O Cemitério de Praga (Umberto Eco)

Os Protocolos dos Sábios de Sião são tidos hoje em dia como uma fraude, estiveram presentes em alguns pontos importantes da história desde que surgiram. O documento foi utilizado pela polícia secreta do Czar Nicolau II (como modo de reforçar a posição desse) e anos depois por Adolf Hitler, para justificar a perseguição aos judeus. O texto é uma espécie de ata de uma assembléia na qual judeus e maçons se encontram para planejar a dominação mundial, através do acúmulo de riquezas, entre outras metas. A questão é que a autoria dos Protocolos é bastante nebulosa: não se sabe ao certo quem escreveu, até porque para alguns parte do documento é cópia de outros escritos, sendo adicionado ao texto o elemento antissemita.

O que Umberto Eco faz com seu O Cemitério de Praga (lançado no Brasil pela Editora Record) é criar um romance usando como premissa justamente esse caráter misterioso e tom de teoria de conspiração que envolve Os Protocolos dos Sábios de Sião. É por si só um prato cheio para uma excelente trama, que não deve nada para aqueles que gostam de histórias que envolvam complôs, espionagens e outros elementos de narrativas similares.

O charme de O Cemitério de Praga é que as personagens de Umberto Eco realmente existiram. Tirando o narrador, toda a galeria de figuras que vão desde “Fröide” (sim, Freud) até o escritor Alexandre Dumas. São tantas personagens e tantos fatos históricos abordados nas páginas do diário de Simone Simonini que para o mais leigo sobre esse período é inevitável diversas pesquisas sobre essas figuras e momentos. Mas não pense que isso é um enfado: Eco as retrata de tal maneira que é realmente a curiosidade que leva o leitor a querer saber mais sobre isso.

A narrativa apresenta três pontos de vista diferentes, e nisso dá para dizer que um outro mistério se constrói além do que envolve Os Protocolos. Temos um narrador (texto em negrito), e além disso temos o diário de Simonini, que de quando em quando é “invadido” por um certo Dalla Picolla – parte da trama gira em torno de quem afinal de contas é Dalla Picolla, e como ele sabe dos segredos mais obscuros de Simonini (embora a realidade é que essa questão tem uma resposta bastante óbvia para quem está atento desde o início).

Outro fator positivo de O Cemitério de Praga são as descrições que Eco faz, tanto do espaço quanto – surpresa! – de comidas. Nos dois casos é quase possível se transportar para dentro da história (a abertura na qual o narrador descreve o lugar onde vive Simonini, por exemplo, é espetacular). Mas quanto à comida é um elemento importante porque faz parte de uma característica marcante de Simonini, um apaixonado pela boa mesa. A descrição dos pratos que devora mostra exatamente isso, o gosto que ele tem por comida, o prazer que tira disso. É um traço marcante de uma personagem que carrega consigo como outra característica um azedume que em alguns momentos beira ao cômico.

Talvez algo que se perca no fluxo da narrativa e que merece nota é a história de ódio que o livro carrega. O desprezo de Simonini por judeus, maçons e o que mais lhe surge na frente é, por si só, uma ótima alegoria para a estupidez do ódio que se nutre pelo desconhecido. Como esse ódio é em muito criado pela ignorância e, principalmente, como é perigoso. Acredito sim que O Cemitério de Praga funciona não só como um romance com uma trama eletrizante, mas também como um alerta, porque muito do comportamento de Simonini se repete nos dias de hoje.

Assim, O Cemitério de Praga não é exatamente um livro fácil, até porque a pluralidade de vozes, personagens e eventos acaba exigindo bastante do leitor. Mas é um desafio que é vencido de forma prazerosa, até porque Eco sustenta muito bem a narrativa, envolvendo o leitor no mistério e nos desdobramentos das ações de Simonini.

O Cemitério de Praga
Umberto Eco
Tradução: Joana Angélica d’Ávila Melo
480 Páginas
Preço sugerido: R$ 49,90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site do Grupo Editorial Record

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26 thoughts on “O Cemitério de Praga (Umberto Eco)

  1. Parabéns Anica, muito boa sua resenha sobre o Cemitério de Praga, eu peguei e larguei umas 3 vezes este livro, na quarta tentativa embalei e não consegui mais largá-lo, mesmo tendo como personagem principal um tipo odioso.
    Esse foi meu primeiro livro de Umberto Eco, na realidade só me animei a comprá-lo após ler algumas criticas na Itália que diziam ser seu livro mais acessível,
    Nem penso em como seria a leitura de um livro como esse sem internet a disposição para fazer buscas enquanto os vários complôs vão sendo traçados.

    1. Olha que coincidência, estava pensando nesse livro hoje, e exatamente por um ponto que você comenta, sobre o narrador/personagem principal ser um tipo odioso. Não é engraçado que Eco tenha conseguido nossa atenção, mais ainda, que esse narrador tenha conseguido mesmo sendo tão odioso?

      Obrigada pelo elogio sobre a resenha ;D

  2. O que a sinopse não aborda no maravilhoso romance de Eco, é o fulcro da questão, É O Cemitério de Praga (prosaico cemitério judeu), onde doze rabinos se reúnem a cada cem anos e dizem toda a verdade sobre a política dos judeus para dominar o mundo. Além disto, faz inúmeras referências ao modos operandi dos judeus e como foram (e ainda são) odiados pela sua falta de generosidade, cobiça, mentira, ódio aos não judeus e uma doentia visão de acúmulo de riquezas que é traduzida pela usura e falta de amor ao próximo. Cita que nas guerras, nunca se vê um judeu defendendo o país que lhe acolheu, pois fogem, escondem-se e preparam uma boa forma de abocanhar o botim. Mas como sempre, aproxima-se o dia de pagar a conta, como sempre pagaram: com o sofrimento e a injúria.

