Do que eu falo quando eu falo de corrida (Haruki Murakami)

Celebrado como um dos grandes nomes da literatura atual, Haruki Murakami parece ter de alguma forma entrelaçado a decisão de escrever com a de correr. É o que vemos em Do que eu falo quando falo de corrida, lançado no Brasil em 2010 pela Alfaguara. O livro é o relato real de Murakami sobre tudo o que passou quando começou a correr (chegando a tornar-se maratonista), um diário de sua rotina como uma pessoa comum que resolve aderir a algum esporte. As dificuldades, o modo como se sente enquanto corre e, principalmente, seus devaneios durante a corrida são todos registrados, mostrando uma força de vontade e disciplina surpreendentes.

O problema é: este não é um livro de porta de entrada, e infelizmente foi o primeiro Murakami que li. Por livro de “porta de entrada” quero dizer que é aquele que funciona como um cartão de visitas, apresentando a obra do autor de modo que o leitor reconheça seu estilo e decida se procurará outros títulos do mesmo escritor ou não. É evidente que nas páginas de Do que eu falo quando falo de corrida vemos que a prosa de Murakami é envolvente, acredito que o maior sintoma disso é que eu não tenho o menor interesse pelo assunto principal abordado no livro, mas li até o fim. Porém, me pareceu a todo momento que aquele não é o Murakami que conhecerei ao ler a sua ficção.

Claro que os paralelos que ele cria entre o ato de correr e o de escrever chamam a atenção, e acredito que – como sedentária convicta – o fato de Murakami não fazer do texto uma cruzada pela vida saudável, querendo convencer o leitor a fechar o livro e sair correndo em maratonas, mas simplesmente um relato pessoal da sua experiência como atleta, acaba fazendo o livro fluir bem, e não como um pesadelo que seria para quem não se interessa nem um pouco pelo assunto. Uma vez que fala de si, detalhes de sua vida além do esporte aparecem, o que pode agradar muito aqueles que já conhecem outros livros do autor e então tenham pistas de detalhes biográficos que refletem em sua produção de ficção. Há ainda, no meio disso, frases memoráveis, naquele melhor estilo “o oriental sábio”, como a que abre o livro – “A dor é inevitável. Sofrer é opcional.” -, que certamente encantam e comprovam que Murakami tem potencial. Mas o livro em si é mediano, não tem nada de extraordinário que o faça ser daqueles que você indicaria para qualquer pessoa.

De qualquer forma, voltando à ideia de não ser um livro de porta de entrada, o problema principal é que Do que eu falo quando falo de corrida não parece representar a obra de Murakami, mas talvez complementar. Então, o leitor inicial pode ficar com perguntas como “Mas é só isso?”, “Por que será que elogiam tanto ele se este livro é apenas mediano?”, etc., dependendo do contexto no qual o livro for apresentado. Eu compreendo que são gêneros diferentes em que ele transita, então antes de bater o martelo sobre o que penso do autor, obviamente vou experimentar a ficção também, mas a nã0-ficção não mexeu muito comigo. Não achei ruim, só achei que não é daqueles que me fazem ter me arrependido de não ter lido antes.

Justamente por isso, acho que o público mais indicado para Do que eu falo quando falo de corrida seja quem já conhece as obras de ficção de Murakami, não necessariamente os fãs do escritor: apenas os que já sabem do que ele realmente é capaz e não terão com esses relatos um gosto amargo de “Não sei explicar bem o motivo, mas esperava mais disso”.  Algo que comprova minha ideia é que o Luciano, já familiar à obra do autor, escreveu dois textos sobre Do que eu falo quando falo de corrida em que parece demonstrar que gostou bem mais da experiência da leitura do que eu. Para quem quiser conferir:

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7 thoughts on “Do que eu falo quando eu falo de corrida (Haruki Murakami)

  1. Cara Anica,

    O Murakami é um caso interessante. Dizem que é um dos cotados para o Nobel. Bem, não li tantos livros dele assim, mas acho que tem gente que corre na frente. Philip Roth é um desses, apenas para citar o exemplo mais óbvio. Dois ou três outros escritores, na minha opinião, também mereceriam o prêmio antes do Murakami.

    Quanto ao Do que eu falo quando falo de corrida, não é mesmo este o livro pelo qual a gente deve se aproximar do Murakami. Eu mesmo comecei pelos contos, que, apesar de ligeiramente irregulares, me encantaram. Li uma coletânea em inglês (Blind Willow, Sleeping Woman) e guardo a outra, The Elephant Vanishes, como quem guarda uma caixa de bombons ou um bom vinho: para comer, ou tomar, aos poucos. Os contos têm uma atmosfera (Murakami, para mim, é principalmente atmosfera) de estranhamento que é muito comum às suas novelas. Alguns temas e situações dos contos, inclusive, são desenvolvidos nas novelas.

    Mas o que eu queria dizer, desde o começo, é que o Murakami é meio irregular. Como disse, não li tantos livros dele assim, mas acho que posso opinar. Após o Anoitecer, por exemplo,é apenas razoável. Ao terminar de lê-lo (ou mesmo durante a leitura) você se pergunta se ele não errou a mão. Minha Querida Sputnik, por outro lado, é mais bem realizado, embora não seja estupendo. Já ali, porém, comecei a reconhecer os pontos fortes dele, as características (de estilo e de tema) que o diferenciaram. Mas mesmo nos livros irregulares do Murakami há sempre alguns trechos muito bons, que se lê com grande prazer (gosto especialmente dos diálogos ocorridos durante a madrugada, normalmente em ruas desertas ou em cafeterias anódinas).

    Se você quer realmente começar, e aceita o conselho (e se é que o Luciano R. M., que tem falado com propriedade sobre os livros do Murakami por aqui, não lhe indicou outra coisa), comece pelos contos. Não sei se foram traduzidos para o português, mas você é professora de inglês, de modo que não há problema. Depois, aí sim, minha sugestão é Norwegian Wood, que foi o livro que o catapultou, para usar uma palavra muito em voga, para a fama. É um delicado e triste romance sobre aquele período difícil que é a passagem da adolescência para a vida adulta. Há ali coisas muito importantes, ponderosas.

  2. Olá Anica, o primeiro livro do Murakami que eu li foi Norwegian Wood ( o titulo foi um caso de atração fatal para mim), gostei muito e depois de uns anos acabei lendo La fine dell mondo e il paese delle meraviglie (Hard-Boiled Wonderland and the End of the World em inglês). Final do ano passado li La passage de la nuit (after dark) esse li duas vezes, a primeira em francês e a segunda em italiano, dessa vez curtindo a trilha sonora sugerida no livro (sugestão do Felippe Cordeiro).
    Sinceramente gostei de tudo que li até agora, mas poderiam ter sido três escritores diferentes a escrever esses livros, acho que do Murakami umas das coisas mais interessantes a se esperar e de que ele não vá se repetir.
    P.S. já estou virando expert em comprar livros dele duas vezes Norwegian Wood comprei em Buenos Aires em espanhol como Tokio Blues, La Passage de la nuit comprei em Verona como After Dark.
    P.S.2 pelo que li até agora diria que Norwegian Wood é o melhor para começar (procurando na net você pode encontrar também o filme)

    1. Eu diria que o After Dark é uma ótima porta de entrada também, apesar de não ser tão bom quanto o Kafka à beira-mar, meu favorito disparado, junto com Minha querida Sputnik.

      Ainda quero Caçando Carneiros.

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