Estrada Escura (Dennis Lehane)

Os dois primeiros livros que li de Dennis Lehane foram logo de cara os excelentes Sobre meninos e lobos e Paciente 67 (agora Ilha do Medo no Brasil). Foram leituras tão boas que quando tive a oportunidade de ler o mais novo livro do autor (lançado pela Companhia das Letras no mês passado), nem pensei duas vezes. E por pensar duas vezes incluo aí “nem li a sinopse”. Ok, livro em mãos, descubro que ele é meio que uma sequência de outro que o escritor publicou no fim da década de 90. Confesso que fiquei com um pouco de receio, porque muitas vezes autores que escrevem mais que um título com a mesma personagem fica um pouco relaxados com o desenvolvimento dela (“Ah, é aquilo tudo que disse no primeiro livro, combinado?”). Além disso, fica aquele medo de acabar ficando completamente perdida por não ter lido o livro relacionado a este (cujo título é Gone, Baby, Gone). Mas ah, que coisa, é Lehane, vamos que vamos.

Já nas primeiras páginas aquele pé atrás sobre desenvolvimento da personagem desapareceu. O protagonista Patrick Kenzie é também o narrador – e um narrador com senso de humor apurado, daqueles que mesmo que azedos com a idade, ainda assim tem ótimas sacadas sobre o que vê. O primeiro caso em que ele está trabalhando serve para situar o leitor de Gone, Baby, Gone (e bem, o leitor novato como eu) no que aconteceu nos últimos doze anos. Kenzie casou com sua colega Angie Gennaro, e agora tem uma filha para criar. Trabalha como terceiro em uma empresa de detetives, que parece sempre oferecer a oportunidade de efetivação (e a estabilidade) que ele tanto deseja, mas que nunca chega. É quando aparece Beatrice.

Ficamos sabendo então que ela é tia de Amanda McCready, ambas figuras centrais do romance Gone, Baby, Gone. Quando tinha quatro anos Amanda desaparecera, e foi Kenzie quem a encontrou, tirando a menina da casa de pais “adotivos” adoráveis para devolvê-la para a mãe drogada e bêbada. É evidente que Kenzie se culpa (e se preocupa) bastante pelo destino de Amanda, e é por isso que quando Beatrice aparece dizendo que a menina, agora com 16 anos, sumiu novamente, ele inicia uma investigação para descobrir seu paradeiro.

É evidente que esta busca por Amanda criará as situações mais inusitadas, e páginas e mais páginas de tirar o fôlego (como eu já sabia que Dennis Lehane faz tão bem). O mistério do desaparecimento da garota envolve até a máfia russa, incluindo uma personagem que, embora seja completamente psicótica, era até engraçada. Aliás, a parte do humor de Lehane é realmente um dos destaques do livro, o autor sabe jogar muito bem com esse elemento, colocando nos momentos certos, sem quebrar a tensão (e acredite, às vezes até aumenta a tensão). Há um diálogo ao telefone impagável entre  Kenzie e Angie, segundos depois de Kenzie pegar a arma de um homem que o ameaçava, eles falam de coisas triviais sobre o que ele precisa pegar no mercado assim que sair dali.

Tem também o fato de que Lehane não é daqueles gagás que não soube acompanhar a evolução que veio em nossas vidas através da internet. Reparem: tem muito autor contemporâneo que ainda escreve como que em um mundo sem internet. As personagens não usam Facebook, não tem blogs, não usam o Google. Acaba ficando uma situação estranha, de livro moderno sem refletir o cotidiano moderno. Não é o caso de Lehane, que fala inclusive do pós 11/9, Blu-Ray e chega até a fazer piada com o Kindle. Um exemplo disso é quando ele vai comentar sobre a empresa onde ele trabalha:

A Duhamel-Standiford não tuitava. Não tinha blog e nem aparecia nenhum pop-up seu do lado direito da tela quando alguém digitava “investigação particular boston” no campo de pesquisa do Google. (…)

Sei que parece um mero detalhe irrelevante, mas acredito que seja o que fixa temporalmente Kenzie e Angie nos 12 anos após os eventos do primeiro desaparecimento de Amanda. O mundo deles mudou nesse tempo, não só a vida deles. E acaba chamando bastante a atenção essa narrativa paralela que se cria, de como eles se adaptam a essas mudanças, ao fato de não serem mais tão jovens e não poderem mais ser tão destemidos, já que agora são responsáveis pela filha Gabby.

