Contos de amor, de loucura e de morte (Horacio Quiroga)

Em seu Decálogo do Contista (presente na edição de Contos de amor, de loucura e de morte da Clássicos Abril), o escritor uruguaio Horacio Quiroga coloca como regra número um “Creia em um mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov – como em Deus.” Parece um conselho até um tanto forte, mas não é possível dizer que não é honesto. Nos contos de Quiroga fica evidente que ele levava isso à sério, e de fato tinha mestres que acabaram se refletindo em sua obra, em alguns casos de forma até óbvia.

Ao menos no meu caso, uma pessoa que tem um gosto especial pela obra de Poe, não dá para negar que muito do escritor norte-americano aparece nas páginas de Contos de amor, de loucura e de morte. Mas não se engane: não é cópia barata, não é tentativa de imitar o mestre. É como se a leitura de outros escritores tivessem fornecido ferramentas para que Quiroga sozinho construísse sua obra. De Poe, por exemplo, ele toma emprestada a importante lição do clímax coincidindo com a conclusão do conto – causando um efeito em que o leitor fica com a história na cabeça por muito tempo depois.

É o caso principalmente de A galinha degolada, talvez um de seus contos mais famosos, cujo desfecho é simplesmente impressionante, até por sua crueza. De Quiroga uma característica importante parece ser o texto enxuto, sem grandes desvios que eventualmente aparecessem só para dar corpo ao texto. Ao contrário: o que se vê nas páginas é um retrato montado com precisão, no qual todos os elementos são necessários para um efeito final (como no caso de Os barcos suicidas ou ainda O arame farpado).

Há um tanto de horror também em suas histórias, como é possível ver em O travesseiro de plumas (presente na coletânea Contos de Horror do Século XIX da Companhia das Letras). Não querendo estragar a surpresa de algum futuro leitor de Quiroga, eu desafio qualquer um a usar um travesseiro de penas sem qualquer receio depois de ler esse conto. O interessante no caso da obra de Quiroga é que o horror se faz do cotidiano (do amor, loucura e morte?), e talvez por isso toque tão profundamente o leitor.

Algo que também chama a atenção é uma certa familiaridade com o espaço em que se passam as histórias. Quiroga é uruguaio, mas boa parte de seus contos se passam na Argentina. A vizinhança possivelmente trouxe a já dita familiaridade, com palavras lugares e personagens que poderiam muito bem circular pelo Brasil (como em Yaguaí).

É uma coletânea bastante interessante, talvez o conto que tenha menos me agradado seja justamente o primeiro, Uma estação de amor. Os demais são ótimos, daqueles que a leitura simplesmente flui e é de fato um prazer. Tanto que chega até a ser uma pena que o livro seja tão curto, tendo não muito mais do que 200 páginas, incluindo aí o já mencionado Decálogo do Contista e um Posfácio.

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