Shakespeare escrevia por dinheiro: Recebendo indicações

Tempos atrás falei sobre quando lemos algo tão legal que queremos logo compartilhar com todo mundo, esperando que várias pessoas leiam e assim tenha gente para conversar sobre o título em questão. Este mês especificamente por causa de um livro que li acabei pensando um pouco em como é estar do outro lado, receber essas indicações. Não é tão simples assim, não.

O que aconteceu comigo é que minha amiga sugeriu Martin Page com Como me tornei estúpido. Lembro até agora, ela sacando o livrinho da bolsa e dizendo “Sei que você tem um monte de coisa para ler, mas arruma um tempo para esse aqui que eu tenho certeza que você vai adorar”. Isso foi em agosto, só agora em outubro consegui o tal do tempo para ler. E sim, ela estava certíssima, adorei. Na realidade, gostei tanto que já engatei um outro livro do Page logo após esse. A questão é: ela me conhece. Mais do que isso, ela conhece meus gostos literários.

Mas o que fazer quando um sujeito muito bem intencionado vem indicar para você algo que obviamente não faz seu estilo? Já aconteceu comigo mais de uma vez: a pessoa sabe que eu gosto de ler, chega lá com um livro pentelhéééésimo e não basta só querer que eu leia, mas também depois quer minha opinião sobre o negócio. E na tentativa de não ferir os sentimentos da criatura você diz que achou “bacana” e pans, no próximo aniversário você ganha um outro título do mesmo autor. Cuidado, não caia nessa, diga sempre a verdade.

Outra coisa é quando a pessoa indica o livro dizendo que “É muito você”. É um perigo, e só me dei conta depois que eu mesma fiz isso. Fechei o Como me tornei estúpido pensando que meu marido tinha que ler aquele livro, porque o protagonista era a cara dele. Quando faço a sugestão, ouço a resposta: Vou ler só porque quero saber que imagem você faz de mim. Já pensou se ele lê e não gosta do Antoine tanto quanto eu gostei? Vou dormir no sofá. Então mesmo que você ache que uma história é muito parecida ou tem personagens muito parecidos com a de alguém que você conhece, não vá cometer o erro de comentar isso com a pessoa que você espera que leia o livro: ela pode se ofender.

Aí quanto a receber indicação tem algo que me aborrece muito, quando alguém além de emprestar o livro passa um verdadeiro tutorial de como “melhor aproveitá-lo”. Sou uma leitora meio libertária, gosto de descobrir as coisas de modo pessoal (e se possível caótico). Detesto quando alguém vem me falar de um autor e aí já começa com a ladainha do “Você deve começar pela obra x, depois leia a y e só então a z”, como se existisse uma ordem correta para descobrir um bom autor.

É evidente que quando nos apaixonamos por um escritor o natural será indicarmos aquele mesmo livro através do qual o conhecemos para outras pessoas, como se ele fosse o gatilho para aquela nova paixão literária. Mas não é assim que funciona. O livro que eu leio não é o mesmo que você lê, por isso a tal da ordem que você acha certa pode não ser a melhor para outra pessoa. Um exemplo? Se eu tivesse lido O Silmarillion antes de O Senhor dos Anéis, provavelmente nunca teria embarcado nessa de Terra-média. E mesmo assim tem fã que defende que a leitura de Tolkien deveria começar ali. Valha-me. Mas se esse foi o que caiu em suas mãos e você quer começar por aí, vai em frente, dou o maior apoio.

Entretanto a verdade é que mesmo com esses poréns, é algo muito bom receber indicações de terceiros. Se eu seguisse só minha linha de leitura provavelmente hoje em dia seria especialista em literatura inglesa do século XIX, mas não conheceria tanta gente boa que conheci aceitando indicações, como o próprio Page.

Livros lidos: Por que não sou cristão (Bertrand Russell), Como Me Tornei Estúpido (Martin Page), Pergunte ao Pó (John Fante), The Discreet Pleasures of Rejection (Martin Page), O anel mágico da minha tia Tarsila (Tarsila do Amaral), A gangue do pensamento (Tibor Fischer), Retalhos (Craig Thompson),  Mozipedia: The Encyclopaedia of Morrissey and the Smiths (Simon Goddard), Morango Sardento e o valentão da escola (Julianne Moore),  The Gunseller (Hugh Laurie),  O Cemitério de Praga (Umberto Eco).

Leituras em andamento: As esganadas (Jô Soares).

Livros que chegaram: O anel mágico da minha tia Tarsila (Tarsila do Amaral), Retalhos (Craig Thompson), Morango Sardento e o valentão da escola (Julianne Moore), O Cemitério de Praga (Umberto Eco), As esganadas (Jô Soares).

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3 thoughts on “Shakespeare escrevia por dinheiro: Recebendo indicações

  1. indicações são realmente algo perigoso. Por sorte, quem me indica livros normalmente é quem me conhece de verdade e quase vice-versa. Só não consegui ainda que meu marido se engatasse numa leitura…

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