Acredito que a única coisa que estraga um pouco o livro é a conclusão para o mistério de Amanda, que para mim soou um tanto quanto “Deus ex machina“. Sentido fez, as pontas ficaram amarradas e tudo o mais, porém, me pareceu um pouco forçado demais, incluindo a atitude de algumas personagens diretamente relacionadas a esse desfecho. Não foi de todo ruim, eu gostei de como as coisas se resolveram, só fica um gostinho de que chegou num ponto em que ele não teria como resolver a história com um “final feliz” e fez o que fez.

Mesmo assim, Estrada Escura é muito bom. Seguindo a tradição, Lehane entrega uma história com muita tensão, em que você não consegue parar de ler – até porque ele usa o truque de desenvolver a trama em capítulos curtos, todos terminando com “ganchos”. Aí você pensa “É só mais um capítulo, é curtinho”, e quando vê já acabou o livro. E fica a dica para quem, assim como eu, não leu Gone, Baby, Gone, fique tranquilo que não faz diferença alguma. Quer dizer, diferença faz: você provavelmente vai querer ler este outro livro com Kenzie e Angie também.

Estrada Escura
Dennis Lehane
Tradução: Fernanda Abreu
336 páginas
Preço sugerido: R$37,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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6 thoughts on “Estrada Escura (Dennis Lehane)

  1. Adorei a resenha Anica, confesso que logo que você disse “Além disso, fica aquele medo de acabar ficando completamente perdida por não ter lido o livro relacionado a este (cujo título é Gone, Baby, Gone).” quase desisti de ler a resenha, mas é Lehane, vamos lá.
    Virei fã do autor após ter lido Ilha do Medo, a atmosfera doentia que ele cria é incrível. Pois sim, estou pensando em ler Estrada Escura, veremos quando isso vai acontecer.

    1. Gustavo, pode ler sem medo que realmente não afeta a história não ter lido Gone, Baby, Gone antes. O Lehane consegue passar um panorama geral da história anterior, assim ninguém fica perdido. E olha, é bem legal mesmo. Ainda acho Paciente 67 e Sobre meninos e lobos melhores, mas gostei muito deste também =]

    1. Tem mais livros com o Kenzie além de Gone, Baby, Gone? O_o Eu não sabia, achava que era só esse =(

      Será que influencia muito ler o Estrada Escura e depois eles? O Gone, Baby, Gone eu entendo que realmente estraga a surpresa (meio que boa parte do enredo fica claro na Estrada Escura), mas e os outros?

      1. Anica, são 6 livros!

        A drink before the war
        Darkness take my hand
        Sacred
        Gone baby gone
        Prayers for rain
        Moonlight mile

        Eu sei que todos esses já saíram no Brasil, acho que pela Companhia das letras mesmo.
        Deu uma tristeza de ver que você leu o último antes… rs

        Olha, eu curti muito. Os melhores pra mim são Darkness take my hand e Gone Baby Gone. Ler o último estraga um pouco né, pq vc já sabe como as personagens “acabam”, mas ainda acho que vale a pena.
        Eu me apaixonei pelo Lehane lendo Sobre meninos e lobos e comprei todos os livros dele, lendo um atrás do outro. Agora só falta The given day.
        A série Kenzie & Gennaro é uma das minhas preferidas.
        Espero que você dê uma olhada 🙂

  2. Este são os meus livros preferidos do Lehane com Genaro e Kenzie em ordem descrescente de preferencia:
    Sacred
    Darkness take my hands
    Gone baby gone
    A drink before the war
    Moonligh mile
    Prayers for rain

    Anica, o que me fascina em Lehane é o entrelaçamento entre a cultura pop
    e o romance policial.
    No que tange a cultura pop, o titulo do livro em inglês Moonlight mile refere-se à última música
    do stick fingers dos stones. Sendo que os stones são citados frequentemente por Lehane, em particular, as muiscas oriundas dos discos da era de ouro (the golden age): beggars banquet, let it bleed, stick fingers e exile on the main street.
    Ademais, Lehane cita seriados de tv, classicos do cinema, atores (o embate gary cooper X james stewart), tudo que cerca a cultura pop.
    Em Sacred, o primeiro livro dele que li, há um capítulo apoteótico em que a citação de Limite de Segurança do Lumet é o divisor do livro.
    Em Darkness take my hands, quando kenzie está conversando com o serial killer toca let it bleed e depois midnight rambler dos stones (a sequencia do disco let it bleed).
    Em suma, nas obras de lehane sempre há referências à cultura pop e estas referências contribuem para o sarcasmo e ironia dos dois protagonistas, principalmente kenzie.

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