Breves entrevistas com homens hediondos (David Foster Wallace)

Já tinha algum tempo que cruzava com o nome de David Foster Wallace, seja como indicação de amigos que conhecem meu gosto para livros, seja simplesmente através de artigos mencionando o escritor norte-americano. Ia adiando a leitura, até que ano passado li o artigo do Caetano Galindo sobre Foster Wallace e depois “Isto é água“, título que deram para um discurso que ele fez para uma cerimônia de graduação. Pronto, eu precisava ler Foster Wallace. Virou um daqueles casos (raros) em que você sabe que vai gostar do autor antes mesmo de ler algo dele – você sabe que ele te dirá algo, que marcará sua vida como leitor.

E eis que, no momento, o único livro traduzido dele aqui no Brasil é a coletânea de contos Breves entrevistas com homens hediondos, lançado em 2005 pela Companhia das Letras. Embora tenha o Infinite Jest no meu Kindle, achei que começar por Breves entrevistas parecia mais adequado: aquela oportunidade de sentir uma amostra do que é o trabalho do autor aos poucos, como uma preparação para algo que parece ser obviamente mais complexo. E não me arrependi, encontrei no livro o que esperava, e ainda me surpreendi (alguma dúvida que logo começo Infinite Jest?).

Os vinte e três contos da coletânea mostram para começar que Foster Wallace não tinha medo de ousar na forma. Eu sinceramente achava que ele seria um daqueles autores pós-Joyce que abusam do neologismo para fazer uma narrativa hermética, mas não é isso. A linguagem de Wallace é tão simples que toca diretamente o leitor. O irônico é como ele fala de modo direto (e sim, com humor corrosivo) de temas bastante pesados: sexo, depressão, solidão. As neuroses que as pessoas desejam manter escondidas são reveladas, quase como um Post Secret em forma de conto.

Como já dito, o que fica claro em Breves Entrevistas é que Foster Wallace experimenta bastante no modo de desenvolver a narrativa. Poucos contos aparecem com a estrutura normal/convencional. Seja por detalhes como a inclusão das já famosas notas de rodapé (que em contos como A pessoa deprimida e Octeto chegam a ocupar quase toda a página), seja pelo modelo esquemático em Adult World (II), a verdade é que cada texto traz uma nova surpresa.

As breves entrevistas que dão título à coletânea são divididas em quatro contos, sempre seguindo o mesmo modelo: homens sendo entrevistados, e nisso temos as respostas deles mas nunca as perguntas feitas (sempre marcadas por um “P.”). O leitor pode imaginar o que foi perguntado, e talvez esse exercício torne esses textos ainda melhores, carregados de marcas de oralidade. Saiu um filme baseado nesses contos, sobre o qual o Alessandro Garcia comenta aqui.

Meu favorito foi Para sempre em cima (se seu inglês estiver bom, você pode ouvir o próprio Foster Wallace fazendo uma leitura dele). O jogo entre tensão (a espera para saber o que o garoto fará subindo no trampolim) com a beleza das imagens criadas pelo autor é algo de deixar o leitor sem palavras. A voz que fala com o garoto parece que ao mesmo tempo fala com quem lê, e qualquer um que passou por um momento de amadurecimento se reconhecerá ali.

O mini-conto que abre a coletânea também é genial. É engraçado que o título seja tão longo (Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial) para um texto tão breve, mas o que chama a atenção aqui é como Foster Wallace consegue dizer tanto sobre as relações humanas pegando apenas um recorte, um breve momento na vida de suas personagens. E é excelente que esse conto abra Breves entrevistas, porque funciona quase como um cartão de visitas, já que é justamente isso que veremos nas próximas páginas, esses pequenos momentos das vidas das pessoas, focando seus pensamentos mais íntimos.

Alguns se apresentam como um tapa na cara, como o pai falando com o filho em Em seu leito de morte, segurando sua mão, o pai do novo aclamado jovem autor Off-Broadway implora uma benção. E é o que faz com que você não possa ler o livro e dizer que não mudou – é uma obra que mexe com você, que faz com que pense sobre você e  o mundo ao seu redor. É, por isso mesmo, uma daquelas leituras inesquecíveis.

Em tempo: O Felippe falou sobre Breves entrevistas em abril do ano passado, se você perdeu o post corre lá para conferir.

WALLACE, David Foster. Breves entrevistas com homens hediondos. Companhia das Letras, 2005. Tradução: José Rubens Siqueira. 377 págs. Preço sugerido: R$62,00.

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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20 thoughts on “Breves entrevistas com homens hediondos (David Foster Wallace)

  1. Anica, queria muito ler a tua resenha, mas não consegui.

    Quero muito ler DFW, comprei esse livro há quase 2 anos (junto com o último do Hornby), mas não consegui ler (ambos, diga-se de passagem)

    Prometo que leio após ler o livro, combinado?

