Edgar Allan Poe

Com o escritor norte-americano Edgar Allan Poe é melhor começar ali pelo fim, que é ironicamente tão misterioso quanto muitos dos seus contos. No final de setembro de 1849, Poe seguia para Nova York quando por dias ninguém teve qualquer notícia sobre ele. Então, em 3 de outubro, ele foi encontrado em uma rua de Baltimore, delirando e completamente maltrapilho. Por que ele desviou seu caminho para Nova York? O que aconteceu em Baltimore? Ninguém sabe. A única coisa que se sabe é que quatro dias depois, Edgar Allan Poe falecia em um hospital da cidade.

Deixou uma vasta obra, focada principalmente nos contos, gênero através do qual serviu de inspiração para muitos que viriam depois (incluindo nosso Machado de Assis). Mas além disso, também escreveu um romance (O relato de Arthur Gordon Pym), vários poemas (sendo o mais famoso O Corvo) e diversos ensaios críticos sobre literatura (onde talvez o mais importante seja Philosophy of Composition). Era tão inovador que até hoje a crítica ainda discute exatamente onde situá-lo nas escolas literárias americanas. E mais: é considerado por muitos algo como um “avô” do Simbolismo. Como dá para ver, ele não era qualquer um.

GRISWOLD

E como se a vida de Poe não estivesse já cheia de histórias estranhas, anota outra aí. Tão logo o escritor morreu, foi publicado um obituário que  dizia: “Edgar Allan Poe está morto. Ele morreu em Baltimore, anteontem. Este anúncio chocará muitos, mas será sentido por poucos”. Logo ficaram sabendo que o “Ludwig” que assinava tal nota era na realidade Rufus Wilmot Griswold, sujeito que alguns anos antes fora criticado por Poe e, digamos assim, não soube lidar muito bem com isso.

Em um esquema que até hoje eu não consegui compreender (pelo menos não sob o ponto de vista jurídico da coisa), Griswold torna-se executor literário de Poe e é responsável pela publicação de uma antologia que unia prosa, poesia e crítica (e que serve de base para muitas antologias publicadas até hoje em dia). Abrindo a tal coletânea, havia uma biografia que descrevia Poe como um bêbado depravado e maluco, escrita pelo Griswold. Basicamente, a imagem que muita gente tem até os dias de hoje, quando na verdade Poe só era um cara muito, muito azarado (e sim, dono de uma mente brilhante).

DO COMEÇO

Nascido como Edgar Poe no dia 19 de janeiro de 1809, as coisas já não começam a dar muito certo para ele antes mesmo que aprendesse a falar. O pai (um ator) abandona a família em 1810 e a mãe morre um ano depois de tuberculose. Poe é então criado por um comerciante chamado John Allan, que garantiu à criança educação e conforto, embora o preço fosse uma disciplina bastante rígida. É de John Allan que Poe conquistou o nome do meio, embora a família nunca o tenha adotado legalmente.

Na universidade de Virgínia, Poe faz a versão do século XIX para a cerveja com truco de universitários atuais, contrai uma dívida enorme que acaba sendo o motivo para o afastamento de John Allan. Sem a ajuda dele, Poe acaba deixando a universidade e partindo para Boston, onde trabalha aqui e acolá para tentar se sustentar, tentativa que termina até em alistamento militar.

AFINAL, O ESCRITOR

Temos como marco inicial da produção literária de Poe a coletânea de poemas Tamerlane and other Poems, publicada em 1827 e que o poeta assinou sob o pseudônimo de “A Bostonian”. Entre 1828 e 1829, Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems é publicado já com o nome de Edgar Allan Poe. Entretanto, é após a publicação de Poems: Second Edition, entre 1830 e 1831, que o cenário ideal para a criação dos contos começa a ser desenvolvido. Nesse período, o escritor envia cinco trabalhos para um concurso do Saturday Courier e, embora nenhum ganhe, no ano seguinte seriam todos publicados no periódico.

Esses cinco textos fazem parte de um projeto de Poe: a publicação do que chamaria de Tales of the Folio Club. No verão de 1833, o autor manda os contos, além de outros seis, para um concurso do jornal Saturday Visiter, de Baltimore e “Manuscrito encontrado em uma garrafa” ganha o primeiro lugar. A boa colocação garante um espaço para a publicação do conto em 1834, “The Visionary”, no Godey’s Lady’s Book, primeiro jornal de grande circulação no qual algum trabalho dele aparece.

É importante ressaltar que é essa cultura de publicação e concurso de contos e poemas que oferece uma oportunidade não só para o Poe “contador de histórias”, como para o resenhista. Tanto é que, em 1835, um dos juízes do concurso que Poe ganhara recomenda o escritor para o dono do Southern Literary Messenger, e o jornal tem suas vendas alavancadas com a publicação de vários textos de Poe entre contos, ensaios e também com “Hans Phaall”, a primeira narrativa longa do autor. Com esse sucesso, Poe ganha o cargo de editor assistente e de principal resenhista de livros neste jornal.

Apesar da boa fase, Poe não consegue publicar o já mencionado projeto Tales of the Folio Club. Além disso, em 1837 ele é demitido do Southern Literary Messenger e passa a trabalhar como freelancer, publicando contos como “Ligeia”- que o autor considerava seu melhor trabalho – escrevendo criptogramas para a Alexander’s Weekly Magazine e editoriais para a Gentleman’s Magazine.

