E tem outra coisa… (Eoin Colfer)

A primeira vez que ouvi falar de E tem outra coisa… confesso que torci o nariz. A pergunta que eu não conseguia deixar de pensar era “E precisava escrever uma continuação para Praticamente Inofensiva?” Achava que não, principalmente partindo do princípio de que bem, era Eoin Colfer o autor da história, e não Douglas Adams. Fui atrás de saber a história por trás da criação deste sexto livro, e o que acabei achando em mais de uma fonte é que Adams na realidade já planeja um novo volume para a série do Guia do Mochileiro das Galáxias, e que sua esposa procurou Colfer para que escrevesse esse livro que o marido não pode fazer (Douglas Adams faleceu em maio de 2001).

Depois disso comecei a olhar a coisa sob um novo ponto de vista. Eu não sei se na adolescência você já foi tão apaixonado por alguns personagens que não conseguia aceitar o fim de uma série ou a falta de volumes sequenciais, e aí passou a ler fanfics. Calma, não estou dizendo que Colfer escreve como um adolescente, sobre o estilo dele em E tem outra coisa… falo logo mais. A questão é que aí eu encontrei a resposta para minha pergunta: o que ele nos oferece é uma oportunidade de reencontrar personagens queridos em ocasião diferente.

E Colfer capricha bastante nesse reencontro. O livro é quase uma homenagem a série escrita por Adams, recheado de referências aos outros livros – o que obviamente vai acabar divertindo até o fã mais xiita. Mesmo o título é um desses casos, sendo uma citação do quarto livro, onde se dizia “A tempesta tinha agora definitivamente reduzido, e o trovão que se ouvia agora grunhia em colinas mais distantes, como um homem dizendoE tem outra coisa…” vinte minutos após ter admitido ter perdido a discussão.

Mas aqui entramos em um ponto: Colfer (autor da série Artemis Fowl) consegue “imitar” o estilo de Adams? A boa notícia é que ele não teve a intenção de fazer isso. Escreveu a história de seu jeito, e por isso mesmo acaba sendo bacana de ler: não é algo forçado, ele não tenta copiar maneirismos da prosa de Adams, e a verdade é que nem conseguiria, sobretudo se falarmos do humor. Adams foi provavelmente um dos britânicos com senso de humor nonsense mais afiado que já existiu (algo que comprova isso é o fato de que ele escreveu roteiros para o Monty Python, por exemplo). Mas Colfer tem estilo e humor próprio, e consegue dar conta da narrativa e das personagens muito bem.

A ideia para voltar do ponto em que tinham parado é que tudo aquilo que Arthur Dent, Ford Prefect e companhia viviam era na verdade um sonho, uma simulação. Isso serve como um reboot, dando início a uma nova aventura cheia de velhos conhecidos, como os vogons e Wowbagger (aquele sujeito que viajava pelo espaço só para dizer insultos para as pessoas). Ainda sobre o enredo, minha memória dos outros livros não é tão forte, mas senti que Colfer inclui bastante de mitologia nórdica na narrativa (o que acaba sendo bem engraçado).

É sim um livro bem divertido. A questão é que os fãs tem que ter em mente justamente o que foi dito anteriormente, que Colfer não quis emular o estilo de Adams. Tendo isso em mente, E tem outra coisa… é um convite para matar as saudades de personagens que há vinte anos não viviam mais novas aventuras.

E tem outra coisa…
Eoin Colfer
Tradução: Alves Calado
368 Páginas
Preço sugerido: R$29.90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Arqueiro

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7 thoughts on “E tem outra coisa… (Eoin Colfer)

  1. Comprei a coleção numa dessas promos do Submarino. Quando fui adicionar no Skoob que a tinha comprado, percebi que tinha uns probleminhas com edição. Duas capas iguais supostamente tinham número de páginas e editoras diferentes. Creio que essas novas capas (bem feinhas, se comparadas com as anteriores, da Sextante) são todas da Arqueiro, né?

    Bem, estou ansiosíssimo para ler os dois volumes que faltam. Dependendo de como for a leitura, esse aí vira obrigatório — ainda que eu tenha me cansado do estilo dele, que achei bem fraco, em Artemis Fowl.

    1. Eu gostava mais das outras capas também. O pior é que eu por algum motivo obscuro comprei os livros 1, 2, 3 e 5. Não sei mesmo porque não comprei o 4. E aí mudou a capa, e agora só garimpando em sebo para completar minha coleção com a capa antiga ><

  2. Hum, não sabia que realmente tinha saído o livro pelo Colfer. Tinha lido por aí que ele ia escrever/estava escrevendo, mas só.

    Penso em dar uma chance a ele (gosto do autor em Artemis Fowl) com esse livro, mas é sempre um “risco”. Particularmente, nem do Praticamente Inofensiva gostei muito.

    E, como os demais comentários salientaram, não gosto nem um pouco das novas capas. Pra mim isso pesa muito na hora de decidir comprar um livro. Gostaria que a ed. Sextante voltasse a publicá-los, com as bonitas capas de antes (e nada de capa de filme!).

  3. Eu acabei de ler “Praticamente Inofensiva”. Sinto-me orfão e triste! =(
    Vou comprar e ler “E Tem outra coisa”, se não fosse quase onze horas da noite, eu correria para uma livraria!!

  4. Olha, eu compartilho do teu preconceito inicial, mas acho que em mim é mais forte. E tento me incutir o pensamento que não ler uma continuação assim é um ato de desprendimento necessário na vida. Mas é curioso que com filmes não funciona tanto, talvez Hollywood já tenha me corrompido e com a literatura eu ainda guarde um pedaço de pureza no meu coração…

  5. Pingback: Lumos |

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