    1. poisé, tuca, eu estava conversando com o pips sobre o livro e comentei algo sobre isso. eu nunca li o foster wallace no original para comparar, mas algumas decisões do tradutor me irritaram um pouco (por exemplo, manter palavras em inglês qdo não haveria prejuízo algum para a narrativa colocar em português).

      no fim das contas acho que até pelo modo como escreve, O CARA para traduzir o foster wallace é o caetano galindo. parece que infinite jest ficará por conta dele, espero de verdade que sim.

      1. Acho que o Galera e o Pellizzari são bem qualificados também. Nada contra o Siqueira, li ótimas traduções dele. Só que parece não ser o tradutor ideal para esse estilão do DFW.

  2. Eu só li uns 3 ou 4 contos do Breves Entrevistas em inglês, mas eu não achei a tradução tão horrenda. Uma das coisas que eu lembro de ter pensado WTF foi o cara traduzir Yogi Bear pra Urso Yogi. Tipo: Zé Colmeia, né? O primeiro conto, eu nunca entendi o final em inglês (One never knows, after all, now did one now did one now did one). Quanto às traduções do DFW feitas pelo Galindo, gosto de todas que li, mas lembro de implicar com algumas coisas no Incarnations of burned children. E uma vez ele brincou no Twitter que tava começando a tradução do IJ, e postou a primeira frase (“Estou sentado num escritório, cercado por cabeças e corpos” (citando de cabeça)), e eu implico veementemente com esse “num”, porque eu acho que o Hal, em português diria o “in an office” como “dentro de um escritório”. Não lembro de palavras em inglês no Breves, a não ser no Datum centurio (hard/soft date).

  3. Ok, mas eu fui ao livro do DFW com uma tremenda sede de leitura (eu havia lido, gratuitamente, no próprio site da Cia. das Letras, o melhor conto do livro, justamente o terceiro, Para Sempre Em Cima; que deve estar lá ainda) e depois terminei achando que o volume não valia tanto assim (R$ 62,00!), sendo tremendamente chato em vários trechos. Datum centurio, lá pela metade do livro, parece um log de computador; se percebi corretamente (sim, perceber, pois entender exigem outros quinhentos), vem a ser a descrição completa de um DVD de 600 GB, que tal? Enfim, acho que DFW tinha sim, suas pretensões joyceanas (não as de Ulisses, mas as de Finnegans Wake mesmo). Mas também ninguém é obrigado a ler o cara, né? Ah, sim, quem quiser um exemplar seminovo por 45 reais (Correios incluído aí), é só me procurar no SKOOB.

    1. O Para Sempre Em Cima parece ser o favorito de muita gente =D Sobre o valor do livro, eu li no blog da companhia qualquer coisa sobre ter uma revisão nos valores planejada para esse ano. 62 pila realmente é uma paulada, espero que seja um dos títulos que ganhe um novo valor, mais baixo.

  4. Datum centurio é uma entrada futurista de dicionário. O DFW era meio viciado em dicionários. Também me pareceu bizarro de início (tanto que eu pulei o conto e só fui ler depois de terminar o resto do livro), mas é bem simples e até engraçado (eu, pelo menos, lembro de rir alto nesse texto). Quanto a “pretensões joyceanas”, acho que não é exatamente isso. A literatura dele é mais ligada aos pós-modernistas americanos (Pynchon, Delillo, Barth, Gaddis), e até onde eu sei, do Joyce, o que ele mais gostava era do Retrato do Artista. Sim, ele fazia experimentações formais, até porque a ideia dele era de que a gente vive numa época absurdamente fragmentada, e ele tentava levar isso pro que ele escrevia, fora a ideia de que a literatura deveria… “desafiar” (já que eu não encontro a palavra) o leitor, etc, etc, e ele em alguns pontos se coloca como um logoterapeuta pro leitor.

    1. As “pretensões joyceanas” do DFW eu chutei mesmo, Rodrigo. Eu nunca li Finnegans Wake, mas imaginei, pelo que já ouvi dizer sobre o livro, que o americano tivesse algo incomum (ou em comum) com o irlandês. O modo hediondo de escrever do DFW encheu meu saco por diversas vezes, especialmente no Datum Centurio e naqueles malditos rodapés de A Pessoa Deprimida (ele consegue, sim, desafiar o leitor, mas também deixá-lo emputecido em vez de deprimido – era esse o objetivo da literatura dele, em parte?). E sinceramente, pelo que li do Pynchon (Vineland), do DeLillo (Ruído branco), do Gaddis (Alguém parado lá fora), continuo achando ele mais para o Joyce do Finnegans mesmo (ainda que ele preferisse o Retrato…, como você escreveu) do que para esses. E Barth não sei que é, mas se for mesmo da turma do DFW não vou ler – Bart, então, só mesmo o Simpson. De castigo, o DFW não entrou para minha lista de melhores leituras de 2011 – só tem escritor convencional lá (Dostoievski, Salinger, Roth, Walser, Zola, Treichel, Sedaris, Flaubert, Tanizaki, Melville, Cather), ele não se sentiria bem mesmo. Mas como está mortinho da silva desde 2008 não vai reclamar mesmo da corda. Para encerrar, uma saudação à DFW: “Tri-Stan: eu vendi Sissee Nar para Ecko” Quequédizerisso? Sólendo DFW.

