Shakespeare escrevia por dinheiro: Tempo para ler

É inevitável: pessoa aleatória começa a fazer parte da minha rotina, repara nos livros que leio e logo comenta: “Nossa, mas quantos livros você lê por semana? Está sempre mudando!” . Eu fico meio sem jeito de dizer que são em média dois por semana, ainda mais considerando que tem alguns anos 2 era a média de leitura anual do brasileiro. Aquela coisa, fica parecendo que estou querendo me exibir. Aí o que eu invariavelmente escuto é algum elogio ao meu hábito de leitura (obrigada) e a famosa frase “Puxa, queria ter tempo para ler.”

Eu apenas sorrio, porque mentalmente o que passa na minha cabeça é, primeiro: a pessoa pensa que sou uma à toa na vida, afinal, se ela não tem tempo para ler, o que eu que leio cerca de dois por semana sou? Alguém com muito tempo livre, certo? Bom, não sou. Não que eu goste de dizer esse tipo de coisa para pessoas que acabaram de bater na porta da minha vida pessoal, mas eu sou gente como a gente, aquela coisa: trabalho, cuido de casa, cuido do meu filho e, por acaso, gosto muito de ler.

O que nos leva para a segunda coisa que penso: “Meu filho, não é questão de ter tempo. É questão de querer.” Não estou te julgando, não. Eu mesma adoraria estudar francês mas não tenho tempo, então sei do que estou falando sobre essa coisa de não ter tempo para fazer algo. Não é uma necessidade básica, não é um desejo incontrolável, então eu chego cansada em casa e a última coisa que eu quero é ter mais uma atividade para me preocupar, e com isso vou adiando o francês (e aulas de sax, violino e mais uma infinidade de coisas que queria, mas não tanto assim).

O problema de muitas dessas pessoas que “queriam ter tempo para ler” é que elas veem na leitura uma atividade nobre, porém cansativa. É o equivalente a seguir dieta balanceada ou praticar exercícios: ninguém é doido de negar que são atitudes benéficas. Mas também é bem difícil encontrar quem diga que prefere salada de repolho à qualquer coisa que leve um baconzinho, por exemplo. Enfim, meu ponto é: a pessoa não precisa arrumar tempo, ela precisa é ajustar a visão que ela tem de literatura.

Sei que para quem gosta isso soa meio estranho, mas literatura é prazer. Eu não li mais de cem livros esse ano porque sou masoquista, li porque sinto falta quando não faço isso, porque eu gosto – me acalma, me traz um punhado de coisas novas e o principal, me diverte. Tanto que não vou a nenhum lugar que sei que enfrentarei fila sem carregar um livro comigo. Então se não é questão de tempo, mas de mudar o modo como pensa o hábito da leitura, deixo as seguintes sugestões:

1. Dane-se o cânone, busque o que você gosta: vai querer começar seu hábito de leitura lendo Ulisses, é isso mesmo, meu filho? Não, né. Defina o seu gosto e vá atrás disso. Você curte fantasia? Curte horror? Não tenha medo de seguir por esse caminho só porque os livros desses gêneros não estão em listas de “livros que você deve ler antes de morrer”.

2. Reserve um horário para ler: Se no começo não é hábito, você precisa reservar um horário para ler todos os dias, até para que você não acabe deixando de ler um livro porque ficou semanas sem abri-lo e perdeu o fio da meada. Todo dia leia um pouco, nem que sejam só cinco páginas. Eu recomendo a hora antes de dormir, é bem relaxante e como dormir é algo que você faz todos os dias, não tem como “esquecer”.

3. Insista: Para adultos, passos de formiguinha costumam ser frustrantes e a consequência disso é sempre o abandono da atividade. Aparentemente ninguém gosta de se sentir “iniciante” em algo, e pensar em termos de cinco páginas por dia quando tem uma doida varrida que lê dois livros por semana parece até que você está indo lento demais, que não vale a pena e o melhor é parar. Não pense isso. Insista, continue.  Primeiro porque cada qual tem seu ritmo (disso falo em outro momento) e segundo porque é bem provável que das cinco você pule para dez, vinte, trinta – até porque começará a ler não só naquele horário que reservou, mas também no ônibus, na fila do banco, enquanto espera alguém, etc.

E então é isso. Não me venham mais com esse conversê de falta de tempo. Até porque vá lá, ler é o tipo de atividade que você pode fazer em vários momentos do seu dia (até no banheiro, embora eu já tenha lido que tem quem não recomende o hábito). E sobre os quase dois livros por semana, mês que vem eu volto para falar sobre ritmo de leitura.

