The Discreet Pleasures of Rejection (Martin Page)

Virgil um dia chega em casa (a saber, um apartamento em uma região de prostituição de Paris) e percebe que a secretária eletrônica está piscando. Vai ouvir a mensagem, na qual uma moça chamada Clara diz de forma bastante precisa que não pode mais continuar o relacionamento com Virgil, e que está tudo acabado entre os dois. O detalhe: Virgil não conhece, ou pelo menos não lembra de nenhuma Clara, que dirá de ter em algum momento namorado a menina.

Este é o ponto de partida do romance The Discreet Pleasures of Rejection, de Martin Page, que chegou aqui no Brasil pela Rocco como Talvez uma história de amor. Assim como em sua obra mais famosa, Como me tornei estúpido, Page parte de uma premissa amalucada para mergulhar fundo nos pensamentos de sua personagem principal, e explorá-los de tal forma que por mais doido e cheio de manias que seu protagonista possa parecer, ainda assim ele lembra muito do próprio leitor, ou de pessoas conhecidas do leitor.

É evidente que muito do que chama atenção na narrativa é justamente quem é Clara, se é um mal entendido, se é só concidência ou se Virgil está mesmo ficando patologicamente esquecido. Mas isso não é o principal. O telefonema de Clara funciona como o gatilho para que Virgil passe a questionar seus antigos relacionamentos, mais precisamente o modo como convive com outras pessoas, buscando entender por qual motivo no final ele sempre é abandonado. Há um certo tom de Nick Hornby e seu Rob Fleming de Alta Fidelidade, com os amores funcionando como pano de fundo para falar de como a pessoa na realidade se relaciona com o mundo.

The Discreet Pleasures of Rejection é também uma história de amor por Paris. Para quem já conhece a cidade francesa, ler os caminhos que Virgil faz por lugares conhecidos (incluindo até os mercadinhos Monoprix) é quase que uma forma de viajar novamente para aquele lugar. Lembro de poucos escritores descrevendo tão bem um espaço, sem que a inclusão dessa descrição seja enfadonha ou soe desnecessária. As andanças de Virgil parecem complementar o texto, dar mais cores para ele.

O maior problema desse romance é provavelmente o fator cobrança. Eu, por exemplo, fiquei tão encantada com Como me tornei estúpido que senti uma necessidade imediata de ler mais do Page. Não é que The Discreet Pleasures of Rejection seja pior que Como me tornei estúpido, aliás, ele tem em Virgil um protagonista tão cativante quanto Antoine. O problema é que obviamente os livros não são iguais, então demora um pouco até o leitor se acostumar com o fato de que a acidez em um livro é bem mais diluída no outro.

De qualquer forma, foi uma ótima experiência, e vou continuar procurando mais títulos de Page. O próximo provavelmente será A gente se acostuma com o fim do mundo, mas agora vou dar um tempo para justamente evitar essa primeira sensação estranha que tive ao começar a ler um outro título do autor. Para quem gosta de reflexões sobre pessoas mesclados com um ótimo senso de humor (com algumas pitadas de nonsense), fica a sugestão, pode ir atrás de The Discreet Pleasures of Rejection sem medo.

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2 thoughts on “The Discreet Pleasures of Rejection (Martin Page)

  1. Ola Anica, acabei de ler Peut-être une histoire d’amour, concordo com praticamente tudo que está na sua resenha, também fui para o livro com a mesma preocupação, mas me diverti também muito com esse livro do Martin Page.
    Talvez essa sensação de falta de acidez que você sentiu possa em parte ter vindo do fato de você ter lido através de dois tradutores diferentes?

    1. Oi Ary!

      Sabe que eu nem tinha pensado nessa questão dos tradutores? Pode ser mesmo, inclusive porque o Como me tornei estúpido li em português, e o The Discreet Pleasures of Rejection foi em inglês. às vezes a própria língua acaba imprimindo um tipo de humor e nós nem percebemos, né? Acho que é uma boa hipótese.

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