Os Gêmeos (Pauline Alphen)

Um dos “problemas” da fantasia (aqui entre aspas, porque não acho que seja um problema de fato) é que quase sempre (ênfase para quase) os títulos desse gênero seguem duas ambientações: ou acontecem em um cenário tipicamente medieval, independente de ser em outro mundo/realidade, ou são futurísticos, mostrando maravilhas tecnológicas que só existem em sonhos. E foi por isso que me surpreendi com Os Gêmeos, primeiro volume da série Crônicas de Salicanda, da escritora franco-brasileira Pauline Alphen. Somos inicialmente apresentados a um ambiente medieval, com torre, lutas de espada e outros elementos típicos. Mas aí um pouco mais para frente algo estranho começa a acontecer. Claris, a protagonista da história, indignada com o fato de que as aventuras são só para os homens, fala em um diálogo com o que seria seu mestre, Blaise:

E Ulisses, Aquiles, Heitor, Artur, Lancelote, Merlim, Robin Hood, Simbad, Robinson Crusoé, Gulliver, Angelo, Frodo, Aragorn, Harry Potter, Luke Skywalker, Fitz, Pug, Eragon, por acaso são mulheres?

Não tem como deixar isso passar batido. Heróis da antiguidade clássica até os tempos atuais, incluindo até Luke Skywalker de Star Wars (referência esta, aliás, que se repete bastante ao longo do livro)? É aí que o sentido apita: tem algo de novo por aí. A sacada de Pauline Alphen foi de que uma grande catástrofe no passado fez com que um homem, Jors, fundasse Salicanda, um lugar para proteger as pessoas. Em Salicanda, a tecnologia é renegada, principalmente porque, para aquele povo, fica claro que o que aconteceu com o planeta Terra se deu por causa dela. E é daí que Alphen cria uma ambientação nova, híbrida da que costumamos conhecer: ela se passa no futuro (mais precisamente no século XXIII), mas tem toda aquele tom de fantasia medieval com o qual o público já está acostumado, incluindo aí seres mágicos e poderes paranormais.

Confesso que achei as referências a parte mais divertida nesse primeiro livro. Ver brincadeiras envolvendo de Tolkien até Virginia Woolf (com Orlando) passando por Borges é muito bacana, parece que era justamente o que faltava em livros deste tipo, ter a liberdade de falar dos nossos tempos livremente, sem a amarra que a verossimilhança impõe para a fantasia medieval (ou mesmo as que se passam em outras realidades e planetas). O problema maior é que eu não sei se o livro já foi pensado como uma série, mas a sensação que dá é que a autora guardou o ouro para os livros seguintes. Muito de Os Gêmeos é uma apresentação de Salicanda, das personagens principais (especialmente os gêmeos Claris e Jad) e alguns mistérios envolvendo as crianças, incluindo aí o sumiço da mãe quando eles tinham três luadas, os poderes paranormais que eles possuem.

Só que isso em um livro longo, pelo menos se pensar que trata-se de uma obra infanto-juvenil: são quase 400 páginas. Se por um lado é interessante ver o mundo que Alphen cria, por outro não dá para deixar de pensar que falta um certo fôlego para que a leitura desse número de páginas flua bem, ou que sustente o interesse do leitor. O conflito de fato chega (o que é um alívio), mas sinto que chega um pouco tarde para a história. Acredito que o ideal seria fazer esta apresentação da realidade de Salicanda mais através de ação do que da inclusão de mistérios. Talvez tenha faltado um pouco daquela estrutura de “video game” que têm os primeiros volumes de Harry Potter, por exemplo, em que pequenos conflitos são resolvidos até chegar no grande conflito final.

Gostei muito de personagens como Blaise e Borges, mas acho que o leitor mais jovem se identificará pouco com eles. Mas, já que o livro faz tanta referência à Star Wars, fica como se a história fosse mais sobre Yoda e Obi Wan do que sobre Luke e Léia, e talvez nisso eu tenha sentido uma queda no ritmo que só se recupera mais próximo ao desfecho. De qualquer forma, a conclusão é bem empolgante e deixa um ótimo gancho para o segundo volume – que promete ser exatamente o que o primeiro livro poderia ter sido, com Claris vivendo as aventuras que ela tanto sonhara e muito mais ação. E mesmo assim, vale conferir para quem gosta de fantasia, até por trazer ares novos ao gênero.

Os Gêmeos
Pauline Alphen
Tradução: Dorothée de Bruchard
368 Páginas
Preço sugerido: R$39,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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