Livros lidos: As Esganadas (Jô Soares), Os gatos (Patricia Highsmith), The Paris Wife (Paula McLain), Rock n’ Roll e outras peças (Tom Stoppard), Contos de Amor, de Loucura e de Morte (Horacio Quiroga), A felicidade é fácil (Edney Silvestre) e Vício Inerente (Thomas Pynchon)

Leituras em andamento: Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children (Ransom Riggs)

Livros que chegaram: Os gatos (Patricia Highsmith), Rock n’ roll e outras peças (Tom Stoppard), Contos de amor, de loucura e de morte (Horacio Quiroga), A felicidade é fácil (Edney Silvestre), Vício inerente (Thomas Pynchon)

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13 thoughts on “Shakespeare escrevia por dinheiro: Tempo para ler

  1. É pessoal, falta de tempo não é desculpa. Tendo ou não tempo, sempre andei com um livro debaixo do braço ( levo até em festas, às vezes, quando eu sei que eu não vou ter nada pra fazer), mas o que eu posso fazer? Eu sinto falta dos livros. Já virou até mania, mesmo que eu sabia que eu não vou conseguir ler ( mas não recomendo se você for distraído como eu, já perdi o livro de uma amiga assim).

    1. Eu também levo sempre meu livro na bolsa, mesmo que saiba que não vou poder ler… Pior! Se o livro está acabando, eu já saio com o próximo de medo do livro acabar e eu não ter o que ler…

      É, acho que sou meio doente

  2. Anica, amei as dicas! Eu também sou viciada em leitura (leio de dois a três livros por semana), e minha irmã, que também gosta bastante de ler, sempre vem com essa de que “não tem tempo”… Desde de o começo do ano, acho que ela leu um ou dois livros, com base nessa.

    Uma das coisas que me ajuda é ler mais de um livro por vez… Acho que isso é bom por vários motivos, apesar de ter gente que critica essa hábito. Primeiro porque já deixo cada livro em seu lugar: um que deixo direto na bolsa, para ler no metrô, no ônibus… E outro que fica na cabeceira, para a hora de dormir… E assim por diante.
    Outra vantagem é para quando bate aquela falta de vontade de ler um livro. Às vezes isso acontece: naquele dia, você não está no clima de ler um tipo de literatura – daí, você recorre a outro. Quando o bode passa, você retoma… Melhor do que se obrigar a ler algo que você não está no clima de ler naquele momento, não é? =)

    1. Oi Juliana!

      Eu costumava fazer isso também, tinha o que estava lendo do kindle e o impresso, o problema é que eu fui pegando uma sequência de livros muito bons, aí sabe quando você quer ler só aquele só para ver no que vai dar? É o que tem acontecido comigo /o

  3. A literatura e a leitura precisam de difusão, por isso, sou grato a pessoas como a senhorita: que difunde a literatura e a leitura. Muito obrigado. É um imenso prazer poder encontrar pessoas que persistem defronte as mais diversas dificuldades da vida moderna, em uma atividade fartamente negada à posto de inutilidade ou ociosidade. A leitura é uma arte, e por tanto, precisa de constantes tentativas, como o artesão que dá o molde ao barro ou o escultor que com o cinzel encontra a forma de Afrodite no marfim.

    Obs: deixou-lhe o convite para conhecer o Folhas Avulsas, na tentativa humilde de também difundir a literatura.
    Abraço

  4. Eu admito que já usei muito essa desculpa, e ainda me irritava com meu ritmo de leitura lerdo, devagar, quase-parando. Mas sou prova que a persistência trás ótimos resultados, tanto que meu novo ritmo de leitura é de quase um livro por semana, ando sempre com mais de um livro na mochila e aproveito cada momento para leitura.

    É preciso criar o hábito, depois é apenas aproveitar o prazer que a leitura trás.

  5. Anica, você conseguiu dizer o que, na minha opinião, é o que a maioria dos leitores queriam dizer. Essa questão de falta de tempo é complicado, mas quem quer sempre consegue, sempre.
    Achava mesmo que faltava uma ‘manifestação’ sobre esse assunto por aqui, já que nós leitores sofremos um tipo de bullyng quando nos perguntam o que fazemos e como conseguimos ler muitos livros.

    1. A parte de como conseguir ler muitos livros quero falar em outro momento, pq é um problema até entre pessoas que tem o hábito de ler. Fulano leu 20 livros, Ciclano leu 10 e aí o que leu 10 começa a argumentar que Fulano “não aproveita a leitura, não é possível que tenha lido direito”, etc. Pfft, bobagem. Mas vou falar mais disso logo, logo ^^ Abraço!

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