Em 1839, o livro Tales of the Grotesque and Arabesque é publicado pela Lea and Blanchard. Um ano depois, na fusão da Burton’s Gentleman’s Magazine com The Casket (que formaria o Graham’s Magazine), Poe tem maior sucesso. Recebendo um salário de 800 dólares, com pagamento extra para textos literários, Poe consegue entrar em um período de calmaria na vida pessoal, o que colabora para um impulso na vida profissional: não apenas aumenta a sua produção de textos, mas alavanca as vendas do Graham’s. É nesse período que temos a publicação de contos como “A Máscara da Morte Rubra” e o poema “O Corvo” (pelo qual recebeu apenas nove dólares para a publicação).

Depois disso, Poe entra em uma nova maré de azar, apesar de tentativas de melhorar. Seu jornal fracassa, a esposa Virginia morre de tuberculose e aí infelizmente é ladeira abaixo até aquele dia 7 de outubro em Boston, e a história que agora vocês já conhecem envolvendo Griswold e a tentativa de manchar a reputação deste que foi um dos maiores escritores da literatura norte-americana. O curioso é que alguns textos bem importantes de Poe foram escritos já nessa fase ruim próxima ao fim da vida do escritor, como os poemas “Annabel Lee” e “A Dream Within a Dream” e o ensaio “The Poetic Principle”.

RECOMENDAÇÕES

  • Nunca leu Poe e quer saber por onde começar? Não, não vá por Assassinatos na Rua Morgue. Nove entre dez pessoas que falam “Não gosto de Poe” leram apenas esse conto, ((Ok, estou chutando a estimativa como naqueles comerciais da pasta de dente)) o que pode ser uma boa dica de que esta é uma leitura para quem já está mais familiarizado com o autor. Recomendo fortemente que comece por: O Gato Negro, O Retrato Oval, A Máscara da Morte Rubra, O Barril de Amontillado e O Coração Denunciador. Depois desses acredito que naturalmente você buscará mais Poe, tenha certeza.
  • Se você lê em inglês, minha recomendação é que reserve algumas horas da sua vida para visitar a Edgar Allan Poe Society of Baltimore. Tem absolutamente todos os textos que você possa imaginar do autor, incluindo resenhas literárias e ensaios.
  • A tradutora Denise Bottmann tem atualizado um blog sobre Allan Poe que vale a pena conferir, é só clicar aqui.
  • Eu sei que o nome Clarice Lispector faz os olhinhos de muitas pessoas brilharem, mas fiquem atentos quando forem procurar algo do Poe traduzido por ela. O trabalho que ela fez foi de traduzir e adaptar o texto para pessoas mais jovens. Então calcule: se uma tradução já muda a experiência de leitura, o que podemos dizer de uma adaptação, certo?

POE AÍ
Comentei inicialmente da influência dele sobre outros escritores, mas a realidade é que ela vai muito mais além da Literatura. Para terem uma ideia, três artigos da Wikipedia em inglês: Edgar Allan Poe and music, Edgar Allan Poe in television and film e Edgar Allan Poe in popular culture.

Ah, lembra do mistério envolvendo a morte de Poe? Não foi o último que ele nos deixou. Durante anos uma figura misteriosa aparecia no túmulo do escritor nas primeiras horas do dia 19 de janeiro, deixando lá uma garrafa de conhaque e uma rosa. Quem seria essa pessoa? Dizem que desde 2010 a tradição daquele que é conhecido como “Poe Toaster” acabou, de qualquer forma já rendeu mais um mistério para a história da vida deste grande escritor (e um conto excelente de Paulo Leminski, chamado “Além Poe”, presente na coletânea Gozo Fabuloso).

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4 thoughts on “Edgar Allan Poe

  1. O curioso, Anica, é que eu comecei exatamente por Assassinatos na Rua Morgue. Lembro como hoje o dia em que descobri Poe, enquanto curioseava a estante (é importante mencionar que a estante ficava num corredor mal iluminado) do apartamento de uma tia minha. Era noite e chovia lá fora, sem brincadeira. Peguei o livro ao acaso, li algumas páginas (nunca tinha ouvido falar de Poe) e fiquei completamente fascinado. Boa parte daquela noite (dormi na casa de minha tia) passei na companhia agradável, se bem que inquietante, de Poe.

    Você tem razão, porém, quanto ao Assassinatos na Rua Morgue. Acho que os contos são um pouco cerebrais demais para quem está se aproximando de Poe pela primeira vez. Lembro que me causaram ainda mais impacto – e arrepios – A queda da casa de Usher e O Gato Negro, por exemplo.

    1. Olá Luiz!

      Vou ser sincera: pessoalmente não gosto muito de Assassinatos na Rua Morgue, por isso quando alguém diz que não gostou de Poe e conta que aquele foi o primeiro que leu, eu indico outros para a segunda chance. Acho que o conto por si só é muito bom, mas o desfecho é meio broxante (logo com o Poe, que é mestre em desfechos!).

      Boa lembrança sobre A queda da casa de Usher, esse é um dos melhores dele mesmo. Eu cheguei a comentar brevemente sobre esse na minha monografia porque o trabalho do Poe com a ambientação é impecável (um dos pontos altos do trabalho dele na minha opinião).

      Obs: Adorei a história sobre seu primeiro contato com Poe. ;D O meu: Janeiro, férias de verão, minha mãe comprou para mim exatamente a edição com adaptação da Clarice Lispector da qual comentei. Lembro que deitei no sofá para ler e fiquei horas, conto após conto, me apaixonando completamente pelo trabalho dele. =]

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