Mortais ou Harry Potter. São notoriamente YA, embora muito bem escritos e com um desenvolvimento de personagens maravilhoso. A trilogia Jogos Vorazes não tem o mesmo perfil, por isso é difícil encaixar no mesmo bolo.

      2. Mas Mica, concorda comigo que fora os livros da série vagalume (muito bem lembrado!) os demais que você citou não são young adult? É disso que estou falando sobre querer ter um livro como Jogos Vorazes quando era adolescente. Também li Marion Zimmer, Stephen King, Agatha Christie e por aí vai quando jovem. E esses livros continuam por aí para o jovem que se interessar por leitura, certo? Mas livro feito para jovens com a qualidade de Jogos Vorazes, fora a série vagalume da qual você recordou e alguns títulos como o do Pedro Bandeira, era um caso bem raro. Era disso que eu falava, espero que tenha ficado claro agora ;D

        Sobre a definição de Young Adult, eu confesso que nunca parei para pensar em características do gênero, e por isso acabo aceitando a definição que a editora atribui. O que sinto da maioria deles é que a falta de recursos narrativos inovativos, a ideia não é experimentar a escrita mas contar uma história. E nesse sentido, Jogos Vorazes se encaixa bem. É tremendamente linear, não tem nada ali que você pense ter um novo Foster Wallace em mãos. O narrador em primeira pessoa é bastante típico de livros assim (pelo menos dos YA desta geração), o que também ocorre com YA. Por outro lado no enredo o livro acaba tratando de temas que não vejo como voltados para jovens, e não só os temas, mas alguns acontecimentos me parecem bem fortes. Por outro lado, acho um pouco hipócrita considerá-los “bem fortes” se com dez anos eu lia Stephen King descrevendo a morte de Gage em O Cemitério Maldito. No final das contas fica aquilo: quem somos nós (que lemos livros adultos quando adolescente) para dizer o que é adequado para um adolescente ou não?

        Enfim, no final das contas é como disse, sigo o termo utilizado pelas editoras, até porque como comentei no texto, não acho que seja algo ruim para jogos vorazes ser YA. Eu sinto que muito adulto que lê YA tenta reverter a classificação, dizer que não é meio que para justificar o fato de ser um adulto lendo YA. Eu não tenho a menor vergonha de ser uma mulher de 30 anos lendo YA, porque eu sei separar as coisas, a leitura por prazer e a leitura como arte. Não vou avaliar Jogos Vorazes como avaliaria Esperando Godot, por exemplo. Então, sinceramente, podem chamar o livro de Ficção Babalúnica que eu vou continuar achando Jogos Vorazes fantástico, não me importo mesmo com o modo como o classificam.

      3. Isso me fez lembrar…você já leu Maligna (Wicked – The Life and Times of the Wicked Witch of the West)? Eu encontrei o livro nas Livrarias Catarinense na seção infantil. Quase tive um infarto. É um dos livros mais densos que eu já li (de fantasia). Até hoje não entendo o que estava fazendo no setor infantil… Acho que o jogaram lá por se tratar de um livro do universo do Mágico de Oz.

      4. eu li Maligna,,, o barato do Gregory Maguire é exatamente transformar literatura infantil em adulta e vice-versa, eu levaria um susto (depois de lido o livro) ap encontrá-lo na seção infantil

  5. Boa tarde. Tenho 21 anos e comecei a ler com aproximadamente 8 ou 9 anos ( Harry Potter – A Pedra Filosofal ). Li a Trilogia Jogos Vorazes e tenho que concordar que é um livro que nos prende a atenção e não da vontade de parar de ler. Só que quando terminei e parei para analisar, cheguei a conclusão de que a HISTÓRIA é muito boa só que a escritora é fraca. Muito pobre em detalhes de personagens e cenários, não passa a emoção que outros livros conseguem passar com história teoricamente muito mais pobres em níveis de ação e romance. Para pessoas que leram livros como “As Cronicas de Gelo e Fogo”, “Senhor do anéis”, “Caçador de Pipas”, vão sentir essa diferença. Para pessoas que ainda não pegaram livros desses níveis, acredito que seja um bom livro para fazer com que elas peguem o gosto pela leitura.

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