Vício Inerente (Thomas Pynchon)

Não sei sobre vocês, mas quando algum escritor é repetidamente elogiado não só por conhecidos que tem um reconhecido bom gosto para livros mas também pela crítica, a sensação que tenho é que terei em mãos um daqueles casos de livros desafiadores, herméticos. Daquele estilo em que normalmente pré-leituras se fazem necessárias para uma compreensão da obra, ou ainda, que só “iniciados” em alguma seita secreta poderiam absorver de fato o texto. Enfim, trocando em miúdos: não é bolinho, não.

Era o que eu sentia sobre Thomas Pynchon. Tinha lá aquele preconceito de que travaria uma batalha quando lesse o autor pela primeira vez mas não foi o caso. Pode ter sido sorte de principiante, mas através de Vício Inerente foi com surpresa extremamente positiva que descobri que Pynchon não é elogiadíssimo por ser obscuro ou para poucos, mas simplesmente por ser bom, dono de uma prosa envolvente e, acredite, divertida.

Se é ou não o melhor dele não vem ao caso, o fato é que serviu perfeitamente para que eu perdesse aquele “medo” do autor, descobrisse que não é um bicho de sete cabeças e que vale muito a pena conhecê-lo. Mais ainda, serviu para definitivamente fazer com que eu queira ler mais dele. Porque Vício Inerente é ótimo, e o principal é que não, não é um livro só para “iniciados”, ele tem tudo para agradar também variados tipos de leitores.

O enredo gira em torno das investigações do detetive Doc Sportello sobre o sumiço de um figurão do ramo imobiliário. Jogue essa história para o fim dos anos 60, adicione o fato de que o detetive Doc é um viciado, mais uma entidade chamada Canino Dourado que ninguém sabe ao certo o que é e muitas personagens vivendo em um momento chave da história dos Estados Unidos e já dá para ter ideia da loucura da história, algo que em determinados momentos até me fez lembrar um pouco de Medo e Delírio em Las Vegas, de Hunter S. Thompson.

Acredito que o que faz de Vício Inerente um livro tão divertido se sustente em três fatores principais:

1. O senso de humor: Há trechos engraçadíssimos na história, diálogos impagáveis que fazem você pensar como é que esse livro ainda não virou um filme ainda. ((A verdade é que realmente não acreditava que ninguém em Hollywood tinha pensado em fazer um filme desse livro, aí fui consultar o IMDb e surpresa! Está prevista uma adaptação para 2014, com Robert Downey Jr. como Doc e direção de Paul Thomas Anderson)) A conversa sobre Sherlock Holmes realmente existir, por exemplo, arrancou riso num horário em que eu já deveria estar bem quieta. E antes que alguém fique confuso, não misturem a ideia de livro que tem humor com a de um livro raso, não é o caso.

2. Referências: Eu adoro obras que falam de outros livros, músicas, filmes. É o tipo de coisa que faz Tarantino ser um dos meus diretores favoritos, aquela coisa de uma pequena passagem remeter a algo da cultura pop. E Pynchon parece que tem um baú dessas referências, o livro vem cheio delas, o que parece tornar alguns trechos da história ainda mais gostosos de ler.

3. Fonte de Inspiração: Doc lembra muito aqueles detetives de histórias “noir”, você quase consegue ler a voz do narrador como aquele voice-over típico dos filmes do gênero. Os romances hardboiled de autores como Raymond Chandler são uma fonte de inspiração óbvia, e muito bem utilizada nesse novo ambiente em que se passa a história de Vício Inerente.

É, como eu disse antes, uma surpresa muito boa descobrir que um autor tão amado por leitores e crítica pode escrever algo voltado para o público comum, ser divertido e realmente gostoso de ler. Vale a pena para quem quer conhecer o autor, porque de fato dá vontade de ir atrás de mais títulos escritos por ele. E para quem quer saber mais, confiram a resenha do Luciano para o livro, e segue também o book trailer de Vício Inerente:

Vício Inerente
Thomas Pynchon
Tradução: Caetano W. Galindo
464 Páginas
Preço sugerido: R$58,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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8 thoughts on “Vício Inerente (Thomas Pynchon)

    1. é bem esse que quero ler agora. o chato é a lista dos quereres, que está cada vez mais longa. to achando que vou tirar férias em janeiro para colocá-la em dia ><'

    1. Ah, depois que você passar dessa Parte dos crimes from hell e chegar na parte de Archimboldi você vai gritar: Por queeeeeeeeeeeeeeeeeeee que eu fiquei adiando isso?

      Aí você vai querer reler pelo menos a primeira parte de volta pra melhor aproveitar a quinta. Ou tudo de volta.

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