      1. “Tri-Stan: (Tristan) eu vendi (I sold no original -> Isolda) Sissee Nar (-> Narciso) para Ecko (Eco)”. O título é uma paródia. E de qualquer forma, eu não gostei muito desse conto.

        Tinha uma piada que a irmã do DFW fazia quando lia um trecho muito chato do Infinite Jest, ela perguntava pra ele quanto ele queria irritar o leitor com aquilo.

        Os rodapés realmente são uma coisa meio chata (mas é pior no Infinite Jest, que as notas ficam no final do livro, e tu tem que ir e voltar três vezes no mesmo parágrafo, eventualmente), mas são parte integrante do (e em muitas vezes até mais importante que) texto principal. Ele era enciclopédico mesmo, e preocupado em fornecer a informação correta e o mais completa possível, porque era ele procurava por isso no que ele lia.

        O objetivo dele não era, de maneira nenhuma, deprimir o leitor. A pessoa deprimida, por exemplo, tem aquela cadência lenta e aquela argumentação de terapeuta, mas o texto mesmo vai se fechando nas necessidades da pessoa deprimida, porque a pessoa deprimida vai se fechando nos próprios problemas. A pessoa deprimida acaba tão consumida que mesmo em contato com alguém que tem obviamente problemas tão pesados e talvez mais “reais” do que ela, não consegue deixar de sobrepor os problemas dos outros com os próprios problemas. O Wallace tinha depressão (e ele escreveu muito sobre, principalmente no IJ), e muitos dos textos dele são carregados dessa carência, dessa demanda, do “ok, eu vou ser engraçado em alguns momentos, mas pra isso tu vai *ter* que me ouvir antes”. O próprio Wallace, pelo que eu já li a respeito, era assim, divertido sempre que possível, mas carente e demandante quando tinha problemas…

        Também não li o Finnegans, então não tenho como opinar se foi influência ou se a forma de escrever do DFW se parece com.

      2. Gostei do que você escreveu, Rodrigo. E me fez dar uma boa folheada no livro novamente. Achei essa pérola em A Pessoa Deprimida, que, ainda que não concorde com ela, é uma das melhores do livro. Lá vai: “(…) a única diferença substancial entre essa mulher [de que alguns personagens masculinos falavam] e um vaso de privada era que o vaso de privada não ficava seguindo pateticamente você por aí depois que você o tinha utilizado.” Phode uma coisa dessa? O DFW phodia mesmo.

  5. Rodrigo está certo. A tradução não é horrenda, ela tem umas escorregadas bem de leve. Sem contar que ao ler o DFW em inglês você percebe que não é tão difícil a linguagem dele. Não há tantas “pirotecnias”, os temas é que são complicados, a essência deles, para onde vão, o background.

    Siqueira é um ótimo tradutor, mas não creio que é um especialista no autor – o que pode vir a ser interessante dado o interesse acadêmico do Galindo.

    1. é por aí. não é horrenda, mas tem algumas coisas que me incomodaram. mas como disse, não li no original então não tenho critério de comparação, é mais de momentos em que você lê a frase em português e automaticamente sabe como é em inglês e como deveria ficar em português. enfim, nada que estrague a leitura.

      e sim, como eu comento no texto, a linguagem dele não é complicada. eu realmente achava que seria, mas as escolhas dele são sempre pelo simples, ele usa uma liguagem que se aproxima muito da fala oral e por isso mesmo mais coloquial (e nem um pouco pedante, isso é bom de destacar).

      1. Isso, da linguagem simples, oral e coloquial, deve-se a ele ser professor, né? Aliás, o discurso dele, Isto é Água, mostra o quanto ele consegue se aproximar das pessoas.

      2. óia, vou te contar que eu tive pelo menos dois professores de literatura que a brincadeira entre os alunos era que para acompanhar as aulas só com dicionário embaixo do braço, viu? =F

        mas sim, é bem isso, ele se aproxima das pessoas ao falar. acho que foi por isso até que gostei tanto do Para Sempre Em Cima. ele fala com o garoto, mas parece falar conosco. e de um modo quase hipnótico.

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