    1. Como comento no meu post:

      “Talvez algo que se perca no fluxo da narrativa e que merece nota é a história de ódio que o livro carrega. O desprezo de Simonini por judeus, maçons e o que mais lhe surge na frente é, por si só, uma ótima alegoria para a estupidez do ódio que se nutre pelo desconhecido. Como esse ódio é em muito criado pela ignorância e, principalmente, como é perigoso. Acredito sim que O Cemitério de Praga funciona não só como um romance com uma trama eletrizante, mas também como um alerta, porque muito do comportamento de Simonini se repete nos dias de hoje.”

      😉

      1. tb tive essa impressão
        bom, pelo seu apelido ‘Amador’ deve ser um amador no assunto sobre os judeus
        sei trocadilho péssimo xD

      2. Como as pessoas são rápidas para levantar as mãos cheias de pedras. O comentário está reproduzindo o pensamento do personagem. O próprio Umberto Eco foi criticado pela comunidade judaica e causou muita polêmica com a publicação do livro. É o mesmo tipo de movimento dos que querem coibir o Moby Dick por ser ecologicamente incorreto, ou o Huckleberry Finn por tratar de forma pejorativa os negros, ou A Última Tentação de Cristo por retratar Jesus de um modo não convencional.
        Creçam, gente.

      3. J. Flemming, considerando que o Sr. Amador aparentemente não sabe como deixar claro citações ou ideias de terceiros, qualquer interpretação de nossa parte que ele tenha algum tipo de preconceito velado é totalmente justificada. Além disso, ele não procurou dirimir tal questão. Sinceramente, se ele pensa realmente de tal forma, só podemos sentir asco. Contudo, se é falha de conhecimento dos sinais gráficos para ilustrar isso, concedemos que cometemos um erro de julgamento. No mais, shame on you, Mr. Flemming, por não tentar entender os nossos motivos em primeiro lugar, criticando-nos pelo lado que tomamos na questão. Espero que o senhor desenvolva poderes de empatia e senso crítico para livrá-lo de possíveis mal-entendidos no futuro.

  3. Anica, parabéns. Você escreveu objetivamente tudo aquilo que eu escreveria se tivesse o seu dom. De fato, se não fosse a Internet a leitura seria muito difícil. Estou até emocionado ante a clareza de seu raciocínio.

  4. Estou começando a ler o livro e com certeza é um livro para ser lido com bastante atenção aos inúmeros acontecimentos que surgem quase que rapidamente, transportando o leitor de um lado para o outro. Os fatos verídicios chamam a atenção, mas as personagens – no caso os ficcionais – são apresentadas de forma a você odiar. Logo no início, você se surpreende (assim aconteceu comigo), o narrador tem ódio a tudo e a todos, cheguei a pensar: “ele gosta de algo/alguém?”. Logo em seguida tive a resposta: “uma boa comida”. Um verdadeiro glutão rsrsrs Estou adorando.

  5. Anica
    Gostei muito do que você escreveu sobre o livro. Gostaria de enfatizar o prazer da comida pelo protagonista, acredito que isso seja uma forma de “humanizar” o personagem. O que você acha? Ele fala com muita propriedade dos pratos, das especiariais e etc. Um abraço.

    1. Olá, Iolene Beltrão ! Primeiro desculpe a demora na resposta, eu não tinha visto seu comentário na época =( Obrigada pelo elogio, e concordo com você sobre o prazer da comida – foi bem a sensação que eu tive também!

  6. Ia ler essa resenha só para poder dizer sobre o que o livro trata para os clientes que me perguntam lá na livraria, mas agora eu quero ler! Muito boa resenha, Anica!

  7. Deixei para ler a resenha depois de acabar a leitura do livro e tenho que dizer que gostei muito do que tu escreveste.
    Com certeza a questão do ódio injustificado que Simonini tem de todos aqueles que, de algum modo, são diferentes dele deve servir como um alerta. Até porque, como tu disseste – e como a gente percebe daquele comentário acima – esse tipo de pensamento continua existindo nos dias de hoje.
    Por outro lado, a gente não pode deixar de falar da maravilhosa narrativa de Eco, né? As descrições de lugares e comidas são realmente espetaculares e me deixaram com muita vontade de provar aqueles pratos rs
    É, sem dúvida, um ótimo livro, com uma história muito interessante!

    bjs

  8. Gostei da resenha porque é bem objetiva, mas alguns comentários me dão a impressão de que houve pouca reflexão sofre a farsa. O livro é a história de um farsário, um tipo asqueroso, mas é também uma história de como a farsa pode ser utilizada para transformar a realidade. É evidente que nem Umberto Eco é antissemita como os conceitos narrados por Simonini são também falsos. Tratam-se de preconceitos e mentiras disseminadas através dos tempos, que geraram uma falsa imagem sobre os judeus e talvez tenham influenciado o pavoroso Holocausto. Umberto Eco mostra que a a linguagem é uma arma, especialmente pelo seu dom de conferir realidade ao que decididamente não a tem. Paradoxalmente, o livro, o enredo, não é uma farsa. E este é seu ponto mágico, o quid que dá ao livro o caráter de excepcional obra de arte.

  9. Li sua resenha obre o CEMITÉRIO DE PRAGA e devo dizer que concordo com você. O livro é fantástico. parabéns por sua resenha.

  10. A temática do livro não é somente a propagação do ódio por aquilo que não se conhece, mas também trata de como é fácil plantar uma mentira, ou seja, como é fácil fazer uma sociedade acreditar em algo basta saber como fazer e com quem se relacionar.

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